Armados com espingardas e cocktails molotov, saíram dos EUA para atacar Cuba. Eis o que se passou

CNN , Kara Fox, Caroll Alvarado e Ruben Correa
26 fev, 20:02
Pessoas caminham pela rua com graffitis que comemoram o 68.º aniversário do ataque de Fidel e Raúl Castro ao quartel militar de Moncada, em Havana, Cuba (AP Photo/Eliana Aponte)

Quando viram uma lancha a chegar com tiros, as autoridades cubanas abriram fogo e mataram quatro pessoas

As forças cubanas mataram a tiro quatro pessoas a bordo de uma lancha registada na Florida, que tentava entrar em águas cubanas esta quarta-feira e "infiltrar-se" na ilha, disseram as autoridades.

O tiroteio ocorre no meio de crescentes tensões entre Cuba e os Estados Unidos, que abriram investigações sobre o incidente.

À medida que mais detalhes sobre o tiroteio fatal continuam a surgir, eis o que sabemos até agora.

O que aconteceu?

As tropas da guarda costeira cubana abordaram a embarcação depois de esta ter entrado nas águas territoriais do país em Falcones Cay, na província de Villa Clara, a pouco mais de 160 quilómetros da Florida, informou o Ministério do Interior de Cuba em comunicado.

Um passageiro a bordo da lancha disparou contra a embarcação de patrulha cubana, ferindo o seu comandante e levando as forças cubanas a ripostar, refere o comunicado.

Quatro pessoas na lancha foram mortas e outras seis ficaram feridas, informou o comunicado. Os sobreviventes estão sob custódia e a receber cuidados médicos.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou posteriormente que os passageiros eram cubanos residentes nos EUA, armados com espingardas de assalto, pistolas e cocktails molotov, e que pretendiam realizar uma “infiltração com fins terroristas”.

Além disso, um outro indivíduo, alegadamente enviado dos Estados Unidos para ajudar a facilitar a operação, foi detido e confessou o crime, segundo o ministério. A CNN contactou a Casa Branca para obter uma posição.

A embarcação, registada nos EUA como FL7726SH, de acordo com as autoridades cubanas, é uma lancha de 7,3 metros fabricada em 1981, segundo os registos da base de dados marítima.

O local do tiroteio, junto a Falcones Cay, é conhecido pelas suas águas pouco profundas, bancos de areia e praias. Historicamente, tem sido uma rota para os migrantes cubanos que tentam a perigosa travessia para a Florida.

Quem estava envolvido?

As autoridades cubanas divulgaram os nomes de sete dos dez passageiros do barco.

Dois dos sobreviventes já eram procurados por Cuba por terrorismo, segundo o Ministério do Interior.

Um dos homens que o governo cubano disse ter sido detido parece ter partilhado anteriormente o que aparenta ser uma declaração de um ataque iminente. Numa publicação no Facebook, um indivíduo que se identificou como Amijail Sánchez González republicou um documento assinado a 31 de janeiro por quatro grupos antigovernamentais que prometiam tomar medidas “iminentes” e “decisivas”.

No início deste mês, o mesmo indivíduo publicou um vídeo a dizer que, se fosse ferido em qualquer ação, provavelmente morreria, referindo que estava a tomar anticoagulantes.

Michael J. Bustamante, professor de estudos cubanos na Universidade de Miami, explica à CNN que as organizações alegadamente ligadas ao incidente “podem ser conhecidas em certos círculos da diáspora cubana/exilados na internet, mas são grupos marginais que provavelmente não têm ligações diretas com líderes políticos cubano-americanos mais tradicionais”.

Embora o incidente desta quarta-feira não pareça ter sido bem planeado, Bustamante afirma que “remete para uma longa história de organização clandestina e militância de exilados cubanos que remonta às décadas de 1960 e 70 - com ou sem apoio dos EUA, e por vezes em aberta afronta ao governo americano”.

“Uma questão que se mantém é se as autoridades norte-americanas (como o FBI) ​​tinham conhecimento desta organização e das suas atividades”, acrescenta.

O Governo cubano identificou ainda Conrado Galindo Sariol como um dos homens a bordo do barco.

O filho de Galindo, Norge Evelio Galindo, tinha sido detido em Cuba pela sua participação nos protestos antigovernamentais de 11 de julho de 2021 e foi libertado em fevereiro de 2024, de acordo com uma publicação feita por Galindo no Facebook.

