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Montenegro trouxe o Zigue e o Zague, Pedro Nuno tentou não trazer Costa e os outros trouxeram tudo

4 mai 2025, 23:54
Debate com todos os partidos (Créditos Pedro Pina - RTP)

Debate com todos os partidos passou grande parte do tempo a discutir a questão da Spinumviva. E não saímos de onde estamos: o primeiro-ministro garante que não há nada, enquanto os sete que tinha à sua volta continuam a não acreditar totalmente nesta versão

Um é o Zigue, o outro é o Zague, uma espécie de Doutor Jeckyll e Mr. Hyde da política. Essa foi a ideia que o primeiro-ministro quis passar do secretário-geral do PS - ou dos secretários-gerais do PS, como Luís Montenegro quis fazer crer.

Em dois momentos, primeiro sobre a imigração e depois sobre a habitação, o primeiro-ministro trouxe essa mesma ideia, com os vários partidos que se sentavam, quer à sua esquerda, quer à sua direita, a notarem na ideia algo que vinha preparado de casa.

A ideia é fácil: dizer ao eleitorado que o seu principal opositor, Pedro Nuno Santos, tem duas caras e duas versões nos diferentes temas. Um raro momento de ataque de Luís Montenegro, que pareceu não querer fazer demasiado barulho, quase como se não quisesse que se lembrassem dele.

E resultou, em grande parte, porque se falou quase tanto dos governos de António Costa, dos quais Pedro Nuno Santos fez sempre parte, como do ano e picos que está prestes a terminar para este Governo.

Mesmo quando o foco era colocado no que está a ser feito, Luís Montenegro voltava sempre “há um ano”, como fez na Saúde, para destacar a valorização das carreiras dos médicos, mas também de “todas as profissões que colaboram com o Serviço Nacional de Saúde”.

Na Saúde o que se fez na Imigração e também na Habitação, sobretudo nesta última, com os vários candidatos da direita a lembrarem que Pedro Nuno Santos teve, entre 2019 e 2023 a tutela daquela mesma pasta.

"É evidente que não tivemos tempo de provocar um efeito no mercado. Estamos a atuar do lado da oferta e do lado da procura", apontou Luís Montenegro, referindo um aumento da construção pública, mas também uma linha de financiamento para os municípios cumprirem as suas metas.

Medidas, entre muitas outras, que, segundo o primeiro-ministro, serviram para ajudar jovens casais portugueses a conseguir comprar habitação. Mariana Mortágua diria ao fundo que “nem todos conseguiram”, enquanto Pedro Nuno Santos reforçava: “A maioria não conseguiu”.

Mas, mesmo admitindo um problema de atraso no setor, Luís Montenegro atirou para os governos de António Costa, e indiretamente para a gestão de Pedro Nuno Santos enquanto ministro, o “medo” incutido junto dos senhorios, o que impede, na ótica da AD, que existam mais casas disponíveis no mercado de arrendamento.

Acusações já depois de Pedro Nuno Santos até ter admitido que concorda com a AD numa coisa: é preciso mais construção, “é preciso construir mais”. “E pára aí”, apontou o secretário-geral do PS, lamentando que se esteja hoje mais longe de conseguir comprar uma casa.

O socialista apontou que outros governos deviam, há 20 e 30 anos, ter começado a pensar no assunto. E foi aí que Carlos Daniel lembrou que foi o PS que mais tempo esteve no poder nesse período.

Só que Pedro Nuno Santos passou discretamente ao lado do lembrante, dizendo antes que medidas bondosas do Bloco de Esquerda podem ter efeitos nocivos, até porque "a regulação do mercado é importante".

Nocivo à esquerda o Bloco de Esquerda, nefasto à direita: "Todas as medidas que a AD tomou tiveram o efeito nefasto de aumentar a pressão do lado da procura".

