Entrevista: o Brasil já está a viver a sua “versão da invasão ao Capitólio” - e a culpa é das fake news

30 set, 22:00
Fake news

O semear da desconfiança nas instituições democráticas ao longo dos últimos quatro anos, a propagação de fake news e vários homicídios por motivações políticas abriram caminho para aquilo que a jornalista Cristina Tardáguila designa como a "versão brasileira da invasão ao Capitólio"

Cristina Tardáguila é jornalista e fundadora da Agência Lupa, uma agência de combate à desinformação através da verificação de factos e literacia para os media. Em entrevista à CNN Portugal, a jornalista explica como é que a propagação de fake news abriu caminho para a “versão brasileira da invasão ao Capitólio”, uma campanha coordenada pelo antigo presidente dos Estados Unidos da América (EUA) Donald Trump para negar o resultado das eleições presidenciais de 2020. 

Escreveu que já estamos a assistir à “versão brasileira da invasão ao Capitólio" nos EUA. A possibilidade de um ataque semelhante ao caso norte-americano tem sido colocada em cima da mesa por muitos analistas políticos, mas só depois das eleições e no caso de Bolsonaro sair derrotado. Mas o que nos diz é que isto já está a acontecer desde 2019, com o presidente brasileiro a semear a desconfiança em relação às instituições democráticas.

Quando comparamos a invasão do Capitólio ao que está a acontecer no Brasil, fica evidente que já estamos muito pior do que aquilo que despoletou o [ataque ao] Capitólio. A primeira vez que o presidente Donald Trump falou em fraude eleitoral foi seis meses antes da eleição de 2020, em abril desse ano. O presidente Bolsonaro, por outro lado, coloca as urnas sob suspeita desde o dia em que ganhou as eleições, em 2018. Ele tem vindo a dizer que deveria ter vencido a primeira volta nas eleições de 2018, e argumenta que só passou para a segunda volta por causa de uma fraude.

Num outro ponto, se compararmos o número de mortes por motivações políticas, no dia da invasão ao Capitólio morreram cinco pessoas. No Brasil, só neste ano, já morreram 26 pessoas por motivações políticas. Além do número de mortos, já perdemos a conta à quantidade de feridos. Estamos a falar de mortes muito violentas, com muita dose de ódio, como decapitações ou tiroteios em massa. Ou seja, não são crimes tipicamente orquestrados para ninguém descobrir, mas sim crimes cometidos para mostrar que a causa [em que acreditam] é maior.

Esses fatores permitem-me concluir que o Brasil não precisa ter eleição para já termos a nossa versão do [ataque ao] Capitólio. Ainda nem chegámos ao dia da eleição e já estamos a viver com medo, autocensurados - muitos brasileiros não colocam bandeira na janela, muita gente já não usa o amarelo nem o vermelho, cores que foram apropriados pelo bolsonarismo e pelo lulismo - e já existe um certo pânico na rua.

Além disso, no passado dia 7, dia em que se celebrou a independência do Brasil, todas as organizações governamentais trabalharam como se fosse o dia da eleição para testar o nível de preparação dos polícias, da justiça. Toda a gente utilizou o 7 de setembro como preparação para o que vai acontecer no dia 2 de outubro.

As eleições presidenciais de 2018 ficaram marcadas pela propagação de desinformação, sobretudo por parte de Jair Bolsonaro, motivo que leva muitos analistas a afirmar que o antigo militar venceu as eleições 'à boleia' das fake news. De que forma é que a partilha de desinformação pode influenciar estas eleições de 2022?

Posso parecer otimista, mas estamos muito melhores do que estávamos em 2018. Não é que haja menos desinformação, está tudo igual: a quantidade de mentiras, a quantidade de dados manipulados, a quantidade de estatísticas que não são respeitadas. O que mudou foi o contexto: em 2018, os brasileiros foram apanhados de surpresa, não entendiam muito bem o conceito de fake news. Quatro anos depois, estamos muito conscientes do que são as fake news. Isso é uma vacina - aprendemos que existe, então estamos mais atentos.

A justiça eleitoral brasileira também avançou com um enorme trabalho de luta contra a desinformação. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou um comité anti-desinformação e uma das coisas mais importantes que este comité fez - e que deve servir como referência para o mundo - foi convocar as plataformas para reuniões semanais com o objetivo de criar parcerias para combater a desinformação. Esta é uma diferença muito grande quando comparamos estas eleições com as de 2018.

Hoje também temos muitos mais fact checkers [verificadores de factos] do que em 2018, e a verificação de factos agora aparece na televisão e na rádio, ou seja, não está restrita à Internet, que era o mais comum em 2018. Para terem uma ideia, na campanha eleitoral de 2018, a Agência Lupa tinha 15 pessoas a trabalhar. Hoje, tem 31.