“Estou orgulhoso do que o meu pai acabou de fazer”, garantiu Norge à CNN já esta quinta-feira. “Não esperava nada menos dele.”

“Embora não soubesse o que ele estava a fazer, sempre soube que, se a oportunidade surgisse, ele não a deixaria passar”, acrescentou Norge. A viver agora no México, já falou com familiares em Cuba e com a mulher do pai nos Estados Unidos sobre as suas ações.

“Todos estão perplexos porque não estavam à espera disto”, frisou, referindo que o seu pai não regressava a Cuba há 10 anos.

Em 2024, a CNN também falou com Galindo sobre a detenção do filho. O primo de Galindo disse à CNN esta quinta-feira que Galindo também já tinha sido preso por “discordar daquele maldito governo e sistema”.

“O que sei sobre ele é que vive na Florida e, como quase todos os cubanos que emigraram para esta grande nação, não concordamos com a ditadura que existe no nosso país, Cuba, uma ditadura que está no poder há 67 anos, oprimindo o povo e com uma Cuba em miséria e destruição”, disse Leonardo Galindo.

“Mas não imaginava que ele e outros compatriotas estariam nesta viagem a Cuba”, acrescentou o primo.

Embora alguns exilados cubanos anti-governamentais que vivem nos EUA possam saudar os grupos alegadamente envolvidos no incidente desta quarta-feira como “heróis ou mártires”, não são bem conhecidos nem têm apoio dentro de Cuba, diz Helen Yaffe, professora de economia política latino-americana na Universidade de Glasgow e especialista em Cuba.

O que disseram os EUA?

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, classificou o incidente como "altamente invulgar", confirmando que a lancha não transportava pessoal do governo norte-americano e não fazia parte de nenhuma operação oficial.

"Vamos descobrir exatamente o que aconteceu e, depois, responderemos em conformidade", disse Rubio, que estava na região em visita oficial a São Cristóvão e Névis.

Rubio acrescentou que a Embaixada dos EUA em Havana, o Departamento de Segurança Interna e a Guarda Costeira dos EUA estão a investigar o incidente, sublinhando que as autoridades precisam de apurar os factos antes de tomar qualquer medida.

Entretanto, as autoridades da Florida, incluindo o procurador-geral James Uthmeier e os legisladores republicanos Carlos A. Gimenez e Rick Scott, exigiram responsabilização e uma investigação completa sobre o uso de força letal contra indivíduos a bordo de uma embarcação registada nos EUA.

Porque é que as tensões estão tão altas?

O incidente ocorreu no meio de tensões crescentes entre Havana e Washington, que impôs sanções e restrições às exportações de petróleo da Venezuela, o principal fornecedor de Cuba. Após a captura, em janeiro, do líder venezuelano e aliado cubano Nicolás Maduro pelos EUA - operação na qual foram mortos 32 militares cubanos que faziam a segurança de Maduro -, a administração do presidente norte-americano Donald Trump virou as suas atenções para Cuba, bloqueando todas as entregas de petróleo à ilha e falando em mudança de regime.

O bloqueio deixou a economia cubana em frangalhos, com a nação caribeana a viver o seu pior período de incerteza económica em décadas, e as Nações Unidas a alertar para um potencial “colapso” humanitário.

Os EUA aliviaram ligeiramente o embargo esta quarta-feira, anunciando que iriam conceder licenças a entidades privadas cubanas interessadas em revender petróleo da Venezuela.

Isso já aconteceu antes?

Em 2022, o Ministério do Interior em Havana afirmou que Cuba intercetou 13 lanchas rápidas americanas com 23 tripulantes, acusados ​​de “realizar operações de tráfico humano”, levando pessoas da ilha para os EUA.

O tiroteio fatal ocorreu também apenas um dia após o 30.º aniversário do abate, pelas Forças Armadas cubanas, de dois aviões pertencentes à organização humanitária cubano-americana Irmãos ao Resgate, sobre as águas a norte de Havana. Quatro pessoas morreram no incidente.

No início deste mês, Trump prorrogou uma medida de emergência da era Clinton, decretada depois de Cuba ter abatido os aviões, que permite às autoridades norte-americanas abordar qualquer embarcação que se dirija para Cuba.

Mauricio Torres, Hira Humayun, Lex Harvey, German Padinger, Jack Guy, Max Saltman, Patrick Oppmann e Jennifer Hansler, da CNN, contribuíram para esta reportagem

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