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Comentador da CNN Portugal

Mark Carney: liderar quando a ordem cai

21 jan, 15:01

“Não estamos a atravessar uma transição da ordem internacional, estamos a viver uma ruptura.”

Se Tomaso Campanella tivesse sido convidado para o Fórum Económico Mundial de Davos, talvez tivesse reconhecido no novo primeiro-ministro do Canadá um eco inesperado da sua Cidade do Sol. Não porque Mark Carney prometa uma utopia, mas porque, num mundo onde a força substitui a regra e o cinismo ocupa o lugar da política, ele ousou dizer em voz alta aquilo que muitos preferem contornar com eufemismos: não estamos a atravessar uma transição da ordem internacional, estamos a viver uma ruptura.

A distinção não é académica. É histórica e é moral. Uma transição pressupõe continuidade, ajustamento, adaptação progressiva. Uma ruptura implica quebra, descontinuidade, perda de referências. Foi essa a leitura que Carney levou a Davos, sem rodeios e sem nostalgia. A ordem internacional baseada em regras não está apenas enfraquecida, está estruturalmente comprometida. E o mais inquietante não é a sua fragilidade, mas a normalização da sua substituição pela lei do mais forte, pela coerção económica e pela política de facto consumado.

Ao afirmar que vivemos uma ruptura, Carney fez mais do que um diagnóstico. Fez um acto de liderança. Recusou a linguagem confortável da diplomacia que promete regressos impossíveis a um passado que já não existe. E recusou também a tentação da resignação, essa forma moderna de submissão que se disfarça de realismo estratégico.

Num dos momentos mais densos do seu discurso, Carney recuperou uma ideia que atravessa a história política europeia do século XX: a fachada de estabilidade pode manter-se de pé durante algum tempo, mesmo depois de o edifício estar vazio por dentro. Foi Václav Havel quem melhor descreveu esse mundo de consensos simulados, onde todos fingem acreditar nas regras porque temem o que vem depois. Carney não aceitou esse fingimento. Preferiu enfrentar o vazio.

A primeira ideia central do seu discurso foi clara: a velha ordem internacional não está a regressar. O sistema que emergiu do pós-guerra assentava numa combinação específica de poder americano, instituições multilaterais e previsibilidade estratégica. Essa combinação deixou de existir. Os bens públicos globais que sustentavam o sistema já não são garantidos de forma automática e, mais grave ainda, passaram a ser utilizados como instrumentos de pressão política.

Daí decorre a segunda ideia essencial: o cumprimento das regras já não compra segurança. Durante décadas, os países médios acreditaram que a lealdade ao sistema, o respeito pelos tratados e a abertura económica seriam recompensados com estabilidade. Hoje, essa equação falhou. A conformidade deixou de ser um escudo. Tornou-se, em muitos casos, uma vulnerabilidade.

É neste ponto que Carney introduz o seu argumento mais incómodo, mas talvez o mais verdadeiro: no mundo actual, quem não está à mesa acaba inevitavelmente no menu. As potências médias que não se organizarem, que não cooperarem entre si, que não investirem na sua autonomia estratégica, serão objecto de decisões tomadas por outros. Não por maldade ideológica, mas por simples lógica de poder.

A terceira ideia do discurso assenta precisamente nesta constatação. As potências médias democráticas não são actores residuais. São, pelo contrário, o último espaço onde a política internacional ainda pode ser regulada por algo que não seja pura força. Mas para isso têm de agir em conjunto. Isoladas, são frágeis. Em bloco, tornam-se relevantes.

A quarta ideia de Carney rompe com um preconceito muito presente no debate contemporâneo: a ideia de que cooperação internacional é sinónimo de ingenuidade. Pelo contrário. Num mundo fragmentado, a cooperação é uma estratégia de sobrevivência. Não uma cooperação vaga ou retórica, mas uma cooperação concreta em matéria industrial, tecnológica, energética e, inevitavelmente, militar.

É aqui que o discurso do primeiro-ministro canadiano ganha uma ressonância particular para a Europa. Enquanto muitos líderes europeus continuam presos a uma linguagem de transição, como se bastasse ganhar tempo até que a normalidade regressasse, Carney parte do princípio oposto. A normalidade acabou. E quem não se reorganizar ficará para trás.

O Canadá surge, neste contexto, como um parceiro natural da Europa. Partilha valores, interesses e, sobretudo, uma leitura lúcida do momento histórico. Ambos sabem que a dependência excessiva de um único garante de segurança já não é sustentável. Ambos sabem que a autonomia estratégica não é um luxo ideológico, mas uma necessidade política.

A quinta ideia central do discurso aponta nesse sentido. Diversificar parcerias, reforçar capacidades internas e investir em resiliência deixou de ser uma opção. É a base material da soberania no século XXI. Carney falou de investimento industrial, de inteligência artificial, de energia, mas também de defesa e de diplomacia activa. Não como reacção, mas como projecto.

O contraste com o discurso que se espera de Donald Trump em Davos não podia ser mais evidente. Enquanto Trump insiste numa lógica de soma zero, de “America First”, de tarifas como arma política e de revisionismo territorial, Carney propõe uma liderança sem nostalgia imperial e sem ilusões morais. Uma liderança que aceita o conflito, mas recusa a submissão.

Há algo de profundamente europeu nesta abordagem. Talvez por isso, ao ouvir Mark Carney, muitos na Europa tenham tido a sensação desconfortável de que ele diz, com mais clareza, aquilo que tantos líderes europeus evitam dizer. Que a liberdade custa. Que a soberania exige escolhas. E que o mundo livre não se defende sozinho.

O discurso de Davos não foi apenas um bom discurso. Foi um marco. Não porque ofereça soluções fáceis, mas porque recoloca a política internacional no lugar certo: o da responsabilidade. Num tempo de ruptura, liderar não é prometer estabilidade. É preparar a sociedade para viver sem ela.

E foi isso que Mark Carney fez.

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