Ventura pede a Montenegro para ver menos Sport TV, Montenegro revela a Ventura quando haverá novo ministro ou ministra

CNN Portugal , MCC
19 fev, 20:21

O debate foi ruidoso, teve interrupções e acusações, gerou advertências e providenciou diálogos quentes: o primeiro-ministro foi confrontado no Parlamento pela primeira vez depois das tempestades e defendeu o SIRESP, no fim Ventura concluiu que "ninguém liga" ao que Montenegro diz

- Consegue dizer perante os portugueses que teve uma boa gestão da crise depois de pessoas morrerem a reconstruir telhados? - pergunta Ventura.

- Não diga isso, não é verdade. Não diga que não fizemos o nosso trabalho - responde Montenegro.

(...)

- Se quer algum dia ter alguma responsabilidade a gerir o que quer que seja, seja sério consigo próprio - diz ainda o primeiro-ministro.

- Se alguém não é sério é o primeiro-ministro - reage Ventura.

(...)

- Tem de se preparar melhor. Não sabe o que está a dizer - riposta Montenegro.

- Talvez eu saiba muito mais do que estou a falar do que o primeiro-ministro. Passou por três momentos de catástrofe e em todos foi um desastre -  contesta Ventura.

O debate quinzenal com o primeiro-ministro na Assembleia da República, adiado duas vezes devido às tempestades e à gestão da crise, fica marcado por uma tempestade argumentativa entre entre Luís Montenegro e André Ventura. A discussão sobre a resposta do Governo aos fenómenos meteorológicos extremos que assolaram o país transformou-se rapidamente em acusações pessoais, interrupções constantes e momentos de tensão no hemiciclo. Pelo meio, o chefe do Governo fez anúncios sobre os próximos passos do Executivo.

Antes desses anúncio, o primeiro-ministro quis enquadrar a natureza da crise atmosférica: falando numa "sucessão de eventos meteorológicos extremos e sem precedentes", com um grau de "destruição ímpar". Depois: uma mensagem de pesar às famílias das vítimas e a todos os afetados, "todos estiveram no nosso pensamento e ação".

De seguida, autodefesa: "Desde a primeira hora coordenámos, comunicámos, decidimos e estivemos no terreno. Mobilizámos todos os recursos", alegou - e evocou a desobstrução de vias ferroviárias e rodoviárias, a gestão de barragens e a reposição de serviços essenciais.

"Não vamos deixar ninguém para trás. Não descansaremos enquanto compatriotas nossos estiverem sem telhado, sem acesso a água, luz ou telecomunicações", disse a seguir. Atualmente, e três semanas depois dos primeiros impactos da tempestade, há nove mil pessoas ainda sem luz.

André Ventura ouviu e não se sentiu convencido: na primeira intervenção, acusa Luís Montenegro de ter falhado "redondamente na gestão desta crise" - o líder do Chega critica decisões do Governo, nomeadamente a "insistência" em manter a ministra da Administração Interna no cargo, apesar dos que diz terem sido os vários avisos feitos no passado pela bancada da oposição. "Já não é só incompetência da ministra, é sua incompetência." E questiona diretamente Luís Montenegro: "Já tem ou não ministro da Administração Interna?".

Na resposta, o primeiro-ministro confirma que vai anunciar na próxima semana o novo nome proposto para assumir a pasta, sem adiantar mais pormenores. Depois, acusou Ventura de lançar acusações vagas: "À sua boa maneira, atira um fogacho para o ar e depois desvia a atenção para tudo menos para a concretização do fogacho". 

Montenegro insiste que o Governo esteve em prontidão desde o primeiro dia da tempestade e desafia o líder do Chega a concretizar críticas: "Não foi capaz de dizer que, perante uma ocorrência cujos contornos não eram completamente antecipáveis, a Proteção Civil acionou todos os seus instrumentos para estar em prontidão com os sistemas locais - e os autarcas em particular - para acorrer às emergências na primeira oportunidade. Queira dizer onde é que o Governo falhou nesta prontidão e capacidade de resposta".

Luís Montenegro considerou as acusações de André Ventura "deploráveis" foto António Cotrim/Lusa

Ventura volta a intervir, questionando a atuação do Governo perante as mortes registadas durante as reparações em casas destruídas. "Consegue dizer perante os portugueses que teve uma boa gestão da crise depois de pessoas morrerem a reconstruir telhados?"

