Cristiano sentou-se ao lado de um jornalista e fez uma profecia: tinha 17 aninhos nesse dia, a profecia cumpriu-se entretanto - mas agora há riscos

5 fev 2025, 14:00
Cristiano Ronaldo (foto: SCP)
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Esta é a história de como Ronaldo se tornou super-humano. E é a história sobre como se vai tornar humano - mais ou menos. Ronaldo acaba de fazer 40 anos

As pessoas não são apenas números, mas, no caso de Cristiano Ronaldo, os números são inevitavelmente do mais impressionante. Da última vez que CR7 marcou menos de 25 golos numa época, o Sporting estava apenas no quarto ano do que viria a ser um jejum de quase duas décadas sem ser campeão, Geovany Quenda ainda não tinha nascido, Figo brilhava no Inter de Milão e Rui Costa - atual presidente do Benfica - encantava no relvado do San Siro com a camisola do AC Milan.

O mundo era um lugar diferente em 2006 mas Cristiano era relativamente o mesmo que é hoje: fez 69 golos numa época, depois 66, 61, por aí adiante. Mesmo quando foram menos continuou a ser impressionante: Nuno Farinha, comentador da CNN Portugal, lembra que, contas feitas, CR7 tem 19 anos consecutivos de futebol em que fez 25 golos ou mais por época, "uma verdadeira máquina ". "E não perdeu aquilo que faz a diferença entre quem é bom e quem é irrepetível - como ele: a fome". A fome, Ronaldo tem tanta, continua esfomeado. "É a fome que acaba por fazer a diferença: quem tem mais fome, mais ambição, quem está mais determinado - esta é a diferença face a outros que têm talento mas que não têm toda essa fome." O talento obeso é um desperdício, nisso Ronaldo também não tem quilos a mais.

José Soares, professor catedrático de Fisiologia da Universidade do Porto, sublinha uma evidência - Ronaldo é "impressionante" - para constatar algo evidente - não é para todos. "Ronaldo é um exemplo de um outlier e é importante que fique claro que, embora hoje vivamos nesta ideia de que toda a gente pode seguir os seus sonhos e os vai concretizar, isso é uma falácia - isto só está ao alcance de um reduzido grupo de pessoas." 

José Soares explica que cada ser humano é fruto dos seus genes - os do Cristiano "provavelmente são muito bons" - , do ambiente envolvente - "o treino, a forma como recupera, a forma como se cuida, a forma como se relaciona, o equilíbrio que conseguiu na sua vida pessoal, etc. - e, por fim, da sorte - que ninguém controla mas "é um aspeto que tem de ser tido em conta". "Do ponto de vista biológico, Ronaldo é um bafejado; do ponto de vista do ambiente, faz tudo o que está ao seu alcance para conseguir melhor rendimento e, depois, do ponto de vista da sorte e apesar de tudo, nunca teve uma lesão muito grave". Para José Soares, estes são os três pilares para a longevidade e sucesso de Ronaldo.

"Estamos a falar de alguém que é único", sublinha também Nuno Farinha, realçando que "desde o início que os sinais eram muito claros". O ex-diretor-adjunto do Record recua há 23 anos para contar a história do momento em que percebeu que Ronaldo era diferente: "Na altura do Sporting, ainda com 17 anos, um colega jornalista do Record - Rui Dias - teve a oportunidade de falar com o Cristiano, fazer uma entrevista curta a um miúdo talentoso que se estava a estrear no Sporting de Bölöni. Mas era só isso e não podia ser outra coisa, Ronaldo tinha 17 anos. E é então que o miúdo, que tinha acabado de chegar e estava a dar os primeiros passos no futebol, diz ao Rui Dias: 'Vocês ainda não viram nada, isto é apenas o começo'". Ronaldo, o esfomeado, alimentou-se desta profecia.

Vinte anos depois, Nuno Farinha não tem dúvidas: "A determinação e a autoconfiança de uma personalidade como esta é muito diferente da norma e é sobretudo moldada por uma ambição e uma fome de vitórias como se calhar nunca houve igual. É única razão para aos 40 anos ainda conservar estes registos brutais". Prova disso mesmo, aponta , é o modo como Cristiano Ronaldo tem lidado com a falta de títulos no Al Nassr, porque "sofre como como não se vê miúdos sofrerem aos 20 anos por deixarem escapar objetivos". "Temos visto pela televisão as imagens de sofrimento de um jogador que já ganhou tudo, que está multimilionário e que prova que não é isso que o move. O que o move é a sede de novos recordes, de novos títulos."

