€817,67/mês: este é o salário médio da geração deste artigo

3 jan, 07:00
Jovens

Alexandra escolheu a vida pessoal em detrimento da profissional e confessa-se feliz com a decisão. Pedro acabou o curso há nove meses e desde essa altura que ingressou numa agência de comunicação para seguir o seu sonho na área que sempre quis. Rodrigo tem 27 anos, é chef de cozinha em Cascais, mas o seu futuro acabará por passar pelo estrangeiro. João saiu da faculdade para a farmácia e atingiu o topo da carreira em pouco tempo

O futuro sempre se apresentou muito longínquo, ainda que, ao mesmo tempo, para Alexandra Monteiro, fosse certo. A jovem de 27 anos, natural de Aveiro, sempre teve presente que, independentemente do caminho que tomasse, o seu destino seria sempre a terra que a viu crescer. Só assim se sentiria realizada a nível pessoal, mesmo que profissionalmente o copo não ficasse tão cheio. 

“Acho que se tivesse feito a escolha de me mudar para Lisboa ou Porto, não teria esta estabilidade a nível pessoal. Tenho a certeza de que não estaria tão feliz”.

Alexandra terminou o curso na Escola Superior de Educação de Coimbra em 2015 e o diploma em Comunicação Social ficou “conscientemente” arrumado na gaveta depois de um estágio curricular na Agência Lusa. Na sua vida, o estágio foi apenas uma pausa de três meses sem remuneração até ser chamada a trabalhar num hipermercado em 2016 - e onde se mantém. Mas, afinal, porque quis a Alexandra licenciar-se?

“Sempre disse que queria estudar e ir para a universidade, mas nunca houve um curso - Psicologia era uma área que me agradava - que eu dissesse ‘vou para a universidade e vou tirar isto e é isto que eu quero fazer para a minha vida’. E quando acabei o secundário ainda não tinha noção do que queria para a minha vida profissional. Às vezes acho que ainda não tenho, acho que ainda não descobri”.

Alexandra Monteiro, 27 anos

A descoberta passa pelo conhecimento de si própria. A trabalhar no atendimento ao público, sabe que daqui a dez anos não quer estar ali, mas faltam-lhe ideias para o que fazer a seguir. Está apenas segura de que irá apostar na formação.

"Temos cada vez mais jovens com formação superior e isto é muito incutido pela maioria das pessoas mais velhas que não tiveram oportunidade de estudar e nos dizem ‘estuda para seres alguém na vida’. Acho que o país não está preparado para receber e ingressar no mercado de trabalho tanta mão-de-obra qualificada. Isto é, para construir uma casa não precisas só do arquiteto ou engenheiro, precisas do trolha e agora todos queremos ser doutores", afirma, acrescentando que a ideia que se as pessoas se não estudarem não são "ninguém" é errada.

Aos 27 anos, Alexandra reconhece que lhe falta ser mais ambiciosa na vida profissional. Com um trabalho fixo, a viver na cidade que a viu nascer, a jovem aveirense já conseguiu comprar casa própria e formar família. “Muitos colegas meus que optaram pela profissão não sabem quando vão conseguir” ter sua casa. 

"Tens de ter sorte"

A Pedro não lhe falta ambição. Aos 24 anos, ingressou numa agência de comunicação, na área da consultoria e mostra-se satisfeito com o caminho que tem trilhado.

“Sempre gostei muito do mundo do digital. Quando comecei a estudar já achava que era o que queria para o meu futuro, mas agora tenho a certeza."

Diariamente, Pedro contacta com várias marcas e clientes que contrataram os serviços da agência. Um trabalho que ainda está a ser feito em modo híbrido, com uns dias no escritório e outros em teletrabalho. 

Pedro Roque, 24 anos

Com um contrato de estágio profissional, o jovem lisboeta ainda vive com os pais e sempre que tem de se deslocar ao escritório usa transportes públicos. Sair de casa ou comprar carro, neste momento, "não é de todo uma possibilidade", mas espera que seja no futuro, onde se vê a trabalhar por conta própria.

"Todos nós queremos estar mais estáveis no futuro. Portugal é um país em que tens de ter muita sorte porque, ou já vens com posses do passado, ou tens de ter muita sorte. Mas sonhar e tentar por isso não custa dinheiro e, no futuro, gostava de estar melhor financeiramente e adorava trabalhar por conta própria", afirma o jovem de 24 anos.

