E mais importante do que a comida para estas pessoas é "o acesso à água limpa" - ou à falta dele (do acesso) e dela (da água). Retrato de um país (ou de um Estado ou de ambos) que vive em "período medieval". Chama-se Cuba - ou chama-se "a próxima Venezuela"?
"Estamos a assistir, em pleno século XXI, ao quase esfomear de uma ilha inteira por uma questão política": Miguel Baumgartner faz esta observação diante de uma Cuba que volta a aproximar-se do seu ponto de rutura, não por um acontecimento isolado mas por uma escassez que vai desligando o país ano após ano - e que "vai criar ainda piores fissuras entre o país, os Estados Unidos e o resto do mundo", sublinha o comentador da CNN Portugal.
"Os cubanos andam a viver muito mal. Às vezes recebíamos informações de turistas que lá iam e diziam-nos que as pessoas que trabalhavam nos hotéis, por exemplo, já não pediam dinheiro, algumas já só pediam bolachas e chocolates. Os turistas levavam tudo e eram uma forma de ter acesso a produtos alimentares, sobretudo os que continham açúcares e davam energia."
Mas as consequências da suspensão norte-americana às entregas de petróleo da Venezuela a outros países batem agora onde dói mais: na entrada de divisas - muitas delas provenientes do turismo e necessárias para importar praticamente tudo - e na capacidade de o Estado garantir mínimos essenciais.
"Estamos realmente a falar de um isolamento", afirma Daniela Mello, que compara a situação em Cuba ao "período medieval, quando as tropas rodeavam uma cidade e ficavam simplesmente à espera de que acabasse a comida". E mais importante do que a comida em Cuba, alerta a especialista em política norte-americana, é "o acesso à água limpa". "Cortando o acesso ao petróleo, cortam a capacidade energética do país e cortam também a capacidade de fornecimento de água potável".
No início de fevereiro, Donald Trump ameaçou aplicar tarifas sobre qualquer país que enviasse petróleo para Cuba, exercendo pressão sobre o México, o seu maior fornecedor deste recurso. A ilha localizada no mar do Caribe avisou também as companhias aéreas de que estaria a ficar sem jet fuel (combustível de aviação), levando a Air Canada, a WestJet e transportadoras russas a suspenderem voos, bem como grupos hoteleiros a fecharem unidades ou a concentrarem operações, em plena época alta.
Para Miguel Baumgartner, este é o momento em que a discussão deixa de ser apenas geopolítica e passa a ter um custo humano difícil de ignorar pela comunidade internacional, porque quando se corta o combustível não se cortam apenas os bens essenciais e o turismo, cortam-se o comércio, os transportes, a recolha de lixo e a resposta dos serviços públicos, como hospitais.
"Antes de qualquer tipo de ação que possa pôr em causa a vida das populações, a comunidade internacional tem de se adiantar de alguma forma e fazer com que os Estados Unidos entendam que as instituições do Direito Internacional têm de ser respeitadas." O problema, sublinha o comentador, é que "isso poderá não ser possível", uma vez que "a Europa foge, como o diabo foge da cruz, de também se impor como uma potência forte da defesa dos direitos humanos e das garantias".
Daniela Mello acrescenta que, além do impacto imediato no quotidiano, há uma diferença estrutural face a crises anteriores: "É mais complicado conseguir arranjar um parceiro internacional que esteja disposto a furar o bloqueio americano". No passado, recorda, "as soluções passaram por encontrar novos mercados e novos parceiros" e por trocas como as estabelecidas com a Venezuela. "Cuba não recebia o petróleo de graça, enviava médicos para a Venezuela e em troca recebia petróleo". Agora, conclui, "o país está mais isolado do que alguma vez esteve" e "não há uma exit ramp", uma rampa de saída óbvia.
Por outro lado, a especialista acredita que a estratégia norte-americana tem um limite político, no sentido em que "nenhuma administração quer ser responsável pela morte de civis" e "nenhuma administração americana, seja ela democrata ou republicana, sente-se muito feliz com a entrada dos chineses e dos russos na América Central", o que torna o jogo de alianças mais delicado e mais difícil para Cuba.
Levanta ainda a possibilidade de "um corte total e absoluto" ter "exatamente o efeito oposto". Ou seja, "o regime cai mas o próximo governo pode não ter uma visão tão favorável aos Estados Unidos". Para Daniela Mello, Washington não quer correr o risco de um novo líder ser capaz de repetir o que Fidel Castro outrora conseguiu: "Apontar o dedo e dizer 'estamos outra vez a ser colonizados pelos Estados Unidos'".
