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Diretor executivo CNN Portugal

É claro, Clara: Rui Rio negociará com André Ventura. Contra a geringonça, o galheteiro

4 jan, 14:29

Rui Rio mostra medo do Chega. Perdeu o debate com André Ventura. E só não perdeu a oportunidade de separar as águas porque está disposto a entender-se com o azeite. Não se misturam, mas podem estar lado a lado na mesa do Parlamento. À esquerda a geringonça, à direita o galheteiro

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Quando alguém precisa de dizer dezenas de vezes que “é claro” é porque não está a sê-lo. O debate entre Rui Rio e André Ventura só teve praticamente um tema: o PSD não fará coligações com o Chega mas admite entender-se com ele.

Clara de Sousa – Prefere entregar novamente os destinos do país ao Partido Socialista do que chegar a um entendimento com o Chega?

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Rui Rio - Não, não. Eu apresento o meu programa e aquilo que o Chega tem de ver é confrontar o programa do PSD com o programa do PS, ver qual é o que gosta mais. Se gostar mais do do PS, tem de derrotar o do PSD para passar o do PS, isto é absolutamente claro. Vai ter de o fazer, não é?

No final transcrevo vários excertos das respostas na SIC-N, onde se percebe melhor a posição sinuosa de Rio ao longo do debate desta terça-feira, que aliás lhe correu pessimamente: Rio foi mal preparado, esteve à defesa, por vezes receoso, deixou que Ventura impusesse os seus temas e permitiu que o Chega se afirmasse como centro político da campanha à direita. Mas este excerto basta para perceber o posicionamento político do PSD face às legislativas.

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Rui Rio não acredita numa maioria absoluta do PSD, nem a verbalizou. Como António Costa já disse que, perdendo, sai da liderança do PS, então se o PSD ganhar não poderá fazer acordos com o PS, sobrando-lhe acordos à direita. Quantos mais votos o Chega tiver mais difícil será para o PSD formar governo - o Chega pode ser o decisor. Como? Coligação, nunca. Acordos, talvez. Entendimentos, sim. E o que é isto? É uma geringonça de direita.

“Se eu for apresentar o programa de governo na Assembleia da República”, afirma às tantas Rui Rio, “podem meter uma moção de censura”. “Aí, naturalmente, o Dr. André Ventura tem de decidir se quer chumbar o governo do PSD e abrir as portas a um governo da esquerda ou não. É isto.”

É isto: Rio acredita numa vitória minoritária do PSD e tem a ingenuidade de crer que Ventura lhe viabiliza um governo e, supõe-se, lhe viabiliza depois os orçamentos por receio de uma crise política que entregue o governo ao PS. Rio continua a desvalorizar o Chega, como se este cumprisse as regras da racionalidade política. Não cumpre, cumpre as suas próprias irracionalidades, desde que lhe permitam crescer politicamente.

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Rio falou e falhou neste debate sobretudo porque abdicou, ou não foi capaz, de colocar os seus próprios temas, demonstrando displicência ou falta de liderança, quando não receio das suas palavras e das armadilhas de Ventura. Andou a reboque, não houve um só assunto que jogasse como carta. Os trunfos foram do adversário: a prisão perpétua, o excesso de cargos políticos ou os impostos (que até é bandeira de Rio), a corrupção...

E Rio teve todas as oportunidades de ser claro. Começou, aliás, respondendo a Clara de Sousa com uma piada (que o deixou agradado consigo próprio): “Clara, vou ser claro [risos]”. Claro teria sido dizer: “Prefiro entregar o governo a António Costa do que chegar a um entendimento com o Chega”. Não o disse porque não o defende. Defende o contrário. Se está fora de causa uma coligação com “quatro ou cinco ministros” do Chega, “porque há divergências de fundo”, não está ter o apoio do Chega no Parlamento. A propósito do acordo nos Açores, diz Rio:

“A negociação não pode chegar nunca, nunca, a uma situação em que haja uma coligação, em que haja ministros do Chega. Nem pode nunca chegar a uma situação em que nós vamos violentar aquilo que são os nossos princípios.”

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Fica claro, Clara? Fica. Não a coligação, sim a negociação.

Assunto arrumado. Rui Rio não se quer misturar com o Chega mas admite negociar com ele acordos políticos de viabilização e permanência de governo. Ora, isto é exatamente o que o Costa fez em 2015 com o PCP e com o BE. Com a diferença de que Rui Rio não tem só discordâncias políticas com o Chega, tem discordâncias quanto aos valores e é contra ser contra o regime.

