"A minha prática diz-me que as pessoas muito homofóbicas têm, às vezes, problemas com a sua própria homossexualidade"

8 dez 2025, 08:00
Daniel Sampaio (Cortesia: Caminho)

ENTREVISTA | Com décadas de experiência, o psiquiatra Daniel Sampaio traz uma conclusão que devia ser óbvia: aos olhos da ciência e da vida quotidiana, não há grandes diferenças entre os casais homossexuais e heterossexuais. "Os problemas que me chegam à terapia são exatamente os mesmos: da fidelidade, do poder na relação, da realização de tarefas domésticas"

Foi por ver sinais de retrocesso – como a “posição retrógrada e atentatória dos direitos” de quem diz que o casamento é ‘entre homem e mulher’ - que escreveu o seu mais recente livro. A reação tem sido polarizada. Houve quem lhe dissesse que estava a influenciar jovens “a ficarem homossexuais”. “Não há nenhum livro, nenhum site, nenhuma imagem que possa levar as pessoas a seguirem uma orientação sexual”, reage. Os últimos tempos, com a crise na habitação e os baixos salários, têm fraturado mais relações, sem olhar a orientações sexuais. “Os casais precisam de ajuda. É uma pena que o Serviço Nacional de Saúde não tenha terapia de casal”.

"Um amor que não se diz – A vida privada de Luís e Guilherme" é o seu mais recente livro. Explora o amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Sendo psiquiatra, o que é que vem da sua experiência clínica?

Daniel Sampaio: O livro tem uma parte mais ensaística ou teórica. E depois tem uma história de amor, que é a do Luís e do Guilherme, as duas personagens centrais, que são baseadas em pedacinhos de histórias clínicas com que me cruzei ao longo da minha prática de quase 50 anos.

Na sinopse, fala-se na ideia de uma vida "normal". É possível ser-se "normal" quando alguém carrega o peso de pertencer a uma minoria e, ao mesmo tempo, se tenta encaixar naquilo que são os padrões?

É fundamental reafirmar que a homossexualidade não é uma doença, como era considerada até 1987. A homossexualidade é uma sexualidade minoritária, mas que é bastante frequente. E está carregada de estigma. Quando dizemos que uma pessoa homossexual não é normal, que é contra a natureza, estamos a estigmatizar.

E esse estigma acaba por ser interiorizado…

É esse o principal problema. Sobretudo na adolescência, quando definimos a nossa orientação sexual, essas pessoas vão interiorizar as mensagens negativas que ouvem na escola e na família. É a homofobia internalizada, que dificulta a saída do armário ou ‘coming out’ - um movimento fundamental, em que a pessoa diz “sou diferente, mas sou assim”. Não se escolhe ser homossexual, não é uma opção. É um processo de reconhecimento do próprio e de aceitação da diferença em relação à maioria. É por aí que deve passar o trabalho terapêutico.

Falemos de casais. Temos o modelo do casal monogâmico, estável, socialmente reconhecido. Diria que foi uma tentativa da sociedade, que é maioritariamente heterossexual, de encaixar os homossexuais dentro da norma vigente? Ou seja, as pessoas homossexuais só se podem sentir "normais" se tiverem uma relação monogâmica, estável e socialmente reconhecida?

Vejo isto como uma questão de direitos humanos. Não faz sentido que um casal do mesmo sexo não possa casar, porque o casamento é um contrato. Não lhes podemos negar inclusive o direito a ter uma casa ou até a adotar um filho. E importa vincar também que há muitos casais heterossexuais que não são monogâmicos, há muita infidelidade, há muitas variações.

Portugal deu esse passo do casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010…

E foi um avanço muito importante, mas o que quero acentuar é que continua a haver muito estigma e rejeição dessas pessoas. Posso dizê-lo até com base na reação a este livro.

Como está a ser? Muito polarizada?

Exatamente. Está a ter uma aceitação muito grande na comunidade LGBTQIA+, que considera muito importante que o tenha escrito. Mas têm-me chegado mensagens que me deixam um pouco surpreendido. Pessoas que dizem que não o devia ter escrito, que é um assunto difícil, que não é preciso falar sobre isso. E, sobretudo, a crítica de que pode influenciar adolescentes a ficarem homossexuais. É um grande erro. Não há nenhum livro, nenhum site, nenhuma imagem que possa levar as pessoas a seguirem uma orientação sexual. Os heterossexuais deviam ler este livro, para compreender melhor a situação e, sobretudo, os pais que têm filhos na adolescência, para não desatarem a fazer perguntas como “nunca mais tens uma namorada?”.