Para Pedro, alcançar qualquer bem material de grande escala é sempre um passo que terá de ser dado mais à frente. Para Alexandra, tal já foi possível porque escolheu ficar longe da capital e do centro da cidade, onde o custo de vida é bem mais elevado.

Como se vive com 817,67€ por mês?

Mas, afinal, como se governa em Portugal um jovem que recebe, em média, 817,67€ mensais (dados INE/2019)? Jovem esse que tem de pagar renda de casa ou empréstimo à habitação, contas domésticas, alimentação e transportes (seja esse individual ou coletivo) e ainda ter algum dinheiro para gastar em cultura, saídas à noite com os amigos e conseguir juntar nas poupanças.

Compra Cidade Empréstimo Prestação
T1 Benfica 182 mil euros (160 mil euros a 40 anos) 414 euros
T1 Rio de Mouro 109 mil euros (98 mil euros a 40 anos) 250 euros
T1 Aveiro 117 mil euros (105 mil a 40 anos) 269 euros

O exercício não é simples, os gastos variam de pessoa para pessoa, mas usando o exemplo do jovem licenciado que vive e trabalha em Lisboa, não tem carro próprio e faz a sua vida em plena capital com pouco mais de mil euros mensais, ficamos a saber que depois de pago o empréstimo ao banco pelo T1 de 60 metros quadrados em Benfica, no valor de 414 euros, o jovem português ainda irá gastar 40 euros no passe Navegante, 120 euros no supermercado, mais 120 euros em alimentação ao longo do mês, pagará 60 euros das contas da casa (água, luz e gás) e ainda mais 50 euros em telecomunicações.

Transportes Gasto
Passe Navegante Metropolitano 40 euros (30 euros só Lisboa)
Carro - 1 depósito gasóleo 75 euros

No final, na conta bancária, restarão 13 euros e será desse valor que o jovem terá de arranjar dinheiro para gastar em cultura, saídas à noite com os amigos e conseguir juntar nas poupanças.

Despesas mensais Valor
Supermercado 120 euros
Água, Luz, Gás 60 euros
Alimentação 120 euros
Internet/tv/telefone/telemóvel 50 euros

O caso muda de figura se, ao invés de ter casa própria, o jovem tiver arrendado habitação. Um apartamento da mesma tipologia, na mesma freguesia, tem um arrendamento estimado (dados Idealista) em 750 euros. Neste caso, a conta bancária terá um saldo negativo (após pagar todas as despesas) de 323 euros, o que significa que o jovem terá de poupar ou no supermercado, ou na alimentação ou nas telecomunicações. Ou mudar de emprego, de freguesia ou de país, como em 2020 fizeram mais de 68 209 portugueses (25 886 de forma permanente).

Arrendamento Cidade Tipologia Valor
  Benfica T1 750€
  Loures T1 575€
  Cacém T1 528€

Num ano em que o desemprego jovem ultrapassou os 22,6% na faixa etária dos 16-24 e chegou aos 8,6% entre os 25-34 anos no terceiro trimestre de 2021 (dados INE), os jovens portugueses tentam conseguir melhores empregos, melhores salários e um melhor futuro. Mas passará esse futuro por Portugal?

Quando questionado se o futuro poderá passar pelo estrangeiro, Pedro é assertivo na resposta: "Não penso nisso porque adoro o meu país, mas se recebesse uma proposta melhor do que a que me dão em Portugal, claro que iria. Tenho de pensar no meu futuro e, se houver uma proposta boa, está em cima da mesa ir para fora".

Até porque, para este jovem, a maior preocupação é não evoluir na carreira nem satisfatoriamente a nível salarial de forma a conseguir comprar casa e constituir família. 

"Hoje em dia, ter uma casa é muito difícil. E quem a consegue comprar, se não tiver "sorte", só a acaba de pagar quando já é velho...".

"A paixão tornou-se vida"

A habitação é um dos maiores problemas para os jovens. Com altos valores de rendas ou preços de compra, conseguir ter um espaço próprio para habitar nem sempre é tarefa fácil. Para Rodrigo, de 27 anos, a questão da habitação tornou-se um problema quando, em março de 2020, "aterrou" a pandemia covid-19 em Portugal.

