opinião
Psicóloga e membro do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: é possível ensinar o cérebro a reagir menos intensamente a críticas?

4 jan, 10:00
O Psicólogo Responde: é possível ensinar o cérebro a reagir menos intensamente a críticas?

Ana Catarina Nunes da Silva,

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

Sim, é possível treinar o cérebro para reagir menos intensamente a críticas, embora não exista um “interruptor” que desligue essa sensibilidade. O que acontece, em geral, é que a crítica pode ser interpretada pelo cérebro como uma ameaça: algo em si sente que o seu valor, a sua competência ou a possibilidade de ser aceite estão em risco. Áreas ligadas ao sistema de ameaça são ativadas rapidamente, o corpo reage (coração acelera, músculos contraem-se) e a mente começa a produzir pensamentos automáticos do tipo “sou incompetente”, “vão rejeitar-me”, “não presto”. Com o tempo, estas associações vão-se tornando uma espécie de caminho automático, em que um feedback pode ser interpretado como uma crítica que pode levar a sentimentos de vergonha, zanga, necessidade de se defender…

Aceitar uma crítica significa também ter uma boa autoestima. A sensibilidade à crítica tem, muitas vezes, por trás, uma voz critica interna, que concorda ou se sente vulnerabilizada pela crítica.

“Ensinar” o cérebro significa ir alterando não só os automatismos, mas também trabalhar a autoestima. Uma forma importante de o fazer passa por trabalhar a sua voz interna. Muitas vezes, a dor maior não vem da crítica em si, mas do que ela “prova” na sua cabeça. Em vez de “isto mostra que sou um(a) falhado(a)”, pode treinar-se a pensar “isto aponta para um ponto específico em que posso melhorar” ou “estão a comentar um aspecto do meu trabalho, não o meu valor como pessoa”. Este tipo de reformulação não é magia, é prática. Sempre que recebe uma crítica, pode distinguir o que foi dito da interpretação que a sua mente acrescentou e tentar construir uma leitura um pouco mais equilibrada. Ao repetir este exercício, o cérebro começa a propor espontaneamente interpretações menos catastróficas.

Outro eixo importante é a forma como fala consigo próprio(a) quando é criticado(a). Se a sua resposta interna é muito dura – insultos, vergonha ou autocritica – a crítica externa ganha uma força maior, podendo até ter um carácter destrutivo.

Uma crítica, ou autocrítica, é equilibrada por uma boa autoestima, ou seja, a crítica e a autocrítica necessitam de um terreno fértil para terem um cariz adaptativo. Práticas de auto-compaixão podem também ajudar: reconhecer internamente “isto doeu, é normal eu estar a sentir-me assim”, lembrar que quase todas as pessoas sofrem com críticas, e perguntar “o que eu diria a um amigo na mesma situação?” e tentar dizer isso a si mesmo(a). Mudar o tom interno não faz a crítica tornar-se agradável, mas reduz a intensidade emocional e diminui o tempo em que fica “preso(a)” nela.

Também é relevante o que faz com a tendência de evitar situações em que pode ser criticado(a). Quando evita sistematicamente pedidos de feedback, apresentações, partilhas ou desafios, o cérebro aprende que “crítica = perigo máximo” e a sensibilidade aumenta. Expor-se de forma gradual e controlada pode ser um treino importante: pedir feedback muito específico e limitado, começar por pessoas de confiança, escolher temas menos sensíveis, praticar ouvir até ao fim antes de se defender, e fazer pelo menos uma pergunta de clarificação em vez de reagir de imediato. A mensagem que o cérebro vai recebendo é: “isto é desconfortável, mas eu consigo aguentar”.

Ao mesmo tempo, trabalhar o corpo ajuda a regular a emoção. A reação à crítica não é só mental, é também física e emocional. Pequenas estratégias como abrandar a respiração (expirar mais devagar do que inspira), relaxar propositadamente ombros, maxilar e mãos, ou fazer uma breve pausa antes de responder, enviam sinais de segurança ao sistema nervoso. Isso não elimina o impacto do que foi dito, mas baixa o “volume” da resposta.

Por fim, quanto mais o seu sentido de valor estiver associado à ideia de ter de acertar sempre ou agradar a todos, mais devastadora será qualquer crítica. Fortalecer fontes de valor menos dependentes de desempenho (relações, valores, contributos, traços pessoais) e lembrar, de forma deliberada, que “posso ter feito isto mal” não é o mesmo que “eu sou mau/sem valor” cria uma base interna mais estável. Quando essa base é mais firme, a crítica deixa de ser um terramoto e passa a ser, na pior das hipóteses, um abalo incómodo, mas suportável.

Pequenas práticas regulares, como reformular pensamentos, falar consigo com mais cuidado, expor-se gradualmente a feedback e cuidar do corpo no momento da crítica – podem, com o tempo, ir ensinando o seu cérebro a reagir de forma menos intensa, menos automática e mais consciente. Se sentir que as críticas o deixam paralisado, a evitar muitas coisas importantes ou a reativar memórias antigas de humilhação, pode ser muito útil trabalhar isto em psicoterapia.

VEJA TAMBÉM:

Saúde Mental

Mais Saúde Mental