Do lado nocivo, na visão de Pedro Nuno Santos, Mariana Mortágua quis puxar para si o mérito de ter trazido uma das duas propostas, segundo a própria, que mais se debateram nas últimas semanas. O teto às rendas claro, que continua a defender, enquanto a Iniciativa Liberal traz uma visão totalmente diferente: o descongelamento total das rendas e uma garantia de ação pública para quem precisar mesmo. A meio, e até aproximando-se de algo que Pedro Nuno Santos defendeu, Paulo Raimundo sugeriu que os mais de seis mil milhões de lucros da banca sirvam precisamente para esta área.

O Zigue e o Zague, os tais, já tinham aparecido antes, muito antes, na Imigração, onde os partidos caíram todos em cima daquilo a que chamaram eleitoralismo de Luís Montenegro com o anúncio de que a AIMA se preparava para expulsar milhares de imigrantes em situação ilegal.

Meia hora sem sair do mesmo

Foi ela que nos trouxe para estas eleições, mais assim ou mais assado, e o debate começou precisamente por passar por lá, mesmo que Luís Montenegro continue a não ver razão para revisitar o tema.

A Spinumviva, claro, provavelmente a empresa mais conhecida de Portugal, mas também o nome que muita gente já não consegue ver à frente. Casos do PAN e da CDU, por exemplo, que deram pequenos apontamentos sobre a falta de explicações, para depois atirarem que era preciso era falar de outros temas.

Mas antes de Paulo Raimundo e Inês Sousa Real terminarem houve quem pensasse diferente: Pedro Nuno Santos insistiu que há explicações por dar e que o primeiro-ministro faz de tudo para esconder informação, enquanto o Chega admitiu continuar a querer uma Comissão Parlamentar de Inquérito, pelo menos até a situação estar totalmente esclarecida.

Antes deles apareceu Luís Montenegro, que refutou um cenário em que a sua empresa - entretanto da mulher e agora já dos filhos - seja a causa das eleições de 18 de maio. A verdadeira razão é, na ótica do líder da AD, a rejeição da moção de confiança na Assembleia da República.

"Os partidos entenderam que o Governo não dispunha de condições", lembrou, falando no ponto que "acabou por espoletar" esta nova realidade, para depois garantir que "cumpri sempre as minhas obrigações, as regras que estavam em vigor e estive sempre disponível para esclarecimentos".

Questionado sobre se faria tudo igual novamente, Luís Montenegro optou inicialmente por fugir à questão. Perante a insistência de Carlos Daniel, disse que fez tudo "de boa-fé", pelo que "nunca tive nenhum comportamento ilegal", ainda que sem responder um redondo sim ou não à pergunta original.

"Nunca decidi nada em função da minha vida privada", terminou.

À esquerda do PS foram Bloco de Esquerda e Livre a levantarem a voz. Talvez por não terem tido oportunidade de debater diretamente com o primeiro-ministro, facto que ambos lembraram, Mariana Mortágua e Rui Tavares afirmaram que existem questões por responder, com Luís Montenegro a ser "vítima das suas escolhas", nas palavras da bloquista, por querer constituir um escritório de advogados e depois uma empresa de consultoria.

Mariana Mortágua lamentou que tenha sido tudo "acumulado", que não tenham sido dadas explicações - nem sequer foram divulgados os clientes, acrescentou, falando das empresas entretanto descobertas na documentação dada à Entidade da Transparência na mais recente atualização.

"O primeiro-ministro não quer dar explicações e arrasta o país para uma normalização da promiscuidade entre setor privado e público", terminou.

E o porta-voz do Livre foi mais longe, revelando até uma assumida ingenuidade. Sentiu-se enganado pelo primeiro-ministro, referiu, acusando Luís Montenegro de ter "ocultado informação" antes da votação de censura apresentada pela CDU, que o Livre chumbou.

"Não quis fechar a empresa, não quis vender a empresa. Mas porque não fez o que se faz em tantos lugares do mundo, que ainda agora foi feito pelo primeiro-ministro do Canadá? Luís Montenegro queria continuar a saber quem eram os clientes da Spinumviva", apontou, dizendo que a empresa se "converte num veículo de influência". Um "absurdo", respondeu o primeiro-ministro, que depois aproveitou a câmara e a olhou, referindo que "nenhuma das sete personalidades ao meu lado se vai sentir esclarecida".

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