Novo livro de Daniel Sampaio foi publicado pela Caminho (Cortesia: Caminho)

E, por falar nessas reações negativas, há quem se recuse a reconhecer como casal – ou como tendo um casamento - duas pessoas do mesmo sexo com uma vida em comum.

Apesar de haver uma lei desde 2010, que está a fazer o seu caminho, e não querendo generalizar, é certo que existem muitas pessoas que acham que não se devia chamar casamento, mas sim união de facto, porque “o casamento é entre um homem e uma mulher”. Essa posição é retrógrada e atentatória dos direitos.

Tendo em conta a sua prática, o que difere um casamento entre um homem e uma mulher de um casamento entre duas pessoas do mesmo género?

Há quem pense que o cérebro do homossexual, quando está apaixonado, é diferente do cérebro do heterossexual. São exatamente iguais: ativam as mesmas zonas cerebrais ligadas ao prazer e ao amor. As hormonas são exatamente iguais. Portanto, não há, neste momento, uma comprovação biológica da homossexualidade. As pessoas não são diferentes biologicamente.

Então diria que não existe diferença também no casamento em si…

Os problemas que me chegam à terapia são exatamente os mesmos: da fidelidade, do poder na relação, da realização de tarefas domésticas. Há é uma diferença importante, que é o trajeto para chegar ao casamento. Às vezes, num casal homossexual, encontra-se uma pessoa para quem isso foi muito fácil e outra para quem foi muito difícil, porque a ligação à família de origem é diferente. A família de um pode aceitar, a de outro não.

Mas quando um casamento é celebrado por duas pessoas do mesmo sexo, elas estão a subverter a estrutura patriarcal em que ele assenta ou a adaptar-se a ela?

Não estamos a subverter. Estamos a aceitar que há um contrato social. Há muitos casais homossexuais que não casam, entendem que não fazem sentido, assim como também o fazem muitos casais heterossexuais. O casamento, como entidade social, tem vindo a perder influência. Nos últimos anos, tem havido muito pedidos de terapia de casal porque as relações em comum estão difíceis, inclusive pela habitação e pelos ordenados precários. Os casais precisam de ajuda. É uma pena que o Serviço Nacional de Saúde, por exemplo, não tenha terapia de casal e que as pessoas tenham de recorrer ao privado.

Se essa opção estivesse disponível no SNS, conseguiríamos contrariar muitos problemas escondidos da sociedade?

Sim. Neste momento, há casais que se separam à primeira crise. Os casais que estão há muito tempo juntos são aqueles que conseguem superar essas crises e ficam melhores. Verifico, na minha prática, que os casais jovens, ao menor problema, dizem “vamos acabar, já não nos amamos”. A paixão é de curta duração. As pessoas têm é de construir depois uma relação de amor, que é algo difícil.

As gerações mais novas têm menos disponibilidade para lutar por uma relação?

É isso que se está a verificar. Há ruturas muito precoces. Na minha ideia, se essas pessoas procurassem ajuda, e se houvesse mais facilidade em fazer terapia de casal, muitas dessas ruturas não aconteceriam. As gerações mais novas são mais individualistas, às vezes um pouco narcísicas, querem o seu bem-estar pessoal. E, quando se está a viver com uma pessoa, temos de abdicar de coisas nossas.

Daniel Sampaio aproveitou a sua experiência clínica para criar as histórias de Luís e Guilherme (Cortesia: Caminho)

Considera que, no futuro, enquanto sociedade, estaríamos dispostos a aceitar e a reconhecer outras formas de intimidade?

O problema é que, provavelmente, as coisas estão a andar para trás. Foi uma das razoes que me fez escrever o livro. Há conquistas que pareciam adquiridas que estão a ser postas em causa. Por exemplo, a luta das mulheres. Neste momento há, no espaço público, em especial nas redes sociais, muitas críticas às mulheres autónomas. Há muito controlo por parte dos homens, há muita violência no namoro. São sinais de alarme.

E no que respeita à comunidade LGBTQIA+?

Se observarmos os Estados Unidos ou na Hungria, percebemos que há muitas mensagens homofóbicas, muitas críticas. Este livro é um sinal de alerta de que não podemos perder aquilo que conquistámos.

E corremos um risco ainda maior ao retirar a sexualidade dos currículos escolares?

É um sinal de alarme. Quando retiramos a palavra “sexualidade” dos programas, estamos a prejudicar a edução sexual e a dizer que a escola não tem um papel nisso. Foi um recuo. Se reparar, não há educação sexual no ensino secundário, que é a altura em que muitas pessoas iniciam a sua vida sexual. Era uma oportunidade de prevenir a violência no namoro ou infeções sexualmente transmissíveis.