Por fim, a pandemia ensinou muito os brasileiros. A posição do Bolsonaro em relação à pandemia resultou em muitos milhares de mortes e as pessoas perceberam que se o presidente mente sobre a vacina, pode mentir sobre outras coisas. A pandemia foi prejudicial para a credibilidade do Bolsonaro, com impacto na campanha.

Nos primeiros dias da campanha eleitoral, partilhou um deep fake que circulava nas redes sociais e no qual muita gente acreditou. Trata-se de um vídeo manipulado que utilizou a imagem e a voz de uma pivô do Jornal Nacional para apresentar resultados de uma sondagem que mostrava que Bolsonaro estaria à frente de Lula. Este tipo de desinformação está a tornar-se mais perigoso e difícil de identificar?

Esse é exatamente o objetivo do deep fake: que não se perceba que é [um conteúdo] manipulado. Quem vê esse vídeo num ecrã do telemóvel não consegue ver que a imagem está distorcida, por exemplo. Esse deep fake é relativamente fácil de montar: consiste em inverter a ordem das palavras da apresentadora numa faixa de áudio. Quando surge o gráfico de barras, verificamos que as fotos de Lula e Bolsonaro foram trocadas, o que é muito fácil de fazer. Acredito que boa parte das pessoas acima da classe média brasileira conseguiria fazer algo semelhante.

O que é muito importante nesse caso é que usa a credibilidade do principal jornal televisivo do Brasil e a credibilidade da TV Globo, que é o principal canal de televisão do Brasil. Além disso, trata-se de um vídeo muito curto, de menos de um minuto, cujo arquivo não é pesado, logo não demora para fazer o download, e já foi criado para ser visualizado num ecrã do telemóvel.

Estes e outros deep fakes estão todos alinhados com a narrativa de que haverá fraude. Esse é que é o grande problema, porque leva a um aumento do número de pessoas que acredita que as urnas eletrónicas podem ser defraudadas. Logo, aumenta a desconfiança em torno dos resultados eleitorais.

É possível identificar quem está por detrás destas manipulações?

Não, esse vídeo em particular é nativo do WhatsApp, ou seja, ele não veio do Youtube nem do Tik Tok, etc., o que torna impossível puxar o fio de quem é que o publicou pela primeira vez num ambiente criptografado. O que pode ser feito - e que, aliás, já foi feito nalgumas plataformas - é eliminar o vídeo de origem, mas isso é um 'trabalho de formiga'.

Que técnicas podemos utilizar para identificar mais facilmente um conteúdo manipulado e falso?

A primeira dica é identificar a fonte, ou seja, questionar de onde vem o conteúdo, quem está a enviar a informação - um tio, um primo, um jornalista, um partido político. Depois questionar a data: a informação é de hoje? Dá para saber se é atual? Isto porque algumas sondagens de 2018 estão a circular como se fossem de agora.

Se for possível identificar uma fonte, conseguimos ir ao original e verificar. No caso deste deep fake, por exemplo, a fonte é o Jornal Nacional com dados do instituto de pesquisas IPEC, logo, conseguimos ir a essas duas fontes verificar a informação. Mas isso exige acesso à Internet, que não é comum no Brasil, além de que é necessária literacia para os media, ou seja, se formos verificar a informação e observarmos duas informações distintas, em qual vamos acreditar - na do vídeo que o meu amigo me enviou, ou na do Jornal Nacional?

Este trabalho de verificação dá muito trabalho, mas temos de perceber que não existe bala de prata para a desinformação, portanto cada um deve fazer o seu trabalho.

O povo brasileiro está mais atento à partilha da desinformação e faz esse trabalho de verificação dos factos?

Estamos muito melhores. A pandemia e a quantidade de mortos que lhe está associada mostrou o impacto da mentira. As pessoas questionaram: “como é possível dizer que não há covid se o meu tio morreu de covid?”, portanto a verificação de factos ficou muito fácil. A pandemia foi realmente importante para consciencializar o Brasil do impacto da mentira.

Depois, tivemos a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investigou o que o Governo deixou de fazer e como a mentira foi usada como arma política. Não diria que todo o brasileiro sabe fazer verificação de factos, não diria que todo o brasileiro saberia sequer identificar [desinformação], certamente muitos brasileiros nem se querem dar ao trabalho, mas hoje uma grande maioria sabe receber um conteúdo e ter sentido crítico sobre ele.

Podemos assumir, então, que o que muitos apontam como a razão que levou Bolsonaro a vencer as eleições de 2018 pode ser hoje o motivo pelo qual o presidente parece longe de conseguir ser reeleito?

Não tenho a menor dúvida de que o feitiço se vira contra o feiticeiro. O uso excessivo de desinformação pode ter representado o fim da reeleição de Bolsonaro. Talvez se tivesse sido um pouco mais realista, estivesse mais próximo disso. É algo para estudarmos daqui a 10 anos.

Relacionados

Brasil

Mais Brasil

Patrocinados