O PSD é água e o Chega é azeite, mas Rio e Ventura admitem estar lado a lado sem se misturar. Depois da geringonça de esquerda, o galheteiro de direita.

Nada de novo: foi o que Rui Rio fez nos Açores e só os ingénuos poderiam ter acreditado que esse acordo era uma ilha na cabeça de Rio. Ele não gosta, mas está disposto a beber o azeite para ser poder. Claro que um galheteiro destes vai correr mal, como já correu nos Açores. Como diz Rio, o Chega não é estável nem é de confiança, vai torpedear o PSD em todos os dias seguintes, inclusive porque internamente se torpedeia a si próprio. Mas isso é para depois. Para já, interessa o que esta posicionamento significa para a campanha eleitoral.

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Significa que a campanha se vai polarizar ainda mais entre esquerda e direita. Significa que Costa vai atacar Rio já no debate desta semana por este admitir negociar com quem o PS já disse que nunca negociaria. Significa que os eleitores vão ser seduzidos para o voto útil à esquerda no PS e no voto útil à direita no PSD. E significa que os eleitores sabem que pode haver velhos acordos à esquerda e novos acordos à direita. Significa que, além do PS e do PSD, o partido mais central na campanha será o Chega.

A jornalista Clara de Sousa quis a resposta, e bem, e insistiu várias vezes na pergunta. Nenhum lhe disse taxativamente que sim. Mas ambos acabaram por dizer ao que vão: vão para ganhar. De preferência, um sem o outro. Por conveniência, um com o outro. Sim, ficou claro, Clara. (Risos? Decida você).

Excertos da entrevista (com vídeo e transcrição):

EXCERTO 1

Clara de Sousa - O que lhe peço é que seja claro e que diga de forma inequívoca se o Chega e André Ventura fazem ou não parte da equação.
Rui Rio - Sim senhora, Clara, vou ser claro [risos]. Eu reconheço isso, reconheço que se o Chega tiver uma votação muito elevada vai dificultar o PSD poder ser governo. Porquê? Porque aquilo que o Chega diz é que só apoiará o PSD se fizer uma coligação com o PSD. Até disse que quer quatro ou cinco ministros. Isso não pode ser porque há divergências de fundo entre o PSD e o Chega que não permitem isso.

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CS - O que é que pode ser?
RR - Há uma coisa que é assim: eu não quero ir para o poder a qualquer preço, eu chego aqui e faço uma negociação qualquer, olhe, como o Dr. António Costa fez com a geringonça a seguir a 2015, as pessoas contavam com uma coisa, chegou lá o PSD ganhou mas ele é que foi primeiro-ministro… Eu quero ser claro. Há aqui divergências. Eu tive o cuidado de ver o programa do Chega e há aqui coisas graves. (…) O Chega filia-se contra o regime “que desde 1974 subverteu a ordem moral da tradição secular portuguesa”. Mais abaixo um bocadinho diz que o Chega “enfrenta a causa original do falhanço do regime pela renovação da orientação da moral social”. Portanto, o Chega assume-se contra o regime. Ora bom, eu reconheço que o regime democrático está com muitas falhas, muito desgastado e precisa de um abanão, precisa de uma série de reformas. Mas aquilo que eu quero é pôr o regime democrático [mesmo] democrático. Não quero outro regime. Portanto, desde logo à partida, isto é uma dificuldade muito grande para estarmos coligação…

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CS - Ou seja, o senhor não está a colocar o Chega fora da equação.
RR - Eu estou a dizer que é impossível haver uma coligação com o Chega. Quer dizer, não é possível pelas posições que temos.

CS - Com este Chega ou com um Chega mais moderado?
RR - Bem, mas não há mais moderado nem menos moderado. O Chega disse isto, tem as posições bem claras, a minha posição também é clara, portanto, aqui, é claro.

EXCERTO 2

RR - Já arrumámos a questão ideológica, vamos às outras questões. O Chega é um partido instável. Eu não posso fazer uma união com um partido que é instável. (…)

CS - Ao fazer um acordo [nos Açores com o Chega], o PSD não assume o ónus dessa instabilidade e não está também nas mãos do PSD poder negociar e poder garantir essa estabilidade?
RR - Sim, mas a negociação não pode chegar nunca, nunca, a uma situação em que haja uma coligação, em que haja ministros do Chega. Nem pode nunca chegar a uma situação em que nós vamos violentar aquilo que são os nossos princípios. Prisão perpétua, para sermos claros, vamos ser claros. Há três possibilidades de prisão perpétua, três: há os países que não têm prisão perpétua, somos nós, e que são poucos; há os países que têm prisão perpétua e são poucos; e há no meio um vasto conjunto de países que têm prisão perpétua mas de certa forma mitigada, …

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André Ventura – Mas nós admitimos isso!