A frase provoca protestos nas bancadas e leva o presidente da Assembleia a pedir "serenidade" no plenário, mas Ventura insiste: "Consegue dizer que as pessoas que morreram estavam a substituir o Estado?". Segue-se mais uma interrupção, com o líder do Chega a pedir que o presidente da Assembleia da República ponha na "ordem" a bancada do PSD, apontando para Hugo Soares. "Compreendo que o PSD esteja incomodado com uma das mais incompetentes gestões de crise", ironizou o líder do Chega.  

"Porque é que os militares só entraram em prontidão uma semana depois? Porque é que o SIRESP voltou a falhar? Porque é que não ativou o mecanismo europeu? Dão o pior exemplo a esta casa", acusa Ventura - e volta a ser interrompido, com Aguiar-Branco a voltar a pedir ordem: "Isto não é aparte, é interromper." 

O debate ficou marcado pelas trocas de acusações entre o primeiro-ministro e o líder do Chega foto António Cotrim/Lusa

Montenegro responde assim: "Acho deplorável que diga que houve pessoas que morreram a consertar os telhados por responsabilidade do Estado. Não diga isso, não é verdade". E acusa o líder do Chega de ultrapassar limites no escrutínio político: "Não diga que não fizemos o nosso trabalho, isso é mentira", diz.

"Se quer algum dia ter alguma responsabilidade a gerir o que quer que seja, seja sério consigo próprio. Exija aos outros o que exigiria a si em iguais circunstâncias", acrescenta o primeiro-ministro, depois de insistir que as Forças Armadas foram mobilizadas e que houve 48 mil militares destacados. "Iria compor os telhados de todos os afetados cinco ou seis horas depois do acontecimento? Isso é pura demagogia, isso é falta de seriedade. O senhor não é sério". A seguir recusa que Ventura deva "andar a mandar larachas para o ar" e diz que deve ser "sério e credível", senão "nunca vai ter essa confiança" para ter mais responsabilidades.

"Se alguém não é sério é o primeiro-ministro", contrapõe André Ventura, que garante que esteve no terreno e que houve falhas em várias localidades. "O senhor primeiro-ministro pode ter dado as indicações, mas se assim o foi isso ainda é pior: ninguém liga às suas indicações". Aqui dirige-se para a bancada do PSD e pede: "Calem-se um bocado."

Montenegro responde-lhe assim: "Tem de se preparar melhor. Não sabe o que está a dizer. Se houve vez em que o SIRESP resistiu foi agora". O chefe de Governo frisa que o SIRESP foi "em muitos casos a única forma de comunicação que subsistiu".

André Ventura recusa "lições de competência" de Luís Montenegro. "Talvez saiba muito mais sobre o que estou a falar do que o primeiro-ministro. Passou por três momentos de catástrofe e em todos foi um desastre", argumenta. "Houve localidades que tiveram 30 horas sem SIRESP. Temos um primeiro-ministro que não sabe do que está a falar." E insiste: "O que é que correu mal no SIRESP e nas Forças Armadas? Por favor, responda ao país".

Montenegro diz que "foi feito tudo e está a ser feito tudo o que é possível" para responder com rapidez. Volta a desafiar Ventura a dizer o que correu mal: “Quem está a ser escrutinado sou eu”. “Manda larachas para o ar”, acusa. Ventura diz que ficou claro no debate que o Governo está a "fugir à responsabilidade" e atira: "Menos Sport TV e mais ação".

Depois, o primeiro-ministro acusa alguns adversários políticos - sem apontar nomes - de estarem mais focados no confronto partidário do que na resposta às populações. "Algum dia vai haver uma catástrofe em que corra tudo bem? Isso é uma contradição."

José Luís Carneiro, em nome do Partido Socialista, critica a resposta do Governo, afirmando que o Executivo chegou "tarde e a más horas", mas promete não transformar a tragédia numa arma partidária. O socialista mostra abertura para viabilizar um eventual orçamento retificativo, desde que haja acompanhamento regular da execução das medidas no Parlamento. "O PS colocar-se-á do lado das soluções e está disponível para aprovar Orçamento Retificativo com a condição de que a cada mês Governo traga execução ao Parlamento."

Já Mariana Leitão, da Iniciativa Liberal, afirma que a sensação recorrente nas crises é que o Estado "chega sempre tarde", apontando dificuldades no acesso a apoios e falta de clareza nas medidas anunciadas. Rui Tavares, por sua vez, apela a menos ataques políticos e mais soluções concretas, defendendo melhorias na comunicação de emergência e maior investimento na prevenção de catástrofes. 

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