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António Costa pode tornar-se invencível a partir de 25/04/2024. Sim, isso mesmo. Mas...

24 jan, 15:37

O inferno está em curso - o inferno político de uma maioria absoluta. Mas o céu está à distância da resposta a três perguntas. Sebastião Bugalho explica

E SE TUDO CORRER BEM A PARTIR DE AGORA?
A profecia de Davos e o futuro deste governo

Longe das sondagens em queda e dos processos em seu redor, o governo recebeu uma notícia merecedora de atenção. 

Do outro lado dos Pirinéus e passando os Alpes, a reunião do Fórum Económico Mundial trouxe uma mudança no espírito do tempo – uma change of heart, se não resistirmos ao anglicismo – à qual Portugal não será nada indiferente. 

Em Davos, não ouvimos apenas a presidente do Banco Central Europeu dizer que 2023 será "muito melhor do aquilo que receávamos". Houve mais do que isso. 

Lendo o briefing do Financial Times, o pessimismo que tem assombrado este inverno foi subitamente substituído por boas perspetivas para este ano. É ler. 

A recessão que nunca chegou?

"Os nossos prognósticos mudaram radicalmente desde outubro", disse Andrew Kenningham, economista-chefe da Capital Economics. 

"Há hoje menos de 30% de probabilidade de haver uma recessão. No verão passado, as estimativas rondavam os 90%", afirmou Anna Titareva, uma economista da UBS. A menor disrupção nas cadeias de abastecimento, um mercado de trabalho sólido e taxas de poupança significativas explicam a resiliência económica dos países da moeda única, justificou. Entre os quais, claro, Portugal. 

Susannah Streeter, analista da Hargreaves Landsdown, acrescentou que "a ameaça da crise energética está em retirada e a inflação está a descer mais rápido do que esperado". 

Carsten Brzeski, responsável pelo departamento de macroeconomia do ING, um banco, apelidou a reviravolta nas expectativas para 2023 como "a recessão que afinal nunca chegou". 

No FT, é dado como certo que a zona-euro, de que Portugal faz parte, evitará mesmo a tão antecipada recessão.

E se tudo correr bem a partir de agora? 

No programa Contrapoder, aqui na CNN Portugal, lançámos a dúvida este sábado: e se? 

Com as finanças públicas em ordem e um início de ano com os cofres cheios (com défice perto do zero, como apontou o coordenador da UTAO em entrevista ao Vítor Costa) não há razão para o governo português não beneficiar do optimismo que emanou de Davos, no final da semana passada.

Com a economia global alavancada numa China ansiosa por recuperar crescimento e com o BCE menos temeroso do que aí vem, António Costa, ao que parece, foi novamente bafejado pela sorte – apesar das trapalhadas internas que insistem em persegui-lo. 

Não é só ter nascido com o dito virado para a lua; é ter escrito nas estrelas antes de ficar noite.

Só um governo verdadeiramente suicidário – possibilidade a não excluir pelos tempos mais recentes – é que falharia em aproveitar uma conjuntura internacional menos desfavorável, tendo as contas certas em casa. 

Olhando a realidade de forma objetiva, é exatamente nesse cenário que Costa se encontra – lado a lado com o inferno que cercou os seus ministros.

O segredo para 2024? 

Muito Abril e pouco Diabo

Se a isto somarmos a receita fiscal extraordinária da inflação, a entrada da Alemanha no projeto do gasoduto ibérico, os 23 mil milhões em fundos europeus do PT2030 e o PRR ainda por executar e receber, o governo estará sentado em cima de um pote de ouro com menos pressão do que o previsto para o distribuir. 

Pelo contrário, tomando como corretas as antevisões retificadas em Davos, 2023 poderá ser um ano economicamente mais sorridente, por mais atribulado que politicamente venha sendo até agora.

Com estes números, Costa terá mais do que margem para negociar com os professores, por exemplo, e apresentar sucessivos pacotes de apoio ao seu restante eleitorado.

Havendo paz na política monetária, haverá paz na política nacional. 

O superávite – ou o quase superávite – terá sempre um preço político, garantindo paradoxalmente a capacidade para pagar o seu próprio custo. 

Ajudado pela conjuntura, protegido pela poupança, o Partido Socialista é candidato a chegar ao próximo ciclo eleitoral – as europeias de 2024 – em plenas celebrações do cinquentenário do 25 de Abril e com o mantra de ter "virado a página" de mais uma crise. 

Alguém derrotaria isso?

Ninguém. 

Mas para aí chegar, tudo teria de correr bem – a partir de agora.

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