CRÓNICA || Ronaldo não é consensual - mas é quase. Ronaldo é paz. Ronaldo é cultura. Ronaldo é alegria. Ronaldo é ciência, é ideologia e é política (mas sem fronteiras geopolíticas). Ronaldo às vezes ainda é o menino chorão. Ronaldo é caliportuguês - isso, caliportuguês, não é engano nem gralha e tem explicação. Ronaldo fez de um imigrante um dos seus melhores amigos - que acontecimento exemplar nestes dias de intolerância. Ronaldo joga como um deus e comporta-se como um humano, o que faz dele ainda mais interessante. Não parece mas Ronaldo acaba de chegar aos 40 anos
Ronaldo não é nem o maior nem o melhor português de sempre, é outra coisa qualquer, é caliportuguês ou além-português ou até pós-português, porventura é essas coisas todas ou outras coisas semelhantes e derivadas - aquilo em que Ronaldo se tornou, como se tornou, como se manteve no que se tornou e como tornou isso cada vez maior a cada recorde que quebrou ou a cada recorde que criou, a maneira como Ronaldo se está a tornar outro Ronaldo qualquer que ainda não sabemos bem qual é mas que é um Ronaldo que será um ex-futebolista que vai ser dono de um clube enquanto já é dono ou acionista de negócios para implantar cabelo ou para vender porcelanas, tudo isto e tudo o que se quiser acrescentar a isso faz dele objeto de estudo, de inveja, de admiração, de crítica, de veneração, de escárnio, de bajulação, de carinho, de reprovação, de aplauso, de exigência, de aclamação, de maldizer, de bem-querer, Ronaldo é tão pujante e raro que desperta emocionalmente o que de mais implacável e reverencial há - por isso, à maneira dele, Ronaldo não é consensual. Mas é quase. Melhor assim, que a unanimidade é um tédio.
Ser dessa maneira que Ronaldo é tem consequências patrióticas: mais do que português, que ele é e dos mais ilustres de sempre, mais do que património de um país, e é orgulhosamente acompanhado dele que celebramos Ronaldo como infinitamente nosso, mais do que isso Ronaldo tornou-se um território - a República Portuguesa é menos conhecida e pronunciada na Terra que a República de Ronaldo, Ronaldo é geografia. Mas geografia sem fronteiras nem barreiras geopolíticas porque católicos e muçulmanos + brancos e negros + russos e ucranianos + palestinianos e israelitas + nortenhos e sulistas + elitistas e desgraçados + liberais e socialistas + etc. e etc., todos sabem o que Ronaldo significa e quase todos o admiram por isso, às vezes até o celebram juntos porque um golo de Ronaldo pelo Real Madrid ou pelo Manchester ou pela Juventus era suficientemente global para ser motivo de aplauso em Telavive e em Gaza, em Kiev e em Moscovo. A carreira de Ronaldo é uma bandeira planetária capaz de unir circunstancialmente em torno de um jogo dele quem está tão irremediavelmente distante antes e depois dos 90 minutos de futebol - por isso, e à sua maneira, Ronaldo também é paz.
Essa omnipresença além-portuguesa ou pós-portuguesa faz com que espanhóis queiram ser Ronaldo, com que brasileiros e norte-coreanos e sírios e afegãos e timorenses e mongóis e birmaneses e belizenhos e barbadianos e butaneses e guatemaltecos e madagascarenses e malaios e nicaraguenses e surinameses e tuvaluanos queiram ser Ronaldo, suíços e franceses idem, Mbappé quis ser Ronaldo e tinha posters dele no quarto, saiu-se bem; crianças em bairros de lata ou em vivendas com piscina querem ser Ronaldo, adolescentes que jogam descalços em pelados de África ou filhos de burgueses que jogam em relvados artificiais nas melhores cidades nórdicas querem ser Ronaldo, toda essa gente tão diferente de classes sociais tão distintas com possibilidades de vida tão díspares anseia ser Ronaldo, imitam até aquela forma erudita de festejar golos em que o barítono Ronaldo executa a ária “Siiiuuu” acompanhada de uma fusão de triplo salto com uma espécie de rond de jambe do ballet, o que lhe permite voar triunfalmente para depois aterrar como uma divindade sobre o relvado - por isso, e à sua maneira, Ronaldo também é cultura. E alegria, sobretudo isso.
E como qualquer divindade entre os mortais, Ronaldo é contaminado pelas fraquezas terrenas: Ronaldo amua quando não lhe passam a bola, esbraceja quando rematam em vez de o deixarem rematar, às vezes parece incomodado porque não foi ele a fazer o golo, Ronaldo é egoísta quando quer marcar os livres todos, cria tensão quando fica no banco, faz esgares quando é substituído, Ronaldo e nomeadamente a família dele reagem como se devesse ser punível com pena de prisão e perda de nacionalidade o ato de lhe censurar seja o que for, Ronaldo discute muito com Diogo Jota, num jogo em que Diogo Costa defende três penáltis Ronaldo está mais preocupado em explicar por que motivo falhou um em vez de estar eufórico por ter um guarda-redes daqueles, Ronaldo devia ter sido o primeiro a pedir para não jogar contra a Geórgia no Euro, Ronaldo faz-nos pensar mais frequentemente do que devia que a prioridade dele num jogo ou numa competição é marcar ou ser o melhor marcador e só depois a equipa vencer, Ronaldo é ocasionalmente tão imaturo em campo que nos torna igualmente imaturos e até injustos a avaliá-lo e a adjetivá-lo, Ronaldo às vezes irrita-nos demasiado por jogar como um deus e por se comportar como um humano - por isso, Ronaldo, cuja alcunha era “menino chorão” em criança, ainda é à sua maneira um adolescente. Nisso ele também não envelheceu.