A pagar 500 euros por um quarto em Lisboa, o chef de cozinha viu o desemprego bater-lhe à porta com a mesma rapidez que os números da pandemia aumentavam em Portugal. Sem trabalho e sem rendimentos, Rodrigo não teve outra opção senão rumar a casa da família, no Porto, de onde é natural.

"Nos finais de 2019, inícios de 2020, fui chef de um restaurante em Lisboa. E depois entrou a pandemia. Fiquei desempregado, fui despedido ilegalmente, tive uma má relação com os meus empregadores devido ao covid. A vida em Lisboa, vindo do Porto, não é fácil. Andava a pagar 500 euros por um quarto, não estava propriamente numa posição para poupar dinheiro e para trabalhar. Por isso não consegui sustentar-me e, passado um mês e meio, tive de me ir embora porque não conseguia viver sozinho com o meu salário".

Para este chef de cozinha portuense, esta terá sido a decisão mais linear que tomou, a seguir a ter escolhido um curso no final do 12.º ano. Fora isso, toda a sua vida profissional foi feita como se de uma receita se tratasse: tentativa e erro, recomeça e faz de novo.

Rodrigo começou a estudar na escola de Hotelaria do Porto antes de terminar o 12.º ano, mas pouco depois teve de desistir por causa de uma disciplina em atraso. Quando a concluiu, rumou aos Açores para cursar "Natureza e Património", mas o curso acabou por ficar a meio.

"Gostei muito, foi uma experiência, mas acabei por levar a vida a cozinhar para os meus amigos e a fazer pesca submarina. Ao final de um ano e meio, comecei a perceber que se calhar não estava a fazer aquilo que gostava e desisti. Vim outra vez para o Porto e fui outra vez para a Escola de Hotelaria. Mais uma vez senti que não estava a aprender. Tudo demorava imenso tempo. Desisti e fui trabalhar".

A carreira de Rodrigo na cozinha começou ali, com uma oportunidade no Cantinho do Avillez, que rapidamente levou a uma transferência para o restaurante Mini Bar. 

"E aí foi realmente a grande mudança. Conheci a pessoa que me deu uma oportunidade lá, que foi o Gonçalo Henriques, uma pessoa que realmente me mostrou o que era realmente o mundo da cozinha. A paixão tornou-se vida". 

Rodrigo Santos, 27 anos

Uma vida que acabou por ser interrompida pela pandemia e que o levou, de mochila às costas, até Aljezur, onde, durante o verão de 2020 acabaria por fazer trabalhos nos bares de praia, antes de ficar desempregado durante mais seis meses.

"Houve muita gente que saiu destruída desta pandemia", desabafa. 

Mas, em agosto, depois da vida do jovem portuense se alterar completamente, as oportunidades voltaram a surgir após a presença no evento "Chefs on Fire". Rodrigo recebeu uma proposta para um restaurante em Cascais, onde "pagam justo, as pessoas são honestas e o horário é bom". Mas não chega para este chef que quer elevar a cozinha a outro patamar e sente que "Portugal não avança à mesma velocidade dos outros países".

"A nossa economia é tão frágil que o português não sustenta um restaurante. Não vamos gastar 200 euros num jantar e eu acho que 200 euros por uma refeição com 11 pratos não é caro. Isso condiciona o avanço dos próprios restaurantes e das próprias pessoas. E para isso, tu tens de correr mundo. Acho que lá fora há mais oportunidades e melhores. O meu objetivo é correr mundo, mas sempre com a bandeirinha às costas. Sou altamente patriota e acho que nós vivemos, literalmente, num cantinho à beira mar plantado. Mas, infelizmente, as oportunidades ao mais alto nível aqui em Portugal são poucas. O avanço, os grandes chefs, estão todos lá fora. Se queres evoluir no mundo da cozinha, tens de estar ao mais alto nível".

E por isso, a mochila às costas volta a estar nos planos de Rodrigo, sempre com um regresso a Portugal no horizonte, nem que seja num prazo maior do que dez anos.

