Logo a seguir ao verdadeiro desastre frente à RD Congo e às primeiras reações dos jogadores ao empate no primeiro jogo da fase de grupos do Mundial surgiram, inevitavelmente, as críticas à prestação da seleção nacional. Cristiano Ronaldo e Roberto Martínez são alvos habituais, mas os restantes não escaparam. Contudo, as críticas aos outros jogadores da seleção nacional estão pouco ancoradas no que jogaram e mais nos sentimentos que milhões nutrem pelo número 7.
O mais visado foi João Neves. O médio português disse que Cristiano Ronaldo era mais um para ajudar ao objetivo final da seleção, vencer o Mundial. Não menorizou, apenas colocou o cinco vezes Bola de Ouro num patamar igual aos restantes, como as coisas no fundo devem ser num coletivo. A última publicação de João Neves no Instagram tem mais de 180 mil comentários, a grande maioria de fãs de Cristiano Ronaldo - alguns bots, certamente - a pedir respeito pelo capitão e mais. Declarações como “Portugal não seria nada sem CR7”, “tu não és ninguém”, “passa a bola do Ronaldo” e o “o teu maior feito na carreira é jogar com Ronaldo” contam-se aos milhares.
As coisas chegaram ao ponto de esses mesmos fãs, a larga maioria aparentemente estrangeiros sem qualquer ligação a Portugal, “invadirem” o Instagram da namorada do jogador, Madalena Aragão, com as mesmas palavras. A jovem atriz de 20 anos teve mesmo de desativar os comentários na sua publicação mais recente.
Contudo, Neves não foi o único. Vitinha, Bruno Fernandes, Pedro Neto e Nuno Mendes também receberam uma boa quantidade de insultos vindos do mesmo lado. Mas o mais grave nem vem dos fãs de Ronaldo, sobre os quais o craque não tem controlo direto e imediato. As palavras de uma das irmãs do jogador, Cátia Aveiro, a sugerir que a seleção está a sabotar a prestação do irmão e que a “copa” está “estranha”, bem como a colocar um gosto numa publicação que critica Bruno Fernandes, são muito mais reveladores do que pensa o círculo íntimo de Cristiano Ronaldo.
Este texto não é para avaliar as prestações em campo, que para este caso nem secundárias são. O abuso gratuito que alguns dos melhores jogadores da seleção estão a ser vítimas da parte dos seguidores de Cristiano Ronaldo exige que o número 7 intervenha para, pelo menos, tentar conter a situação. É muito difícil que o ambiente no balneário esteja espetacular quando até a companheira de um dos jogadores, de apenas 20 anos, é alvo de uma campanha de ódio nas redes sociais.
Não pedimos a Cristiano Ronaldo que mova mundos e fundos para parar os comentários. Pode simplesmente emitir um comunicado ou fazer uma publicação no X a pedir respeito pelos colegas, aqueles sem os quais não conseguirá ganhar o único grande título que lhe falta. Pode até nem resultar; no fim de contas, cada indivíduo, a partir do seu telemóvel, fará o que bem entender. Mas seria um sinal importante que o capitão daria para os restantes jogadores, que está ali com eles para juntos poderem ter sucesso. Caso decida não se pronunciar, não está apenas a ignorar a situação, está a ser conivente com uma campanha que afeta os seus companheiros e, por consequência, os objetivos da seleção.