Entre Sporting, Manchester United, Real Madrid, Juventus e Al Nassr, Ronaldo tem mais de 100 mil minutos em campo distribuídos por 1.280 jogos, quase mil golos e mais de 250 assistências. Posto isto, José Soares considera que a cada ano o risco de lesão aumenta.

"Quanto mais anos mais os atletas estão naquilo a que se chama 'tempo de exposição'. Quanto mais tempo a jogar, mais tempo a treinar, maior o risco de lesão. Ou seja, uma pessoa, se sair de carro todos os dias dez minutos, a probabilidade de ter um acidente é muito reduzida relativamente a uma pessoa que conduz dez horas por dia durante anos", explica o professor catedrático.

Apesar deste aumento estatístico do risco de lesão, têm vindo a público rumores de que Cristiano pode estar de saída da Arábia Saudita para continuar a jogar. Mas onde? "Cristiano ainda tem um lugar em muitos clubes da Europa, mas tenho as maiores dúvidas se são clubes que ele aceitaria representar", diz Nuno Farinha. "Ele já não entra nos projetos" dos colossos europeus. "Não tem que ver com a qualidade, tem que ver com tudo aquilo que representa - o Cristiano não pode ser mais um. Não pode estar num Bayern para ser mais um, não pode estar num Real para ser mais um, não pode estar num Inter de Milão para ser apenas mais um. Teria de ser o número 1 e temos de ser muito conscientes de que isso já passou", explica o comentador da CNN Portugal.

Nuno Farinha lembra que esta também é uma questão que se vai colocar na seleção nacional. "Acho que já se colocou de alguma forma, na parte final de Fernando Santos e no Mundial do Catar, em 2022, acho que foi aí que a questão se começou a colocar." Nuno Farinha entende ainda que Roberto Martínez tem gerido muito bem esta questão.

"Ninguém tem dúvidas de que Cristiano é a principal figura da seleção e sê-lo-á sempre enquanto continuar a representá-la. Já temos é muitas dúvidas sobre se continua a ser o jogador mais importante da seleção e sobre isso acho que as dúvidas são perfeitamente legítimas", argumenta Nuno Farinha. "Pessoalmente, acho que ele já não é o mais importante. Pode ser útil à seleção mas tem de aceitar que já não pode ter mais uma influência dominante como a dos últimos anos. Se Cristiano só se sentir confortável com o reconhecimento de elemento mais influente e decisivo, pode haver um problema. Não sei se Cristiano aceitará dar um passo atrás, sentar-se no banco e estar disponível para jogar os minutos que um jogador com 42 anos - que será a idade que vai ter no Mundial - deve jogar."

O comentador da CNN Portugal acredita que eventualmente "Cristiano Ronaldo tem de reconhecer que não é mais o mesmo jogador e que Portugal tem ótimas soluções também para a posição em que ele joga e que se calhar fazem mais sentido serem titulares". "Digo isto de uma forma natural, sem qualquer tabu, problema ou receio, sem medo das palavras. Faz mais sentido pensar num Gonçalo Ramos a titular em 2026 do que em Cristiano Ronaldo. Agora, a pergunta tem de ser feita: está Cristiano Ronaldo disposto a aceitar isso? Acho que a chave vai estar sempre aí."

O especialista em Fisiologia José Soares lembra que, cada vez mais, a longevidade, o envelhecimento e a capacidade de atenuar são temas que se transformaram num "interesse generalizado da ciência". "Hoje, o que nós sabemos é que o sono, a alimentação, o treino, a gestão de stress, a forma como se equilibra a vida pessoal... quer dizer, tudo isso tem um impacto enorme em minimizar o efeito da idade", explica, lembrando que Cristiano Ronaldo "cuida de todos esses aspetos de uma forma muito minuciosa e é a diferença viva entre uma pessoa que trata do seu corpo e cérebro e aqueles que não cuidam e vivem apenas com o presente". Por isso: "Nesse aspeto, ele é exemplar".

O prometido regresso a Alvalade

Quase desde que deixou o Sporting, após o jogo de inauguração do já não tão novo estádio de Alvalade, Cristiano tem vindo a profetizar o seu regresso - essa é uma profecia que não se cumpriu. "O Sporting quer, sempre quis, não há nenhum sportinguista que não queira que o Cristiano regresse, independentemente de ser aos 40, 41 ou 42 anos", diz Nuno Farinha, lembrando que aqui voltamos à mesma questão sobre se estariam reunidas as condições para ele ceder naquela que "parece ser a a única forma em que ele aceita jogar - ser sempre o número 1".

Nuno Farinha acredita que sim: "O que faz na Arábia Saudita podia fazer em Portugal" e podia também superar a meta dos 25 golos/época ao serviço do Sporting.

