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"Posso fazer o que quiser com ela", diz Trump, que assume "tomar Cuba"

CNN , Patrick Oppmann e Michael Rios
17 mar, 11:10

Cuba depende fortemente do petróleo para a produção de eletricidade. O bloqueio efetivo das exportações de combustível por parte dos Estados Unidos agravou a crise energética do país, provocando cortes intermitentes de energia, racionamento de material médico e uma quebra no turismo

O presidente dos EUA, Donald Trump, ponderou esta segunda-feira a possibilidade de ter a “honra de tomar Cuba”, no mesmo dia em que a rede elétrica da ilha, governada por um regime comunista, sofreu o primeiro colapso nacional desde que os Estados Unidos cortaram, na prática, o fluxo de petróleo para o país.

“Sabe, toda a minha vida ouvi falar dos Estados Unidos e de Cuba, quando é que os Estados Unidos terão a honra de tomar Cuba? É uma grande honra”, afirmou Trump, em declarações aos jornalistas na Sala Oval. “Tomar Cuba de alguma forma, sim, tomar Cuba — quer eu a liberte, quer a tome, acho que posso fazer o que quiser com ela.”

Questionado sobre se uma eventual operação militar norte-americana em Cuba seria semelhante à captura, em janeiro, de Nicolás Maduro na Venezuela ou mais parecida com o conflito militar contínuo dos Estados Unidos com o Irão, Trump responde: “Não posso dizer-lhe isso.”

As declarações surgem numa altura em que Cuba voltou a mergulhar na escuridão devido a uma falha generalizada de energia. Não foram detetadas avarias nas unidades elétricas em funcionamento no momento do colapso da rede, informou esta segunda-feira a empresa estatal responsável, acrescentando que estão em curso trabalhos para restabelecer o fornecimento em todo o país.

Um vendedor ambulante atende um cliente no Malecón, durante um apagão em Havana, a 16 de março de 2026. (Ramon Espinosa/AP)

Cuba depende fortemente do petróleo para a produção de eletricidade. O bloqueio efetivo das exportações de combustível por parte de Washington agravou a crise energética do país, provocando cortes intermitentes de energia, racionamento de material médico e uma quebra no turismo, segundo as autoridades.

Os preços dos combustíveis dispararam de tal forma que, no mercado informal, a gasolina pode atingir os 9 dólares por litro (cerca de 8,30 euros), o que significa que encher um depósito pode custar mais de 300 dólares (cerca de 276 euros) — um valor superior ao rendimento anual da maioria dos cubanos.

Os apagões nacionais têm sido frequentes nos últimos anos. As autoridades cubanas têm atribuído estas falhas às sanções económicas dos EUA, embora críticos apontem também a falta de investimento no envelhecido sistema de produção de energia da ilha.

A CNN contactou a Casa Branca para obter um comentário.

“Os responsáveis do (governo) dos EUA devem estar muito satisfeitos com os danos causados a cada família cubana”, afirmou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, em reação ao apagão de segunda-feira.

Miguel, anfitrião de alojamento local em Varadero, disse à CNN que a cidade costuma ser poupada aos apagões, mas que desta vez também foi afetada, dada a dimensão da falha.

Uma mulher usa uma lanterna enquanto caminha com um homem numa rua durante um apagão em Havana, a 16 de março de 2026. (Yamil Lage/AFP/Getty Images)

Dayana Machin, residente em Havana, afirmou à Reuters que o mais recente apagão não a surpreende e que os civis devem preparar-se “com fogões a lenha, com painéis solares para quem os conseguir obter, com reservas de água para quem tem problemas de abastecimento e com reservas de gás para quem as tiver”.

O músico Lázaro Caron admitiu que o apagão vai afetar o seu trabalho, mas reconheceu que “não há nada a fazer senão enfrentar a situação e seguir em frente, ver o que acontece”.

No sábado, residentes da cidade de Morón, no centro de Cuba, saíram à rua para protestar contra problemas no fornecimento de eletricidade e no acesso a alimentos.

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, afirmou na sexta-feira que não foi entregue petróleo na ilha nos últimos três meses. Acrescentou ainda que responsáveis cubanos mantiveram conversações com os Estados Unidos para “identificar os problemas bilaterais que precisam de solução”.

“O impacto (do bloqueio) é tremendo. Manifesta-se de forma mais brutal nestas questões energéticas”, afirmou. “Isto provoca angústia na população.”

Em resposta à crise energética, o governo anunciou medidas de emergência, incluindo a redução do horário escolar, o adiamento de grandes eventos desportivos e culturais e cortes nos serviços de transporte.

Muitos hospitais públicos reduziram serviços e a falta de combustível e de camiões do lixo operacionais levou à acumulação de resíduos em vários bairros.

Em praticamente todas as esquinas, as conversas giram em torno dos cortes de energia — quando acontecem e quanto tempo duram. À noite, em Havana, as estrelas são frequentemente visíveis, já que grande parte da cidade fica mergulhada numa escuridão quase total.

(CNN)

A venda de combustível nos postos estatais está agora fortemente limitada. Apenas turistas, diplomatas e cubanos com autorização através de um sistema online podem abastecer — geralmente após horas de espera.

Dados recentes mostram uma forte quebra no tráfego de internet em Cuba, devido à crise energética, segundo Doug Madory, diretor de análise na empresa de monitorização de redes Kentik. “Na medição mais recente, Cuba está apenas com um terço do volume normal de tráfego para esta hora do dia”, afirmou à CNN.

Companhias aéreas de vários países cancelaram voos para Cuba devido à escassez de combustível de aviação e a outras incertezas. A American Airlines, a Delta e a JetBlue suspenderam operações para a ilha.

A maior companhia aérea do Canadá, a Air Canada, anunciou no mês passado que iria suspender voos para Cuba devido à falta de combustível de aviação. A interrupção deverá manter-se até 1 de novembro.

Na semana passada, Trump afirmou que Cuba está em “grandes dificuldades” e que os Estados Unidos podem, ou não, fazer parte de uma “tomada amigável” do país. “Estão reduzidos ao mínimo”, disse.

Um homem caminha enquanto carros circulam numa rua durante um apagão em Havana, a 16 de março de 2026. (Yamil Lage/AFP/Getty Images)

Os Estados Unidos interromperam o fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba depois de terem afastado do poder o presidente daquele país no início de janeiro.

Mais tarde, ameaçaram impor tarifas a outros países que exportem petróleo para Cuba, alegando que Havana representa uma “ameaça extraordinária” ao alinhar-se com “países hostis e atores malignos” e ao acolher capacidades militares e de inteligência desses países.

Cuba rejeitou estas acusações e apelou aos Estados Unidos para aliviarem a sua campanha de pressão.

*Billy Stockwell e Donald Judd contribuíram para este artigo

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