“Dançar tem um propósito”: após perder a perna, Musa Motha inspira outros em cada movimento

CNN , Michelle Cohan
1 dez 2021, 10:55
Musa Motha
Musa Motha

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Tendo crescido numa zona subdesenvolvida de Sebokeng, a sul de Joanesburgo, o sul-africano Musa Motha diz que a envolvência não era propriamente idílica, mas tinha um campo de futebol poeirento improvisado mesmo em frente à rua onde morava. Motha disse que, para ele, era um “paraíso”.

Esse campo traz boas e más memórias a Motha. O futebol era o seu desporto preferido e ele recorda carinhosamente os tempos em que jogou na equipa juvenil da zona.

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Mas um jogo viria a mudar tudo quando ele tinha 10 anos.

“Estávamos a jogar num torneio e eu lesionei-me no joelho esquerdo, caindo após ter sido pontapeado. Fiquei com dores desde esse dia.”

Lembra-se de muitas noites sem dormir, com dores aflitivas. A mãe acabou por levá-lo ao hospital, de onde não mais voltaria a sair. “Os médicos examinaram a minha perna e não encontraram nada, não havia qualquer fratura. Ficaram frustrados.” Só diziam: “O que é isto? O que se passa aqui?”

Créditos: Bruce Buttery

Mais tarde, uma biópsia à medula óssea revelou que Motha tinha osteossarcoma na perna esquerda, um tipo de cancro dos ossos. Embora não tivesse sido originado pela lesão no futebol, a mesma chamou a atenção para o cancro ali presente.

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Ele disse que a primeira ronda de quimioterapia não resultou e o médico informou os pais de Motha de que teriam de amputar a perna.

Motha recorda que, nem ele, nem os pais, reagiram bem. Na altura, disse: “Sou uma criança. Nem pensar que vou ficar sem perna.”

Não avançaram com a amputação, mas Motha viria a piorar com o passar do tempo. “Nem conseguia levantar-me. Ou era amputado, ou morria.”

Optou pela amputação e, desde então, decidiu que iria abordar a vida de uma forma mais positiva.

Abrir espaço na pista de dança

Fiel à sua palavra, Motha, agora com 26 anos, pode ser visto a rodopiar em palcos por todo o mundo. Conheceu a dança numa festa de bairro, onde ganhou coragem para pedir a um amigo que lhe ensinasse uns passos. “Depois, dancei a noite toda”, recorda ele.

No dia seguinte, juntou-se a um grupo de dança de rua. Aos domingos, competiam contra outros grupos num palco a céu aberto do centro da cidade.

Deu nas vistas pelo seu talento e começou a marcar presença em anúncios e espetáculos na televisão sul-africana. Até participou no videoclipe da música “One Dance”, de Drake.

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Motha foi encorajado a expandir o seu talento para a dança contemporânea e, em 2018, fez audições para o Vuyani Dance Theatre, criação do famoso coreógrafo Gregory Magoma.

Foi a primeira vez que teve de sair da sua zona de conforto e criar uma nova mentalidade envolvendo a dança com deficiência.

“O Gregory dizia: ‘Pés paralelos à frente’. E eu pensava: ‘Não vou mexer a perna, pois só tenho uma’. Foi então que decidi que tinha de arranjar forma de contornar isso.”

Dançar com deficiências

Nadine Mckenzie, bailarina em cadeira de rodas na África do Sul, disse que o grande obstáculo à entrada no mundo das artes de palco é o acesso.

“Não há muitas companhias ou formações abertas para pessoas com deficiência, especialmente na dança. Passei por várias experiências onde estava numa aula com diferentes pessoas e alguns coordenadores não sabiam o que fazer connosco. É por isso que não abrem esses espaços a diferentes artistas.”

Créditos: Doctor Moyo

Além da falta de acesso, para McKenzie, que dança há 15 anos, a inclusão é outra das barreiras às pessoas com deficiência.

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“Há poucas pessoas, especialmente na África do Sul, com projetos que envolvam bailarinos com deficiências. É algo que continua a ser muito difícil, mas que vai começando a mudar muito lentamente”, disse ela.

Ao aperceber-se de um nicho na indústria, McKenzie foi cofundadora da Unmute em 2013, uma companhia de dança inclusiva na Cidade do Cabo, que procura envolver jovens com deficiências no mundo das artes.

“É extremamente gratificante ter conseguido criar mais plataformas para os artistas poderem treinar e atuar, para além de apresentar mais jovens”, disse ela.

McKenzie acredita que a Unmute ajuda a quebrar algumas dessas barreiras através de campanhas de sensibilização, não só para pessoas com deficiências, mas também para pessoas saudáveis aprenderem a trabalhar com elas.

Créditos: Liezl Zwarts

Gerard Samuel, professor de dança na Universidade da Cidade do Cabo, escreveu vastos artigos sobre a invisibilidade dos bailarinos com deficiências. Disse à CNN que, apesar dos progressos no acesso e inclusão no mundo da dança, ainda há muito a fazer.

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“As barreiras incluem mentalidades de limitação e incapacidade das pessoas com deficiência, e os mitos e tabus que as rodeiam. Tudo isso ainda tem de mudar.”

Ele acredita que a educação, o investimento e uma maior presença nos média ajudariam a promover maior acessibilidade e melhor inclusão.

Encontrar o ritmo

Sem ter um exemplo por onde se guiar, Motha teve dificuldades em perceber como dançar em peças contemporâneas com duas muletas. Diz ele que passou muito por adaptações e ajustes simples.

“Acabei por descobrir a técnica de deixar cair uma muleta e usar a outra a fazer de perna e braço ao mesmo tempo.”

Créditos: Doctor Moyo

Também teve algumas ajudas. “Estamos num sítio onde podemos aprender imenso com as pessoas que vivem com deficiências”, disse Gladys Agulhas, instrutora de dança que trabalha com pessoas com deficiência, incluindo Motha.“Está na altura de nos unirmos, reconhecermos e respeitarmos quem somos enquanto indivíduos. Toda a gente tem o direito a estar onde bem quiser.”

Samuel concorda que a representação tem de se prolongar para lá das artes de palco. “Quantas mais pessoas com deficiências virmos nos diversos aspetos da vida, seja como pilotos de helicópteros, engenheiros, cozinheiros, coreógrafos e professores, mais esperança numa sociedade em que ninguém viva à margem podemos ter.”

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