RR - … ou seja, é condenado em prisão perpétua mas ao fim de 15 anos, por exemplo, sai em liberdade condicional…

AV – Nós admitimos isso, Rui Rio.

RR - … Se faz qualquer coisa, vai lá para dentro e então vai a prisão perpétua por inteiro. Se nós estamos a falar da prisão perpétua e ponto final parágrafo, vai para a cadeia e nunca mais sai de lá até ao fim da vida, isso nós somos contra, é um atraso civilizacional.

EXCERTO 3

AV – Isto não é um programa “Quem quer namorar com o agricultor”, isto é um programa para formar um governo. Nós temos de pôr as nossas simpatias ou antipatias pessoais acima disto, está em causa um governo para mudar a governação de António Costa. E o que Rui Rio veio aqui dizer hoje é: ele é radical. E porquê que é radical? Não sei bem porquê, “ordem moral”, “instável” e tal, e quando eu lhe apresento coisas concretas, diga lá se é favor ou não da redução do RSI e que os ciganos tenham de cumprir a lei, “diga lá se é ou não verdade que é preciso criar mais incompatibilidades no exercício de cargos públicos”, eu até penso que seja, é ou não verdade que temos mais cargos políticos do que precisamos? Ó Rui Rio, nós temos 27 mil deputados de freguesia, temos seis mil deputados municipais, temos mais de dois mil vereadores, para quê, um país com dez milhões e pouco de pessoas? É isto que é ser radical? É querer cortar nas gorduras do Estado? É querer uma administração que funcione melhor e dizer que podemos ser melhores políticos com menos políticos? Era isto que eu gostava de ouvir hoje da parte do PSD.

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CS – Rui Rio, quer responder à questão de porque é que considera que o Chega é radical?
RR – [Ventura] pega na G3, dispara tudo de rajada, podemos responder ponto a ponto, depois não há tempo para responder ponto a ponto. Primeiro ponto, eu não disse…

CS – A questão é: há ou não possibilidade de confiança com André Ventura e com o Chega? Coloca ou não em cima da mesa ter uma relação de confiança com este senhor que está à sua frente e com o seu partido?
RR – Já disse que neste momento, face ao historial, isso não é possível.

CS – “Neste momento” não é inequívoco. A questão é que ainda ninguém respondeu a isso. Depois de 30 de janeiro, o senhor é suficientemente pragmático para neste momento dizer “não” ou dizer “depois vamos ver”?
RR -  Sou. Ó Clara, muito claramente, muito claramente. Aliás, relativamente ao eleitorado do Chega, eu não disse que não queria o eleitorado do Chega, o que eu disse que eu queria era manter o eleitorado do PSD para não fugir para o Chega. Quem quer o eleitorado do PSD é o Chega. O Chega quer roubar o eleitorado ao PSD, porque o Chega tem um vírgula tantos por cento e quer ter seis ou sete ou oito.

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AV – Ou dez.

RR – Portanto quer roubar aqui. Eu não quero roubar o eleitorado do Chega, eu quero é segurar no PSD o eleitorado que é do PSD. Por isso, é evidente que se o resultado eleitoral der ao Chega uma votação expressiva temos muita dificuldade efetivamente em tirar o PS de lá. Isso para mim é absolutamente claro.

CS – Ou seja, vão ter de conversar, Rui Rio.
RR – Portanto, se o eleitorado votar muito no Chega e menos no CDS ou no PSD, por exemplo, obviamente que está a dificultar imenso a saída do Dr. António Costa. Se fizer o voto razoável e útil e óbvio no PSD está a facilitar nós substituirmos o Dr. António Costa. Isto é absolutamente claro.

CS – Mas nada aponta nesse sentido, portanto prefere nesse cenário entregar novamente os destinos do país ao Partido Socialista…
AV- Ora bem.

CS - … do que chegar a um entendimento com o Chega?
RR- Não, não. Eu apresento o meu programa e aquilo que o Chega tem de ver é confrontar o programa do PSD com o programa do PS…

AV – Ai nós é que temos de ver? Ai nós é que…? [risos]

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RR - … ver qual é o que gosta mais. Se gostar mais do do PS, tem de derrotar o do PSD para passar o do PS, isto é absolutamente claro. Vai ter de o fazer, não é?

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