Trump quer oferecer a Cuba uma “grande vida nova”. Mas a ilha rebelde não é a Venezuela. E os EUA não são omnipotentes. A pressão pode abrir portas. Mas também pode fechá-las
A política externa americana está deslumbrada pela sua própria narrativa. A captura de Nicolás Maduro a 3 de janeiro ofereceu uma imagem de força hemisférica incontestada. O ataque ao Irão na manhã do dia 28 de fevereiro, juntamente com Israel, confirmou que Donald Trump quer tornar a transição de regime grande outra vez, apesar de não saber para quê e confundir a realidade venezuelana com a iraniana: o neto de Raúl Castro não é uma Delcy Rodríguez, nem o aparelho do regime dos aiatolas se assemelha ao do chavismo.
Em Miami, sobretudo em Little Havana, circula cada vez com mais força a possibilidade da queda do castrismo. Se Caracas caiu, porque não Havana? Se Maduro foi capturado e Ali Khamenei assassinado, não poderá o próximo ser Miguel Díaz-Canel? Se o dominó começou a cair, porque não acreditar que a próxima peça do tabuleiro latino-americano seja a cubana? Cuba também não é a Venezuela. E a história raramente se repete, como muitos desejariam. Mas será hoje impensável que Trump decapite três Estados em três meses?
A Venezuela de Nicolás Maduro assentava numa economia rentista devastada, num aparelho militar fragmentado e numa dependência quase absoluta de uma elite que, como ficou comprovado, trocaria a lealdade pelos rendimentos do petróleo. Cuba tem outra arquitetura. O poder está ancorado num partido único com quase sete décadas de consolidação institucional, numa burocracia que se confunde com o Estado e num aparelho de segurança doutrinado desde a sua criação. Não existe um equivalente funcional a um caudilho isolável cuja remoção desencadeie reconfigurações imediatas. O regime é mais coral, mais opaco, mais resiliente.
Isto não significa que seja forte. Pelo contrário. A ilha atravessa a pior crise desde o Período Especial – a década de colapso económico que se seguiu ao desaparecimento do bloco soviético. O PIB permanece abaixo dos níveis pré-pandemia, o turismo não recuperou, os apagões tornaram-se rotina e o petróleo venezuelano, outrora tábua de salvação, evaporou-se. A economia vive num estado de pressão, com racionamento e fuga demográfica – perto de um quarto da população em quatro anos. O regime mantém-se, mas governa uma sociedade exausta.
É aqui que Marco Rubio – e o seu Presidente – pressentem a oportunidade. A energia é o ponto de estrangulamento. Rubio, que acumula responsabilidades na política externa norte-americana raras desde os tempos de Kissinger, ensaia uma reafirmação da primazia americana no hemisfério. A lógica é transparente. Cortar fluxos petrolíferos e ameaçar fornecedores como o México com tarifas, elevando o custo de sobrevivência do regime até que Havana suplique por um acordo. Rever o acordo firmado por Obama em 2014, obtendo concessões tangíveis, onde antes houve uma normalização simbólica, e afastar a Rússia e a China do hemisfério.
No papel, a coerção energética pode funcionar. Na prática, tem limites políticos, jurídicos e estratégicos. O primeiro é interno. Trump não governa num vazio institucional, por muito que gostasse. Os tribunais federais, a opinião pública e até sectores do seu próprio campo político impõem constrangimentos reais, contrariamente ao Congresso. A ala MAGA olhará com desconfiança para qualquer aventura externa que possa degenerar num conflito prolongado – uma eventual guerra à porta de casa seria tudo menos bem vista, apesar do apoio no Irão.
O segundo é humanitário e, por extensão, migratório. Um estrangulamento energético total pode precipitar um colapso de serviços básicos e gerar uma nova vaga marítima rumo à Flórida. O precedente dos anos noventa já foi invocado. Uma crise humanitária em Cuba não é um evento distante. É um fenómeno que atracaria nas praias americanas e entraria no ciclo político doméstico em ano de eleições intercalares. A pressão máxima pode produzir exatamente o tipo de instabilidade que Washington diz querer evitar.
O terceiro é geopolítico. A Rússia e a China não competem com os Estados Unidos em termos de proximidade económica ou vantagem comparativa na ilha, mas exploram vazios estratégicos. Empurrar Havana para um beco sem saída pode aprofundar dependências que a Casa Branca preferiria reduzir. A coerção, quando absoluta, elimina incentivos à negociação ou moderação, como Donald Trump já devia ter percebido com o episódio da Gronelândia.
