Houve casos recentes e altamente contagiosos de norovírus no alto mar, segundo os dados dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA
A indústria dos navios de cruzeiro continua a crescer. Os barcos estão cada vez maiores e mais ousados. Há 37,1 milhões de passageiros prontos para entrar a bordo em 2025, segundo a Cruise Lines International Association (CLIA), associação que representa as empresas deste setor.
Contudo, há outra estatística do mundo dos cruzeiros que está a crescer. E não é propriamente uma boa notícia: os dados mais recentes dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, na sigla inglesa) sugerem que 2024 foi o pior ano em mais de uma década para surtos gastrointestinais em navios de cruzeiro.
Norovírus no mar
Os dados dos CDC sugerem que a maioria dos surtos gastrointestinais em alto mar em 2024 esteve associada a um norovírus que é altamente contagioso. Só em dezembro passado, cinco navios de cruzeiro foram atingidos por este vírus, que causa cólicas e vómitos. Centenas de passageiros reportaram sintomas em navios da Cunard Line, da Holland America e da Princess Cruises. Quando um surto é identificado nos dados dos CDC, tal significa que pelo menos 3% dos passageiros e da tripulação dos navios reportaram sintomas gastrointestinais à equipa médica.
O norovírus sempre esteve associado aos navios de cruzeiro. William Schaffner, especialista em doenças infeciosas e professor na Vanderbilt University Medical Center, nota que o norovírus é “obviamente conhecido como o vírus dos navios de cruzeiro”.
O norovírus é contagioso e, por isso, o facto de as pessoas viverem em espaços confinados num navio pode ser algo mais propenso à disseminação da doença.
“Este é um vírus que pode infetar-nos com muito poucas partículas virais.Por outras palavras, a dose infeciosa é muito pequena”, diz Schaffner à CNN Travel. “O vírus pode manter-se durante dias, ou até mesmo durante uma semana, em superfícies. Isso significa que, se colocarmos os nossos dedos numa superfície contaminada, podemos transportar algumas partículas virais, que podem tocar na nossa boca e iniciar uma infeção”.
O norovírus tende a atingir o seu pico durante os meses de inverno. “Essa ocorrência sazonal do norovírus tem diferentes intensidades”, explica.
Segundo Schaffner, nesta temporada de inverno, a ocorrência está a ser “mais severa” do que o normal, tanto em terra como no mar. O especialista acrescenta que tal poderá ajudar a explicar os dados dos CDC relativos a dezembro de 2024.
Os CDC também referem que “os surtos são identificados e reportados mais rapidamente num navio do que em terra”, graças aos protocolos que existem.
Em média, todos os anos, são registados entre 19 a 21 milhões de casos de norovírus só nos Estados Unidos da América, de acordo com os CDC.
Embora o norovírus domine os dados de 2024 dos CDC, há a destacar um surto gastrointestinal a bordo do Radiance of the Seas da Royal Caribbean à custa de uma intoxicação alimentar por salmonela.
Já o surto registado a bordo do Silver Nova da Silversea Cruises, na primavera, foi causado por E.coli. Por sua vez, a causa da doença gastrointestinal no cruzeiro Allure of the Seas da Royal Caribbean, em maio, permanece desconhecida.
Trajetória ascendente
Os CDC sugerem que ainda é cedo para julgar se o aumento dos casos de doenças gastrointestinais reportadas nos navios de cruzeiro representa uma nova tendência neste setor (Soeren Stache/picture alliance/Getty Images/FILE)
Os CDC reportaram 16 surtos gastrointestinais em cruzeiros ao longo de 2024, o valor mais elevado e mais de uma década. Em 2023, houve 14 surtos reportados.
Em entrevista à CNN Travel, um porta-voz dos CDC reconhece que “embora 2023 e 2024 tenham registados mais surtos em navios de cruzeiro do que os anos anteriores à pandemia, ainda não é certo se tal representa uma nova tendência”.
Houve menos relatos entre 2020 e 2022, período durante o qual a indústria dos cruzeiros paralisou – recomeçando, depois, lentamente – devido à pandemia de covid-19. Em 2019, foram reportados 10 surtos, segundo dados dos CDC.
“As viagens em navios de cruzeiro durante a pandemia de covid-19 foram limitadas. Antes disso, reparávamos que a incidência de doenças gastrointestinais nos navios de cruzeiro estavam a diminuir, de 2006 a 2019”, refere o porta-voz dos CDC.
Os dados dos CDC cobrem apenas navios sob a jurisdição desta agência norte-americana – ou seja, a viagem deve incluir um porto dos Estados Unidos da América, um itinerário internacional e transportar pelo menos 13 passageiros.
Embora estes critérios cubram grande parte da frota mundial de navios de cruzeiro, não abrange todos os navios que navegam pelos oceanos do mundo.
Manter-se saudável a bordo
O porta-voz dos CDC recomenda que os passageiros que apresentem sintomas de viroses gastrointestinais contribuam para evitar a propagação da infeção, “reportando de imediato a sua doença, caso estejam doentes, e seguindo todas as recomendações da equipa médica”.
Os passageiros também são aconselhados a “lavar as mãos com frequência, especialmente depois de usarem a casa de banho e antes de comer ou beber”.
As empresas que operam navios de cruzeiro também se orgulham pelo facto de adotarem medidas para controlar eventuais surtos: desde a quarentena de passageiros e de tripulantes com sintomas, até ao aumento das ações de limpeza e desinfeção dos navios afetados.
William Schaffner, especialista em doenças infeciosas, avisa que, devido à natureza altamente infeciosa do norovírus, “é provável que ele ultrapasse todas essas barreiras” aplicadas pelas empresas de cruzeiros.
Schaffner acrescenta que os especialistas não conseguem prever se a recente onda de norovírus nos Estados Unidos da América terá continuidade ao longo de 2025, seja em terra ou no mar.
“Fico relutante em antecipar se esta onda que estamos a assistir agora se irá prolongar para a próxima temporada, ou se a próxima onda do vírus será novamente no inverno”, refere. “Acho que teremos de esperar, para avaliar caso a caso”.
No entretanto, há um conselho de Schaffner para os futuros passageiros de navios de cruzeiro: “em primeiro lugar, se estiver a sentir-se doente, fique em casa, reagende a viagem para outra altura”.
“Em segundo lugar, preste muita atenção a todas as instruções de higiene que vai receber no navio. Preste especial atenção à higiene das mãos”.
“Neste contexto, a água e o sabão são, na verdade, a melhor alternativa. São melhores do que lenços humedecidos ou loções antisséticas, uma vez que o norovírus não se deixa afetar muito pelo álcool presente nesses produtos”, conclui.