Ronaldo nasceu numa família onde não se lia nem Enid Blyton nem Tolstói, cada família pobre é pobre à sua maneira e mais ainda num bairro humilde numa ilha distante da abundância continental; Ronaldo vestia-se mal porque não tinha dinheiro para se vestir como queria ou merecia, nem sequer dinheiro tinha para se alimentar devidamente, Ronaldo morava numa casa de blocos de madeira e tijolos sem pintura em que chapas de metal faziam de parede, Ronaldo foi até um acaso: Dolores Aveiro não planeou ter este quarto filho que se tornou um dos filhos mais notáveis de Portugal, um filho que sofria literalmente do coração - Ronaldo foi operado aos 15 anos para resolver uma arritmia e sob a ameaça de nunca mais poder jogar futebol depois da intervenção médica, sobre isso há esta declaração da mãe dele,
“Um telefonema de um médico do Sporting deixou-me gelada, as minhas pernas enfraqueceram - o meu filho tinha um problema. Disseram-me: ‘É muito cedo para um diagnóstico definitivo mas o seu filho pode não voltar a jogar futebol’”, contou Dolores Aveiro num livro com título valente, “Mãe Coragem”,
Ronaldo tinha tanto contra ele para não vir a ser Ronaldo mas triunfou à sua maneira, duas semanas depois da operação ao coração recomeçou a correr e tornou-se entretanto atleticamente notável, perfeito até - e manteve-se compulsivamente assim, o que faz dele caso de debate político-científico-ideológico:
- se formos obsessivamente empenhados, vencer é garantido?
- se formos profissionalmente obcecados, triunfar é inevitável?
- o mérito pessoal basta e tudo o resto é acessório?
- o impacto da sorte é sub ou sobrestimado?
- precisamos ou não de ter as pessoas adequadas a reparar no nosso talento ou isso é irrelevante?
- é preciso Estado para apoiar o que fazemos?
- é preciso genética?
- é preciso o quê?
- quem não tiver o talento bruto de Messi pode ter a carreira brutal de Ronaldo se trabalhar tanto como ele?
Ronaldo começou no Andorinha (Funchal), seguiu para o Nacional (também Funchal), os clubes pequenos precisavam e continuam a precisar de apoios para darem grandes contributos às vidas dos miúdos, Ronaldo foi entretanto dar ao Sporting, que tem uma academia exemplar - se tivesse ido dar à academia do Benfica, outra academia virtuosa, seria igual?, ou se fosse a do Braga, se Ronaldo tivesse ido parar ao Minho vibrante, este texto existiria? -, um dia o Manchester United, quando o Manchester United era bom a sério e não bom a fingir como agora, um dia esse Manchester United treinado por Alex Ferguson foi jogar ao que era naquele dia o novo estádio de Alvalade, foi um amigável de pré-época: Ronaldo adolescente e de dentes tortos fez àquela equipa do United o que a falta de um bom dentista fazia a Ronaldo, ficou tudo torcido naquela defesa inglesa diante da técnica e força daquele miúdo rebelde e corajoso que ia para cima deles sem deferência nem temor, agora imagine-se que em vez do United de Ferguson estava ali o Chievo de Luigi Delneri, especulemos: Ronaldo empenava o Chievo e Delneri levava Ronaldo para Itália, alguém ia querer saber hoje dos 40 anos de Ronaldo, o nosso Ronaldo que se chama dessa maneira porque o pai admirava Ronald Reagan? Portanto: Ronaldo é um estudo de caso sobre o liberalismo, sobre as condições do sucesso e respetivas fórmulas, sobre como um desporto com mais ou menos apoios do Estado para ajudar putos em meios desfavorecidos pode ou não ser um meio para haver mais ou menos Ronaldos na história de um país - e é assim que, à sua maneira, Ronaldo é política (até no nome), é assim que é ciência e ideologia.
