A Rússia foi alvo de dois grandes ataques terroristas em apenas três meses. Eis o que sabemos

CNN , Kathleen Magramo e Jerome Taylor
24 jun, 13:46
Ataque numa sinagoga em Derbent, no Daguestão, em 23 de junho de 2024. TASS

Mais de 200 comunidades de minorias étnicas vivem na Rússia, que se estende por onze fusos horários e alberga cerca de 144 milhões de pessoas. Algumas destas comunidades foram especialmente atingidas pela guerra de Putin na Ucrânia, tendo as minorias étnicas sido desproporcionadamente mobilizadas para enfrentar o horror das táticas de Moscovo na frente de batalha

A Rússia sofreu outro grande ataque terrorista, com pelo menos 19 mortos e 25 feridos no que parecem ser tiroteios coordenados em vários locais de culto no Daguestão, no extremo sul da Rússia.

Este é o segundo ataque nos últimos três meses, depois de, em março, mais de 130 pessoas terem sido mortas numa sala de concertos perto de Moscovo, num ataque terrorista reivindicado pelo ISIS-K, e põe em causa a reputação do presidente Vladimir Putin, que se autodeclara um líder capaz de garantir a ordem no vasto e turbulento país.

O recrudescimento da violência ocorre num momento em que ressurgem tensões étnicas há muito latentes, agravadas pela necessidade de preencher as fileiras militares da Rússia, à medida que a guerra de Putin contra a Ucrânia avança, e pelo conflito em curso no Médio Oriente.

Eis o que precisa de saber.

O que aconteceu no Daguestão?

Homens armados não identificados abriram fogo em vários locais de culto e numa esquadra da polícia em duas cidades do Daguestão, de maioria muçulmana, matando pelo menos 15 polícias e quatro civis, incluindo um padre, no domingo.

Duas sinagogas - uma na cidade de Derbent e outra na cidade de Makhachkala - foram atacadas, de acordo com um comunicado do Congresso Judaico Russo (RJC).

Os atacantes "incendiaram o edifício com cocktails Molotov" na sinagoga de Derbent, enquanto a polícia e os seguranças foram mortos no exterior durante o ataque, segundo o RJC.

Na capital da província de Makhachkala, a agência noticiosa estatal russa TASS informou que um segurança da igreja foi morto num tiroteio em Svyato-Uspenskiy Sobor e que 19 pessoas se tinham trancado no interior das instalações durante o ataque. Foi também registado um ataque a uma esquadra da polícia em Makhachkala.

Não houve qualquer reivindicação imediata de responsabilidade pelos ataques, mas as forças da ordem disseram à TASS que os atacantes eram "adeptos de uma organização terrorista internacional".

O Comité de Investigação da Rússia para a República do Daguestão declarou ter iniciado uma inquérito sobre os ataques terroristas ao abrigo do Código Penal da Federação Russa.

Onde fica o Daguestão?

O Daguestão situa-se na região russa do Cáucaso, na costa ocidental do Mar Cáspio.

A república é, em muitos aspetos, um microcosmo da diversidade da Rússia. A região montanhosa alberga mais de 30 grupos étnicos com línguas distintas e é uma república maioritariamente muçulmana que, historicamente, tem sido palco de uma variedade de práticas religiosas islâmicas.

A população judaica é minúscula - o judaísmo é uma das religiões mais antigas do Daguestão, praticada por comunidades de judeus das montanhas, que falam uma forma de persa - mas, após séculos de coexistência com os vizinhos muçulmanos, essa população tem vindo a diminuir devido à emigração.

O Cáucaso foi maioritariamente integrado no império russo no século XIX e tem uma longa história de ressentimento em relação ao domínio de Moscovo, durante os períodos czarista, soviético e pós-soviético.

Após o colapso da União Soviética, os insurgentes da vizinha Chechénia travaram duas guerras separatistas pela independência - que a Rússia classificou de terrorismo e respondeu com táticas que deixaram grande parte da capital Grozny em ruínas. Putin instalou então o temido senhor da guerra Ramzan Kadyrov na Chechénia que, desde então, tem governado com mão de ferro.

No Daguestão, as forças de segurança russas lutaram contra uma insurreição islamista na região montanhosa na década de 2000, que se propagou a partir da vizinha Chechénia, embora os ataques se tenham tornado mais raros nos últimos anos.