Nada disto absolve o regime cubano. Dos irmãos Castro a Miguel Díaz-Canel, o regime acumulou décadas de má gestão, centralismo ideológico e repressão, que criaram uma economia disfuncional e uma sociedade sem horizonte. A ortodoxia revolucionária foi paga por sucessivas gerações que nunca escolheram o modelo que as governa. É mais do que tempo de os cubanos deixarem de suportar o custo de uma narrativa histórica que não produz prosperidade nem autonomia. A libertação de presos políticos e a abertura ao setor privado não são concessões a Washington. São condições mínimas de viabilidade nacional.
Contudo, a mudança sustentável raramente nasce da humilhação externa. O regime pode ceder em matérias económicas e de segurança. Mas dificilmente abdicará do controlo político como preço de sobrevivência. Não existe – ainda – uma Delcy Rodríguez. A linha vermelha é clara desde 1961, quando o regime cubano garantiu que o modelo revolucionário não era negociável. Mas o que poderá então ser negociável entre Havana e Washington?
O “Presidente da Paz” pode explorar a vantagem competitiva americana no comércio, no turismo e no investimento. Pode até extrair acordos sectoriais relevantes, assentes numa abertura económica a empresas norte-americanas, na limitação da cooperação militar com Rússia e China e em compensações por propriedades confiscadas a empresas dos Estados Unidos e a cubano-americanos após a revolução. O que será mais difícil será reproduzir em Havana o guião venezuelano. Regimes distintos não respondem necessariamente a estímulos idênticos.
Mas quanto mais alto é o tom, menor é o espaço para recuar. A retórica cria expectativas entre exilados e eleitores. A euforia de Little Havana convive com uma memória longa de promessas falhadas que Rubio tem presente, tanto familiarmente como politicamente.
Cuba não é a Venezuela. E os EUA, apesar do seu poder incomparável no hemisfério, não são omnipotentes, como revelam já as primeiras reações externas. O México suspendeu as exportações de petróleo face às ameaças tarifárias de Washington, mas enviou ajuda humanitária. O Chile anunciou assistência e criticou as sanções. A Rússia admite continuar a fornecer combustível apesar da pressão americana. A China condenou as restrições e já anunciou o envio de ajuda humanitária, mostrando que o cerco a Havana ainda não é absoluto. A pressão americana parece atingir sobretudo a população e não o aparelho político. A médio prazo, poderá estar a acelerar uma mutação estrutural – investimento em painéis solares chineses – que reduza precisamente a vulnerabilidade energética que Washington procura explorar.
A pressão pode abrir portas. Também pode fechá-las. Entre o colapso e a transição existe uma zona cinzenta de declínio prolongado onde os regimes sobrevivem, as populações resistem e as potências descobrem que mesmo a força tem limites. É neste território incerto que se inscrevem as declarações de Mike Hammer, enviado especial do Presidente dos Estados Unidos, que garantiu que Washington está em conversações com altos responsáveis cubanos para provocar uma mudança política no país ainda em 2026.
Poderá mesmo haver uma “aquisição amigável”, como sugeriu Donald Trump, que garantiu numa cimeira em Miami com presidentes da direita latino-americana estar a negociar com o regime cubano e que o país poderá entrar numa “grande vida nova”.
Mas a maioria dos cubanos dificilmente apreciará o que essa vida poderá trazer. Segundo a USA Today, não estará em causa uma transição democrática, o desaparecimento dos Castro ou o fim de um regime que se prolonga há quase setenta anos. Apenas a saída de Miguel Díaz-Canel – que confirmou as “negociações” em curso – e uma série de acordos sobre portos, energia e turismo, com a possibilidade remota do levantamento de sanções. Como alternativa, continuará certamente em cima da mesa mais uma decapitação de um chefe de Estado.
Cuba está encurralada. Mas, como tantas vezes na história da ilha, também está a adaptar-se. Entre sanções, escassez e improvisação energética, um regime inoperante procura sobreviver enquanto a sociedade aprende novamente a resistir. O futuro continua suspenso entre o colapso e a transformação. Ainda assim, para muitos exilados, talvez esteja finalmente a chegar o momento de abandonar o velho refrão repetido todas as passagens de ano em Miami, num momento em que Trump garante que “terá a honra de tomar Cuba”.
Talvez seja mesmo, este ano, em Havana.