Enquanto esse regresso ao Sporting não se dá - se é que alguma vez se dará -, José Soares aproveita para compara Ronaldo a Lebron James, que aos 40 anos continua a jogar na NBA e até já partilha os pavilhões com o filho: "São pessoas fora do comum", sublinha o professor de Fisiologia - que realça que, por mais que o cidadão comum se tivesse esforçado na adolescência, este não é um patamar "para qualquer pessoa".

"Obviamente que depende muito do trabalho, mas o trabalho vem de quê? De uma capacidade de foco enorme na sua carreira e de uma preocupação com os detalhe. Não só do ponto de vista físico, a grande maioria das pessoas não consegue aguentar e, inclusivamente, não tem a capacidade e motivação, muitas vezes, para manter este modo de vida durante muito tempo", explica José Soares.

Como se diz adeus?

Apesar da aparente imunidade ao envelhecimento e à oxidação das células de carbono que compõem o corpo humano, Cristiano Ronaldo já não dispõe da mesma potência dos dias em que aterrorizava as defesas britânicas ao lado de Nani, Evra e Ferdinand - nem tem aquela intensidade que quase sozinho parecia conseguir virar um jogo contra os Barcelonas mais fortes da história do futebol. Perante isto, como é que alguém como Ronaldo se despede para sempre da competição?

"Quase todos os grandes craques falharam o timing" do adeus ao futebol, diz Nuno Farinha. Acertar nisto "é uma coisa rara": "Assim de repente, só Zidane abandonou a carreira quando estava no auge, mesmo no máximo. Abandonou numa final do Campeonato do Mundo e conseguiu terminar quando ainda era um dos melhores do mundo em 2006, mas isto é a exceção". Zidane que treinou Ronaldo, by the way.

"Apesar dos registos que ainda conserva e dos golos, Cristiano já está muito longe do auge. O auge foi há muito tempo. Acho que todos conseguem reconhecer isso. A lenda está lá, é intocável e nunca ninguém a vai apagar, mas já está longe - a fome que mantém é louvável, admirável e respeitável e até um exemplo para todos nós, se calhar, em todas as profissões, mas o futebol depende das limitações que são impostas pelo físico. E tenho dúvidas de que o Cristiano saiba aceitar o momento de parar - acho que vai prolongar ao máximo e, quando digo máximo, é ir além daquilo que estamos habituados a ver. Se alguém vindo do futuro me dissesse 'já vi o Cristiano jogar e já tem 45 anos ou 46', eu não me surpreenderia."

O especialista em Fisiologia José Soares esclarece que, "apesar de ser um super-humano", Cristiano Ronaldo é ainda assim um humano a seguir ao prefixo. Como tal, é "natural que as capacidades diminuam". No entanto, José Soares realça que esta diminuição vai ocorrer "com um ritmo muito inferior ao das outras pessoas que não são Ronaldo", lembrando que esta "perda já Cristiano devia estar a ter há muito tempo" - se ele fosse norma, que não é. "Quantas pessoas no mundo é que aos 40 anos conseguem manter esta performance física?" Pois.

E quantas pessoas no mundo, tenham a idade que tiveram, conseguiram isto? "Isto": 923 golos, um Campeonato da Europa de seleções, uma Liga das Nações, cinco Liga dos Campeões, quatro Campeonatos do Mundo de clubes, três Premier Leagues, duas La Ligas, duas Serie A e mais de dez taças em todos estes campeonatos.

O pontapé de Cristiano Ronaldo na Champions League contra a Juventus de Buffon (Fonte: Getty)

E se Ronaldo se arrastar, esse risco vai manchá-lo? "Acho que isso não vai manchar a lenda, mas vai obviamente obrigar a que toda a gente recorde que a imagem final vai ficar muito distante daquilo que foi verdadeiramente o futebolista Cristiano Ronaldo, que dominou o mundo durante muito tempo", responde Nuno Farinha. "Acredito que ele tenha muita dificuldade em perceber qual é o momento de parar, acredito que vai tentar prolongar ao máximo, acredito que também aí vai querer bater recordes, eventualmente ser o internacional mais velho de sempre, o internacional mais velho de sempre a marcar, o internacional mais velho de sempre a estar presente num Campeonato do Mundo, da Europa. Vai querer esses recordes todos, já tem dezenas, centenas de recordes, acho que vai querer colecionar mais e temo que a parte final de facto seja uma imagem que esteja depois muito longe de corresponder àquilo que foi o primeiro Cristiano Ronaldo. E acho que isso pode acontecer."

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