Seguro vs. Marques Mendes: a arte de fugir às semelhanças para gritar as diferenças

3 dez 2025, 22:27
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ANÁLISE || Seguro e Marques Mendes num confronto de convergência na necessidade de haver diferença

Concordam em muita coisa, convergem em muitos temas e são os dois do centro - cada um do seu -, mas houve um que quis deixar mais claro que tem diferenças para o outro.

Se a lógica mandasse, esta quarta-feira estaríamos perante o debate que colocava frente-a-frente os dois candidatos mais prováveis de se tornarem no próximo Presidente da República. Só que as sondagens baralharam anos e anos de alternância entre figuras de PS e PSD em Belém, trazendo para a corrida Henrique Gouveia e Melo, André Ventura e João Cotrim de Figueiredo.

Alheios a isso, Luís Marques Mendes e António José Seguro tentaram mostrar-se “diferentes” um do outro, mas com um a ter muito mais veemência nessa tarefa, ou pelo menos na tentativa de a desempenhar.

Acresce a isso que o outro, quando tentou atacar, não correu particularmente bem.

A discordância na concórdia começou logo na Operação Influencer. Sim, a operação é longa e ambos estão de acordo nisso, mas Marques Mendes quis deixar claro que as semelhanças no amor à democracia e à moderação esbarram na forma como se combatem os problemas.

“Eu sou mais interventivo”, atirou logo no início, quando ainda se comentava uma notícia da revista Sábado que deixou Seguro “preocupadíssimo”. É que António Costa foi ouvido em 50 escutas relacionadas com o caso que acabaria por fazer cair o seu governo, numa situação que o candidato apoiado pelo PS entende não ter nada que ver com o caso em si.

“A PGR pôs num comunicado que o primeiro-ministro estava a ser investigado e passados dois anos não há nenhum facto que prove essa justificação”, reiterou Seguro, que depois ouviu uma expressão que o próprio cunhou, mas que desta vez serviu para uma bicada.

“Qual é a pressa”, perguntava um então atrapalhado secretário-geral do PS em janeiro de 2013, antecipando um Congresso em que se previa contestação. E Marques Mendes pegou na expressão, nessa pergunta retórica, para dizer que há mesmo pressa, que “não podemos ficar por generalidades, temos de ir mais longe”.

Isto para falar na reforma da Justiça, um setor que o candidato apoiado pelo PSD vê “doente”, até porque a notícia da Sábado é “mais uma violação do segredo de justiça” que impõe uma investigação à forma como se soube da informação.

À parte disso, Marques Mendes reiterou que é “inqualificável” que a Operação Influencer não esteja ainda encerrada, seja por forma de arquivamento, seja por acusação. Em todo o caso, “ainda ninguém explicou os 75 mil euros” encontrados no gabinete de Vítor Escária, braço-direito de António Costa.

É um dos problemas de um país onde se permitem manobras dilatórias como as de José Sócrates, um país que tem uma Justiça para pobres e outra para ricos, ainda segundo Marques Mendes, que aproveitou um lapso de Seguro para sair por cima do final do tema.

Defendendo que também para si o combate à corrupção é uma prioridade, o socialista começou por questionar porque é que Marques Mendes, que é membro do Conselho de Estado há 15 anos, não fez qualquer proposta relacionada com a reforma na Justiça aos dois presidentes que serviu.

E daí passou para a TAP, para dizer que Marques Mendes fez “orelhas moucas” na privatização da companhia aérea. Acontece que o candidato apoiado pelo PSD não pertencia a esse governo, pelo que o próprio sentiu necessidade de ironizar: “Nem consigo perceber a questão, não tive em nenhum governo com privatização da TAP”.

Seguro falava do governo de Pedro Passos Coelho, pois, onde Marques Mendes não meteu qualquer pé. O socialista corrigiu, mas já tinha perdido o mote, com o social-democrata a finalizar com nova ironia: “Fez bem em corrigir, mas a insinuação não lhe fica bem”.

Equilibrados

E porque é que os portugueses devem escolher um e não outro? Não é que Marques Mendes seja um perigo, quis sublinhar Seguro, mas é o tal desequilíbrio do sistema. O tal pender para a direita no poder local, legislativo e possivelmente presidencial.

Só que também aí havia preparação de Marques Mendes, que trazia no bolso o virar de século, quando Jorge Sampaio e António Guterres coabitaram entre Belém e São Bento. O social-democrata quis deixar claro que o tal desequilíbrio, nomeadamente a presença do PSD no Governo e de um candidato apoiado pelo PSD na Presidência da República não é mesmo perigoso, até porque já aconteceu… ao contrário, precisamente no tal virar de século.

Aconteceu outra vez, haveria de recordar Seguro, lembrando Aníbal Cavaco Silva e Passos Coelho, mas aí já Marques Mendes tinha feito réplica de presenças possivelmente incómodas. É que se o candidato social-democrata não estava na privatização da TAP, Seguro estava no governo de Guterres que coexistiu com Sampaio presidente. E Marques Mendes não se esqueceu disso.

Ainda assim, Seguro foi um pouco mais longe desta vez, depois de ter recusado numa entrevista ao Público dizer que era de esquerda.

“A questão não é a independência, é saber se o país ganha ou não em ter uma sensibilidade social”, disse, referindo que ali estavam dois candidatos do centro, mas um do centro-esquerda e outro do centro-direita.

Para Marques Mendes essa independência está bem para lá das questões partidárias, até porque entende que Mário Soares ou Cavaco Silva, de PS e PSD, foram independentes nos seus mandatos.

“Importante é sabre se quem exerce a Presidência é capaz de ser isento, imparcial”, acrescentou, sublinhando que dava jeito a Seguro falar no desequilíbrio que um Presidente da República à direita pode trazer, mas que foi ele mesmo que fez parte do governo “dos ovos que estavam no cesto”, na tal menção aos tempos de Guterres e Sampaio.

Mas o ponto que Marques Mendes mais quis deixar claro foi a tal convergência que só o é até certo ponto. “António José Seguro privilegia mais proclamações de caráter genérico. Eu quero ser mais ativo e interventivo”, reiterou, sublinhando que isso não era uma crítica.

Seguro ainda quis volta ao desequilíbrio, só para deixar claro que antes não havia uma coisa: o Chega e a sua influência, nomeadamente na hipótese que ela dá para uma revisão constitucional.

E dentro da diferença de ser igual, Marques Mendes quis deixar vincada essa diferença num outro ponto, ou pelo menos na garantia do mesmo. É que se o Chega ganhar umas eleições legislativas vai dar-se posse ao seu candidato, sim, mas não sei garantias.

Ambos respeitam a vontade do eleitorado e ambos respeitam os limites da Constituição, mas Seguro optou por não ir mais longe do que isso, enquanto Marques Mendes quis ser concreto e assertivo no que vai fazer: indigita um primeiro-ministro do Chega, sim, mas apenas quando tiver garantias por escrito de que não há medidas inconstitucionais - nomeadamente a prisão perpétua ou a pena de morte - no programa que vai servir de base a esse possível governo.

No fim do dia, ambos estão lado a lado em muita coisa, mas também os dois procuraram, cada um com as suas armas, mostrar porque é que as suas diferenças valem mais. Assim quase como que um grito de diferença, num debate em que a voz de Marques Mendes se ouviu mais alto mais vezes.

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