opinião

O estado do povão

17 jul 2025, 09:25

Esta quinta-feira, quando Luís Montenegro subir ao palanque da Assembleia da República para fazer o seu retrato da nação, levará, com certeza, imensos números e estatísticas sobre o setor da saúde — que foram cuidadosamente preparados pelos assessores — para demonstrar como, apesar das percepções, Portugal está melhor. 

Debitará todas as grandes decisões que foram tomadas no primeiro mês de Governo — aqui sem a ajuda dos assessores, que isso ele sabe de cor —, da privatização da TAP à proibição dos telemóveis nas escolas, sem esquecer as novas regras para a imigração. Aproveitará, provavelmente, para fazer o contraste com os oito anos da governação socialista. 

Falará ainda do futuro imediato, da descida do IRS e do IRC, do investimento na defesa e das grandes obras públicas como a Alta Velocidade e o novo aeroporto. 

O Estado da Nação não será perfeito, longe disso, até porque este Governo ainda tem muito trabalho pela frente, mas será, no spinning de Luís Montenegro, muito melhor, agora que a AD está à frente dos destinos do país, do que alguma vez foi com o Partido Socialista. 

O guião é também previsível pelo lado da oposição. As estatísticas a usar serão as que pareçam mais prejudiciais sobre a ação política do Governo. As notícias da imprensa que forem citadas serão apenas as que permitem assinalar as falhas do executivo, dos problemas nas urgências à falta de habitação, sem esquecer as más notas nos exames nacionais de matemática. 

À esquerda ouviremos a lenga-lenga do costume, sobre como os governos do PSD tudo querem privatizar, da TAP à saúde, e não faltará, seguramente, a Segurança Social. 

Mas a crítica mais esperada ao Governo — e a mais justa, diga-se — será na área da saúde. A palavra “caos” surgirá, provavelmente, várias vezes e alguns partidos podem até arriscar-se a pedir a “cabeça” da ministra Ana Paula Martins, como se isso resolvesse um único problema. 

Nesta espécie de dança da democracia, em que a oposição critica e o Governo se edifica, este será, muito provavelmente, mais um debate vazio que deixará de fora 10 milhões de portugueses. 

A verdade é esta: ninguém intelectualmente sério pode afirmar que os problemas que o país enfrenta são fáceis de resolver. 

A saúde já não é apenas um problema no setor público, já o é, também, no setor privado, que também começa a rebentar pelas costuras em algumas áreas. A falta de profissionais não se vai resolver em quatro anos e a pressão demográfica vai agravar ainda mais a pressão sobre o sistema. Os hospitais públicos precisam de investimento para verem melhoradas as suas infraestruturas, e a gestão — meu Deus, a gestão — precisa de gente competente e não de gente com cartão do partido. 

A habitação, ou a falta dela, já não se resolve apenas com dinheiro para construir. Não há empresas, nem mão de obra suficiente, para suprir tamanha necessidade de casas. E as casas não se constroem de um ano para o outro. Até porque, por muito que se simplifiquem os processos, a burocracia disfarçada de transparência continua a servir para alimentar o pequeno poder tão típico do país. 

A imigração precisa de ser controlada e regulada, mas ninguém sabe como fazê-lo sem paralisar a economia. E de que adianta ter imigrantes, se não os conseguimos acolher, se não temos casas, nem médicos, nem professores para ensinar os filhos deles? 

O resultado prático e político deste acumular de problemas está à vista. Um clima social cada vez mais instável, potenciado pelo crescimento de uma extrema-direita que se alimenta da desgraça alheia e da polarização da sociedade. Em Espanha já se fazem “caçadas” aos imigrantes. Se acham que estamos muito longe dessa realidade, é melhor pensarem duas vezes. Em Portugal, a frustração acumulada dos eleitores já atirou o PS para terceiro partido da oposição, impediu uma maioria absoluta da AD e deu ao Chega 60 deputados. Só ainda não percebeu o que está a acontecer em Portugal quem é muito cego ideologicamente ou quem não está verdadeiramente preocupado com o futuro do país.  

Só vejo uma forma de travar este declínio acelerado — e não é chamando a extrema-direita para a governação. É preciso ter coragem para falar a verdade às pessoas e deixar de tratar os eleitores como crianças. É preciso assumir que o país enfrenta enormes desafios que foram cavados ao longo de anos e que, na maior parte dos casos, vão demorar outros tantos anos a resolver. Mas é, sobretudo, preciso começar a resolver problemas. E, para isso, é preciso ter um plano, discuti-lo de forma séria e apresentá-lo ao país, sem medo. Na saúde, na reforma do Estado, na economia, em todos os setores que estão a impedir o progresso do país. E dos portugueses. Um plano não é um powerpoint, são medidas concretas, assentes em dados objetivos, calendarizadas e orçamentadas. 

É preciso dizer ao país que o Estado da Nação é o espelho do estado do seu povo. E o estado do povo português, neste momento, não é bom, nem se recomenda. 

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