"Não é uma crise de falta de petróleo, é de modelo económico"
Rodolfo Bendoyro, professor universitário e luso-cubano, pede que o ponto de partida seja outro: "É importante salientar que esta crise já existia antes deste bloqueio de combustíveis". Em declarações à CNN Portugal, entende que a escassez energética agrava mas não explica tudo, argumentando que "a principal causa desta crise são as políticas económicas do regime". "Não é uma crise de falta de petróleo, é de modelo económico", sintetiza.
A descrição que faz da vida quotidiana em Cuba é de um país em estado de falência crónica. "Há dois meses já havia apagões de mais de 24 horas em Havana. A água não vai todos os dias para casa, é possível estar dois ou três dias sem água em casa". Conta também que, através do sistema de racionamento - a "Libreta de Abastecimiento" -, um amigo "recebeu agora em fevereiro o arroz de junho" e acrescenta que o que chega "é mínimo": "Um frango para toda uma família por mês". Já no campo da saúde, dá conta de casos de pessoas que morreram com "infeções básicas e tratáveis com antibióticos", devido à falta de medicamentos.
Em suma, "a situação é tão crítica que muitos cubanos estão dispostos a aceitar os riscos de uma intervenção norte-americana". Embora não deixe de considerar que "as intenções dos Estados Unidos foram historicamente contra a soberania de Cuba", Rodolfo Bendoyro reitera que "as pessoas estão fartas e dispostas a assumir os riscos".
Uma moeda inventada
Rodolfo Bendoyro identifica uma rutura de confiança durante a pandemia como ponto de não retorno: "Eles queixam-se dos Estados Unidos, mas eles próprios também são um obstáculo". Antes da covid-19, explica, “tinham sido feitas algumas reformas económicas e surgido uma série de negócios”, com cubanos emigrados a investirem no país – ainda que de forma ilegal. Acusa, contudo, o regime de ter imposto uma taxa de câmbio “irreal” e forçada que destruiu poupanças. “As pessoas tinham dinheiro em divisas e basicamente roubaram -lhes esse dinheiro.”
A partir daí, descreve um país onde até as remessas familiares deixam de funcionar como rede de segurança e onde o Estado se torna ele próprio um obstáculo ao dinheiro que vem de fora. “Eu tenho de enviar o dinheiro para a minha família numa moeda virtual que eles inventaram, que se chama MLC, Moneda Libremente Convertible, e depois decidem qual é a taxa de câmbio”. Mas, segundo Rodolfo Bendoyro, essa moeda apenas pode ser usada em circuitos controlados: “Em determinadas lojas, aos preços que eles quiserem”. “É um roubo por todos os lados”, insiste. “Eles ficam com o dinheiro, dão uma moeda, mas são notas de Monopólio.”
Resultado: “Perderam a credibilidade”, não só junto de estrangeiros mas “dos próprios cubanos que tinham investido”. “As pessoas já nem remessas pretendem enviar, agora até usam mulas, mas em vez de ser para tráfico de droga é para enviar dinheiro à família, porque nem sequer confiam nos bancos cubanos ou no regime para isso.”
"A bem ou a mal", o regime pode cair este ano
A Rússia juntou-se esta semana à lista de países que se disponibilizaram para ajudar. E nessa lista encontra-se também a China, que entregou 60 mil toneladas de arroz e prometeu fornecer "apoio e assistência da melhor forma possível". Ainda que chegue ajuda pontual à ilha, Rodolfo Bendoyro não considera suficiente para "salvá-la", argumentando que "não é um carregamento nem um barco nem dois barcos que vão resolver a crise". Mas também manifesta as suas dúvidas em relação às intenções dos dois países. "A China não vai arriscar levar tarifas superiores por causa de Cuba e a Rússia já tem um sério problema com a guerra da Ucrânia." Antevê por isso "muita conversa de corredores, muita diplomacia", mas "na prática ninguém vai enviar nada".
E se ninguém ajudar? Daniela Mello prevê uma aposta no "choque" por parte dos norte-americanos, causando "o maior sofrimento, o mais rápido possível, ao regime, o que também poderá levar ao seu colapso". Já Rodolfo Bendoyro vai mais longe na previsão: "As informações que eu recebi de pessoas ligadas à Embaixada de Cuba e à cúpula norte-americana são de que o compromisso de Donald Trump e Marco Rubio é terminar com o regime este ano, a bem ou a mal".
Miguel Baumgartner, por sua vez, corrobora os rumores: "Depois da Venezuela é Cuba, ainda vai ser este ano e o espaço mais próximo das eleições intercalares vai ser usado para fazer estas coisas", para "mostrar que Trump é o presidente que consegue fazer a paz".