E também para aprender a respeitar quem tem uma orientação sexual diferente. Há quem diga que os comentários homofóbicos acabam por guardar, muitas vezes, uma homossexualidade reprimida. A lógica é "ele critica, mas também gostava de ser". Não é perigoso estarmos a associar um traço da vítima, neste caso a orientação sexual, ao próprio agressor?

Tem toda a razão. Isso, às vezes, acontece. Mas a linha de atuação tem de ser outra. Devemos é questionar por que motivo está a atacar uma pessoa vulnerável e num processo tão difícil para chegar à sua identidade. Agora, aquilo que o agressor guarda dentro dele, a minha prática diz-me que sim, que essas pessoas muito homofóbicas, às vezes, têm problemas com a sua própria homossexualidade. Verifica-se, mas não é algo cientificamente significativo.

Daniel Sampaio considera o seu último livro uma resposta aos ataques à causa LGBTQIA+ (António Cotrim/Lusa)

Tem vincado que a orientação sexual é um conceito fluído. Tendo em conta o estigma e o preconceito que existe em Portugal, será que poderemos algum dia viver a nossa sexualidade com essa fluidez?

Espero que sim. A sexualidade é uma força muito importante, que nos acompanha ao longo da vida e tem uma grande variabilidade. O comportamento sexual humano é muito variável. E a orientação sexual pode mudar ao longo da vida. Há casos de homens que eram casados com mulheres e acabaram a viver com outro homem. Pus esse caso no livro de propósito.

E isso não significa que a vida anterior tenha sido uma mentira…

Exatamente. Devemos estar abertos a essa situação e, sobretudo, acolher e incluir as pessoas que são diferentes da maioria.

Há um número crescente de profissionais de saúde que se dirigem especificamente ao público LGBTQIA+. Há uma necessidade de intervenção especializada ou, pelo contrário, um aproveitamento?

A maioria dos psiquiatras e psicólogos não foi treinada para lidar com pessoas com uma sexualidade minoritária. Eu próprio faço essa autocrítica, admitindo que cometi erros porque não estava preparado para trabalhar com pessoas com uma orientação sexual homossexual ou bissexual. A terapia é um bocadinho diferente: temos de ajudá-los a sair do armário, a criar um clima emocional que permita a expressão daquilo que estão a sentir. Tal como há psiquiatras treinados para tratar a esquizofrenia ou a doença bipolar.

Mas o facto de o psicólogo ou psiquiatra também ser homossexual pode ajudar no processo terapêutico?

Não. Não precisamos de ter pessoas gays e lésbicas a tratarem gays e lésbicas. O que temos é de treinar os profissionais.

Falava-me do momento de "sair do armário". Acredita que é sempre necessário dar esse passo para que uma pessoa homossexual possa viver em plenitude?

Acredito que sim. Há amores e relações escondidos durante uma vida inteira. Essas pessoas vivem um sofrimento permanente, vivem constantemente escondidas. Têm de ser ajudadas o mais cedo possível, para poderem afirmar-se na sua sexualidade.

Mas a verdade é que não pedimos a uma pessoa heterossexual que se assuma.

Exatamente. O heterossexual não precisa de dizer que o é, toda a gente parte desse princípio. Mas é um movimento central para o homossexual dizer “não sou igual ao que estás a pensar, sou diferente”. Há o receio de rejeição da família. Mas, muitas vezes, é um receio exagerado. Na maioria dos casos, as famílias acabam por aceitar.

Daniel Sampaio defende a necessidade de "sair do armário" para homossexuais viverem a sua vida em pleno (Pexels)

O livro fala numa relação entre dois homens. A sociedade tende a encarar este tipo de relações como sendo mais promíscuas. Corresponde à realidade?

É mito que os casais homossexuais sejam mais infiéis. É mito que haja mais violência nos casais homossexuais. É tudo muito igual aos casais heterossexuais.

E a fidelidade, faz sentido para todos os casais? É possível ultrapassar a exclusividade do casamento?

Se o casal achar que deve ter outras relações, isso deve ser transparente, acordado. Quando os casais começam a falar sobre isso, as posições são diferentes, nunca são exatamente iguais. Por isso, tem de ser falado e acordado, para que resulte minimamente.

É um grande risco para a própria relação se as coisas não estiverem claras.

Claro, o ciúme faz parte da nossa relação com os outros, é inerente à relação de amor. É o ciúme patológico que faz mal às relações. Quando estamos com alguém e essa pessoa começa a pensar noutra, sentimos ciúme. Cada um tem de expressar o que está a sentir para, eventualmente, chegar a um acordo sobre o tipo de relação que vão continuar a ter. O que se passa é que, muitas vezes, as pessoas não conseguem exprimir o que estão a sentir.

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