E Ronaldo tem dinheiro, tanto que ninguém deve saber dizer por extenso quanto é; Ronaldo consegue tocar no céu, num jogo da Liga dos Campeões em 2012/13 saltou 2,93 metros; Ronaldo consegue planar, marcou uma vez à Sampdoria depois de ter estado 1,5 segundos suspenso no ar; além de milionário e voador joga em altitude, mede 187 centímetros e espanta pela definição muscular, tem corpo de estátua grega; dispõe de bom cabelo e melhorou os penteados, na vida romântica providenciou alguns mexericos: quando se pesquisa no Google “cristiano ronaldo girlfriends” aparece imediatamente uma tabela com resultados que variam a cada busca, às vezes são 10 outras vezes são mais, uma das pesquisas saiu assim,
Georgina Rodriguez / Kim Kardashian / Nereida Gallardo / Lucía Villalón / Imogen Thomas
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Irina Shayk / Paris Hilton / Bipasha Basu / Andressa Urach / Soraia Chaves,
o menino pobre tornou-se um homem abastado com namoradas influentes, mas dinheiro nenhum nos protege do pior horror e esse Ronaldo sabe qual é, assumiu-o assim em abril de 2022, “é com a mais profunda tristeza que comunicamos o falecimento do nosso bebé. É a maior dor que quaisquer pais podem sentir”, um dos dois gémeos que ia ter com Georgina Rodríguez morreu durante o parto. Ronaldo tem cinco filhos, dois com Georgina que não foram três devido àquela fatalidade súbita, os primeiros três filhos que teve foram através de gestação de substituição - que foi assunto de muito debate e especulação, tal como o foi - mas obviamente num enquadramento absolutamente distinto - a acusação de agressão sexual que o envolveu e a Kathryn Mayorga, sobre isso a CNN escreveu assim: “Mayorga exigiu ao jogador uma indemnização de cerca de 64,4 milhões de euros em 2021 pela ‘dor e sofrimento’ a que foi exposta no passado, assim como aquela a que será exposta no futuro. A exigência da ex-modelo surgiu depois de alegadamente ter assinado um acordo de sigilo extrajudicial, recebendo em troca cerca de 325 mil euros em 2010”. Por isso, e à sua maneira, Ronaldo controlou a vida que teve dentro do relvado e nem tanto fora dele, é dos poucos indícios da sua condição mortal.
Ronaldo nasceu às 10:20 de 5 de fevereiro de 1985, faz 40 anos, o tempo passou tão cruelmente por nós e tão serenamente por ele: enquanto nós engordamos e minguamos, enquanto perdemos cabelo e saúde, enquanto nos tornamos cínicos e endividados, enquanto familiares nos morrem e amigos nos desaparecem, enquanto isso Ronaldo tem aos 40 anos corpo de 20 e construiu um legado inédito no desporto português-mundial que é ainda um acervo extradesporto - Ronaldo é uma marca além de um território e de uma República, a constituição já ele tem naqueles músculos de mármore, mas: elogiá-lo não é um dever nem criticá-lo é ingratidão, a vida não é preto ou branco porque é no cinzento que a maioria se move, nem mesmo o melhor entre nós é o melhor de nós em todos os atos - e é por haver essas exceções em atos avulsos que sabemos quem é o excecional, que é Ronaldo, um caliportuguês: Camões é caliportuguês no sentido de belo português a impor-se num contexto sobrenatural de obras poéticas, Saramago é caliportuguês no sentido de belo português a impor-se num contexto global de prosadores, Fernando Pessoa é caliportuguês no sentido de belo-fulminante a descobrir novos caminhos linguísticos para o Português, a nossa seleção de andebol é caliportuguesa no sentido de belos portugueses a imporem-se inesperadamente nos nossos corações, há tantos caliportugueses na nossa História, Rosa Mota e Carlos Lopes e Fernanda Ribeiro e Sophia e Aristides e Eça e Amália e Carlos Paredes e Torga e Lobo Antunes e Variações e Paula Rego e Manoel de Oliveira e os Ornatos Violeta, cali do grego kallós exprime a ideia de belo, cali-Ronaldo.
E para quem diz “ah, sacrilégio, não comparem o Ronaldo com o Camões” porque Ronaldo é futebol e o futebol não é assim tão importante nem salva vidas como um médico, mas ai que salva-salva, o futebol salva ricos como o Kaká de se tornarem CEO indiferenciados como salvou pobres como o Ronaldo e o Pepe de ficarem impossibilitados da ascensão social - e que calirrelação construíram estes dois, que caliamizade, também nisto Ronaldo é bola de ouro: tornou o imigrante Pepe um dos seus melhores amigos, o imigrante Pepe que se tornou o português Pepe, português como Ronaldo e como o português que escreveu este texto e português como os portugueses que estão a ler isto, que caliexemplo de tolerância nestes dias de cacoexemplos de humanidade, caco do grego kakós exprime a ideia de mau-ruim enquanto cali-Ronaldo exprime a ideia do português que mais se impôs e mais continuamente à escala planetária.
Portanto - e repetindo: elogiar Ronaldo não é um dever nem criticá-lo é ingratidão. Portanto - e acrescentando: mas reconhecer que Ronaldo é o português mais globalmente reconhecido e atualmente mais inspirador é só justo e devido - isso não faz dele nem o maior nem o melhor português de sempre porque Ronaldo já está além disso: dizer que não há ninguém maior que um país é só não querer aceitar o verdadeiro tamanho dele. Que é o tamanho de um colosso: “Creio que sou o jogador mais completo que existiu. Sou o melhor jogador da História, não vi ninguém melhor do que eu”, disse Ronaldo na véspera de fazer 40 anos. Fica-lhe tão bem não fingir que é modesto.