CRÓNICA || O tempo que nos espera - de um Ronaldo retirado, multimilionário e inquieto - é ainda melhor. Por fim, pode brilhar em pleno o ícone que ele é e que o campeonato saudita nos está a roubar
Há quem lamente, talvez a começar pelo próprio, que o tempo de Cristiano Ronaldo no futebol esteja a terminar. Foi uma época dourada, dizer “eu vi Ronaldo jogar” é das alegrias que se leva da vida, mas o tempo que nos espera - de um Ronaldo retirado, multimilionário e inquieto - é ainda melhor. Por fim, pode brilhar em pleno o ícone que ele é e que o campeonato saudita nos está a roubar.
Se o talento de Ronaldo para o futebol impressiona, e impressiona mesmo, o seu dom é outro: ele não tem medo das críticas, do escrutínio, das câmaras, do olhar dos outros, de si mesmo. Vale a pena citar: fica-lhe tão bem não fingir que é modesto.
Depois de metade da vida ao microscópio em Portugal, em Inglaterra, em Espanha e no mundo, pode dizer-se sem medo de errar que ele não é um futebolista, é uma estrela pop. Não percamos tempo a perguntar-lhe o que fará depois de dobrar o equipamento.
O futuro de Ronaldo é já o seu presente: jogar na superliga dos carismáticos ao lado de Taylor Swift, das Kardashian, de Brad Pitt, de Bad Bunny, de David Beckham, de Lebron James, de Timothée Chalamet, de Elon Musk. Ronaldo já cá estava quando alguns destes nomes eram desconhecidos, manteve-se e hoje é uma marca avaliada em 850 milhões, tem 648 milhões de contas a segui-lo no Instagram (não há ninguém com mais) e 73,5 milhões no YouTube. Só podemos perguntar: como será quando chegar ao TikTok?
Num tempo não tão longínquo, os ídolos não eram estes seres humanos. Era preciso ser rei e deixar de ter palácio ou ser uma viúva em apuros financeiros e abrir uma casa como Graceland para mostrar como era Elvis Presley. Esse tempo foi antes de Cristiano Ronaldo, famoso por mérito próprio e, mais, capaz de conceder fama aos que o rodeiam: a família Aveiro, o agente, o manager, os amigos, a namorada e os filhos.
Nada faria prever que a história de Ronaldo se ia escrever assim porque nada nos prepara para tropeçar numa estrela ou para perceber a sua grandeza - e é assim mesmo que tem de ser, mas uma coisa é certa: Ronaldo nunca fez nada pela medida pequena e, ao mesmo tempo, nunca é mais do que ele mesmo - desde aquele minuto 1, quando aos 17 anos se estreou em Alvalade pela equipa principal do Sporting antecipando a transferência para Manchester United, à última fotografia publicada no seu Instagram - com as suas meias brancas mal calçadas e uma poltrona a servir de repousa-pés.
Ou naquela outra de pijama aos quadradinhos a jogo com a namorada, Georgina, e os cinco filhos à volta da mesa e do frango assado no dia de Natal, mas na Lapónia. Os gestos mais banais, o ambiente mais excêntrico e do qual ele oferece contados vislumbres - as roupas, os carros, o avião, as casas.
Quando outros futebolistas da sua época não forem mais do que cromos amarelados e imagens em loop nos museus do Real Madrid e Barcelona, ele continuará a ser o protagonista quando for ver o jogo de boxe, salas inteiras vão esperar para o ouvir falar e continuará a não poder ir ao centro comercial dar um passeio em família (como um dia disse que gostaria de ir). Sempre o mais normal, sempre o mais excêntrico. Longa vida, Cristiano Ronaldo!