"Daqui a 10 anos? Gostava de estar aqui em Portugal, já depois de ter corrido mundo, mas sei que vai ser difícil. infelizmente, sinto que vou estar em algum lado. Adorava que fosse aqui, mas é inevitável. Não vejo a economia a melhorar. Antigamente havia muito menos oportunidades, mas quem as agarrava conseguia vingar. Agora, são escassas e eu posso trabalhar dez anos e receber sempre o mesmo. E pagar 600 euros por um T0 e receber 1200, onde é que tu evoluis? Onde é que constituis família? Onde é que investes onde o Estado não pode investir, que é na habitação? Não investes, porque se eu for agora um banco pedir dinheiro, eles não me dão, porque não acreditam em mim, porque eu não tenho nada palpável".

E quando tudo corre como planeado?

João, 29 anos, mestre em Ciências Farmacêuticas pela Universidade do Algarve, é diretor técnico da Farmácia Planalto em Lisboa. A curta descrição do jovem lisboeta mostra que o percurso foi seguido da forma tradicional e que após a defesa da tese de curso, em novembro de 2016, João não teve dificuldade em arranjar trabalho.

"No caso das Ciências Farmacêuticas, não se pode dizer que tenhamos dificuldade em arranjar emprego, pelo menos aqui em Portugal, porque existem várias áreas onde quem tirou o curso pode trabalhar, como as farmácias comunitárias, as farmácias hospitalares, as análises clínicas, o ensino e a investigação".

Com uma equipa de quatro jovens a seu lado, João diz não conhecer ninguém da área que esteja desempregado nem que esteja em dificuldades de empregabilidade naquela área. Tudo se prende, claro, com "aquilo que a pessoa ambiciona para a sua carreira".

E trabalhar numa área onde conseguisse estar ligado à saúde, mas também pudesse ensinar algo (por influência dos pais), foi o que o levou até ao curso. Isso e a consciência de que quando saísse da faculdade teria emprego estável e um futuro em Portugal.

"Em 2010, estávamos na crise economia, e foi uma coisa que os meus pais me incutiram: tu podes escolher o que quiseres, mas tens de ter a perspectiva de quando saíres da faculdade teres de encontrar emprego".

João Guarino com a equipa

O emprego foi conseguido sem dificuldade e a progressão na carreira na Farmácia Planalto (que abriu em plena pandemia) chegou rapidamente. Em cinco anos, João atingiu o topo da carreira na farmácia comunitária e aquilo que tem pensado para o futuro não mudou muito de 2011 para 2021.

Até porque pensar no futuro é algo que tem feito desde o ensino básico para que, caso surja alguma surpresa na vida, saiba estar preparada para ela.

"Se calhar ao longo da nossa vida, enquanto estamos no ensino básico, ao cuidado dos nossos pais, temos já incutido essa perspetiva de «onde é que eu tenho de estar daqui a dez anos» e fazer esse caminho - que às vezes pode ser o caminho das pedras. É muito importante termos soluções de poupança, a partir do momento em que começamos a trabalhar - acredito que a maior parte dos jovens a principal dificuldade seja o conforto financeiro porque cada vez mais os ordenados não estão a acompanhar a evolução da inflação - e eu de alguma forma consigo perspectivar a minha vida daqui a dez anos porque há dez anos, quando entrei para a faculdade, já tinha esta preocupação".

Preocupação que se mantém para o futuro daqui a dez anos neste momento, até porque ainda há objetivos para conquistar - constituir família, comprar uma casa, ter uma vida relativamente estável -, mas sempre em Portugal.

"O importante é estabelecer patamares, degraus e ver se termos as ferramentas necessárias para passar ao patamar seguinte. O futuro em Portugal é viável, mas acredito que não seja uma coisa fácil. O ramo da saúde é mais ou menos estável porque nossa profissão permite-nos uma estabilidade que outros ramos não permitem. Porque, lá está, as pessoas à medida que vão vivendo mais ou vão tendo mais problemas de saúde ou vão começando a prevenir alguns desses problemas".

Sair para fora do país foi ideia passageira no fim do curso - "por uma questão de aventura" - mas por necessidade, João confessa que não se vê a sair de Portugal. Até porque, a plataforma de segurança e de estabilidade que a área lhe dá não o faz querer procurar trabalho noutro local.

"Tenho condições favoráveis aqui na farmácia, somos uma farmácia em crescimento, e se me perguntarem se fico na farmácia Planalto para o resto da minha vida acho que consigo perfeitamente ver isso como um projeto viável", conclui.

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