A grande ilusão

30 jan, 19:07

Crónica em Davos

Indiferente às consequências, é possível testar os limites e fingir que se pega fogo ao mundo para o deixar a arder na realidade?

Donald Trump é muita coisa ao mesmo tempo. Realidade e ficção. Verdade e mentira. Política, espetáculo e dissimulação. Só a História decidirá se será “historicamente inútil”, como já muitas vezes o caracterizou Gavin Newsom, o Governador da Califórnia transformado em novo némesis Democrata por tratar Trump nos mesmos termos em que Trump trata quem despreza.

No Fórum Económico Mundial, o otimismo ilusório, porventura desfasado, do Presidente dos Estados Unidos contrastou com o pessimismo visível dos seus aliados, os anúncios hiperbólicos e maximalistas com as sentenças de morte à velha ordem internacional, a chantagem e a soberba com a apreensão e a fúria. Como extraordinário performer que é, Trump usou Davos para a consagração de um ano de Presidência e de uma América que está mais forte do que nunca - segundo o próprio, é claro. Também pregou sermões cara a cara àqueles que tem chantageado, muitos deles seus parceiros estratégicos. E fá-lo para, pouco depois, rebentar uma bolha de tensão tão levemente como se nada tivesse acontecido.

Porquê? Pelo simples prazer que o sacia: o poder absoluto de quem pode fazer o que bem lhe apetece. Trump fá-lo porque pode. Porque gosta do medo, da superioridade, da deferência e da bajulação por alguns alimentada – os mesmos que garantem ser esta “a arte do negócio”. Em suma, pelo gosto de bater em fracos e que, sabe Trump, nunca o abandonarão e tudo farão. Por agora, é aí que o mundo se encontra. Só isso explica a absurda novela da Gronelândia que deixou a NATO à beira do precipício.

É certo que, enquanto grande performer, Trump sabe também ler uma sala e sabia que iria discursar numa bem gélida por iniciativa-própria. Trump sabe que, para qualquer compromisso estratégico, precisa de aliados (a Europa, no caso do Ártico). Sabe que, para qualquer sustentabilidade da América, não pode andar a assustar os mercados (como caiu Wall Street para valores só vistos em Outubro!). E, na sua humanidade mais primária, sabe também que gosta de ser gostado, porque precisa. Humilhar aliados, convenhamos, não contribui muito para paixões recíprocas ou até para o Espírito do Diálogo, lema da edição deste ano do Fórum Económico Mundial, onde todos desempenharam o seu papel na grande ilusão.

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