Mas os acontecimentos atuais colocaram a região, historicamente inquieta, de novo no limite.

Tensões religiosas e étnicas na Rússia

Mais de 200 comunidades de minorias étnicas vivem na Rússia, que se estende por onze fusos horários e alberga cerca de 144 milhões de pessoas.

Algumas destas comunidades foram especialmente atingidas pela guerra de Putin na Ucrânia, tendo as minorias étnicas sido desproporcionadamente mobilizadas para enfrentar o horror das táticas de Moscovo na frente de batalha.

Em 2022, eclodiram protestos em várias regiões de minorias étnicas contra as ordens de mobilização de Putin, incluindo no Daguestão. Num vídeo geolocalizado pela CNN, mulheres na capital Makhachkala podiam ser vistas implorando à polícia do lado de fora de um teatro.

"Porque estão a levar os nossos filhos? Quem é que atacou quem? Foi a Rússia que atacou a Ucrânia", ouve-se no vídeo.

A guerra de Israel contra o Hamas, na sequência dos brutais ataques de 7 de outubro, também fez disparar as tensões em todo o mundo, alimentadas pelas imagens diárias da destruição em Gaza, incluindo no Cáucaso.

Putin tem desempenhado um delicado papel de equilibrista internacional, apresentando-se como um potencial mediador e apelando à contenção de ambas as partes - uma posição que mereceu elogios do Hamas.

Mas essa confiança foi abalada no final do mês, quando desordeiros antissemitas invadiram o aeroporto Makhachkala Uytash, no Daguestão, onde chegava um voo proveniente de Israel.

Pelo menos 20 pessoas ficaram feridas e 60 foram detidas nos caóticos confrontos, segundo as autoridades locais. Vários vídeos publicados nas redes sociais mostram uma multidão de pessoas no interior do aeroporto e na pista, algumas agitando a bandeira palestiniana, outras forçando a entrada pelas portas fechadas do terminal internacional.

A violência inter-religiosa é algo que preocupa "muito, muito" o líder russo Putin, disse Jill Dougherty, ex-chefe de gabinete da CNN em Moscovo, em resposta aos ataques de domingo no Daguestão.

A Rússia tem uma complexa rede de relações no Médio Oriente: Putin apoia o presidente sírio Bashar al-Assad (um inimigo de Israel); confia no Irão (outro inimigo de Israel) para obter drones para atacar a Ucrânia; e é amigo do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, outro ator poderoso na região.

Também tem mantido relações de trabalho cordiais com os seus homólogos israelitas, embora a sua relação com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu tenha esfriado.

Ataque do ISIS-K a uma sala de espectáculos

Os ataques coordenados no Daguestão ocorrem poucas semanas depois de a Rússia ter sofrido o pior ataque terrorista das últimas décadas.

Em março, mais de 130 pessoas foram mortas depois de os assaltantes terem invadido um popular complexo de salas de concertos nos arredores de Moscovo.

O ISIS-K reivindicou a responsabilidade pelo massacre e quatro homens armados da antiga república soviética do Tajiquistão foram acusados de terrorismo.

O chocante ataque terrorista ocorreu apenas uma semana depois de Putin ter ganho umas eleições encenadas que reforçaram o seu controlo sobre o país que governa desde o início do século.

Para um líder que há muito prometeu segurança e estabilidade aos russos, o ataque de grandes proporções em solo russo foi mais um duro golpe.

A emoção desencadeada pelo tumulto - combinada com os vídeos perturbadores - desencadeou uma onda de xenofobia de alguns em relação aos trabalhadores migrantes da Ásia Central em geral.

Os migrantes dos Estados da Ásia Central da antiga União Soviética - Tajiquistão, Uzbequistão, Quirguizistão, Turquemenistão e Cazaquistão - têm sido tradicionalmente uma valiosa fonte de mão de obra barata na Rússia.

No rescaldo do ataque de março, Putin apelou à união da Rússia.

"Nunca devemos esquecer que somos um país multinacional e multirreligioso. Devemos sempre tratar os nossos irmãos, representantes de outras religiões com respeito, como sempre fazemos - muçulmanos, judeus, toda a gente", disse.

Mas o ataque de domingo no Daguestão mostra que continuam a existir fissuras profundas nas regiões fronteiriças da Rússia.

*Darya Tarasova, Jen Deaton, Mariya Knight Nathan Hodge e Sebastian Shukla contribuíram para este artigo

 

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