Que Ronaldo vamos ter depois da entrevista? Uma análise do ponto de vista do homem, do atleta e da marca

14 nov, 23:55
Cristiano Ronaldo

Depois de tudo o que o português disse a Piers Morgan, nada ficará igual na vida de Cristiano Ronaldo. O Maisfutebol foi por isso perceber o que pode mudar sob diferentes perspetivas com especialistas em mercado de jogadores, em marketing, em comunicação, em preparação física e em psicologia de performance.

A entrevista de Cristiano Ronaldo a Piers Morgan lançou um tornado sobre o mundo do futebol, e em particular sobre a carreira do internacional português, com consequências ainda difíceis de calcular. Uma coisa é certa: depois do que foi dito, nada ficará igual na vida de Ronaldo.

Nesse sentido, o Maisfutebol foi tentar perceber o que pode mudar sob diferentes perspetivas.

Antes de mais, o valor da marca Cristiano Ronaldo mudou? Para além de futebolista, o português conseguiu criar uma espécie de holding à sua volta, com empresas que negoceiam em diferentes mercados debaixo da mesma marca. O prestígio dessa marca mudou?

«Isto prejudica claramente a marca Cristiano Ronaldo. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso», sublinha Daniel Sá, diretor do Instituto Português de Marketing e Administração.

E como é que a entrevista influenciou, por exemplo, a imagem do jogador?

Numa altura em que se aproxima do final da carreira, e em que tudo o que vier a conseguir mediaticamente no futuro depende do prestígio angariado, não ficou mais difícil manter o interesse num homem com uma imagem menos impoluta perante tudo o que tem acontecido?

«Quando há uma mancha e essa mancha continua a ser alastrada, a imagem que fica é terrível. Foi tudo muito mal gerido desde o verão e o timing desta entrevista, na paragem para o Mundial, pode ter um propósito de mercado, mas não tem fundamento do ponto de vista da imagem», revela Rui Miguel Mendonça, consultor de comunicação.

Francisco Empis, outro consultor de comunicação, acrescenta que «é muito perigoso um jogador virar-se contra um clube e, nesse aspeto, claramente funcionou mal».

«Por outro lado, é a maneira de ser do Ronaldo, ele sempre foi muito frontal e a carreira dele tem sido construída assim: tem sido um jogador polarizante e sem meio termo. As pessoas ou o adoram ou o odeiam. Por isso a capacidade de construir o futuro em torno da imagem continua totalmente intacta. Isto hoje está a dar uma polémica enorme, mas amanhã as pessoas já esqueceram. O que vai ficar é a carreira incrível que construiu.»

Por falar em carreira, depois desta entrevista não será difícil encontrar um novo clube?

«Acho que é tudo uma questão de valores. Terá de ser necessariamente um jogador muito mais barato do que é agora e terá de aceitar assinar por um período curto, no máximo de época e meia. Se aceitar tudo isso, acredito que vai ter interessados», garante Joaquim Ribeiro, antigo agente de jogadores de futebol e atual presidente da SAD do Vizela.

Há, de resto, um aspeto fundamental em toda esta história: o Mundial que se avizinha.

A entrevista do capitão da Seleção Nacional, numa altura em que vai estar muito longe de Manchester, terá após esta espuma dos dias o efeito que o Mundial lhe atribuir.

Poderá Ronaldo, um homem que se torna muito mais forte no confronto, ter pensado em combustível para realizar um grande Campeonato do Mundo?

«O Cristiano Ronaldo é um atleta ímpar e é seguramente dotado de características mentais muito fortes, que lhe permitem transformar situações negativas em motivação para se superar. Nesse sentido, nada melhor que um Mundial para ele transformar isto tudo numa mola para ultrapassar limites», garante João Lameira, psicólogo do desporto e da performance.

Por isso, e se a motivação provocada pelo ódio que nasceu da entrevista for bem direcionada, o jogador pode estar com o foco certo para fazer um grande Mundial e relançar uma carreira que nesta fase surge claramente na curva descendente.

«O que tornava Ronaldo especial era a sua potência, a sua capacidade de explosão. Com a idade todos nós vamos perdendo potência e ganhando resistência. Essa capacidade de resistência vai permitir-lhe, estando bem fisicamente, e seguramente que ele vai estar bem no Mundial porque vai trabalhar para isso, tornar-se mais efetivo em momentos importantes», acrescenta Mário Monteiro, antigo preparador físico do Benfica.

Bem vistas as coisas, portanto, o verdadeiro resultado da entrevista de Ronaldo a Piers Morgan ainda está por conhecer: vai depender muito do que acontecer no Qatar.

É seguro dizer que a imagem saiu muito afetada da entrevista e que a marca Cristiano Ronaldo tem nesta altura menos valor. Mas por outro lado, a guerra aberta com o Manchester United, e sendo ele um homem que se alimenta de confrontos, pode dar-lhe o estímulo mental, e a partir daí também físico, para fazer um grande Mundial.

Se o fizer, tanto a carreira como a marca acabarão por sair reforçadas.

Mas vamos detalhar tudo isto, cedendo a palavra a quem sabe: os especialistas em cada campo.

«Com o tempo a marca Cristiano Ronaldo recuperará o valor que tinha»

Daniel Sá, diretor do IPAM

«Olho para a entrevista, mas alargo a entrevista aos últimos quatro meses. Ou seja, no fundo é toda esta temporada: fica ou não fica, a ausência no regresso dos colegas, sai durante o jogo para o balneário. Enfim, a entrevista é a peça final de uma novela de quatro meses. Isto prejudica claramente a marca Cristiano Ronaldo. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Isto não é a marca Cristiano Ronaldo que nos habituámos a ver nos últimos vinte anos. Mas acredito que, apesar de prejudicar, estes quatro meses não vão danificar uma marca que tem vinte anos. Estamos todos desiludidos, todos muito emocionais, mas acho que no futuro estes quatro meses vão acabar por ser apagados e, com mais ou menos dificuldade, a marca vai voltar a ter o valor que tinha antes. Neste momento o valor não é o mesmo que era, mas acredito que as pessoas vão conseguir encontrar uma saída positiva e que permita recuperar o prestígio anterior. Ronaldo com esta entrevista acabou por se borrifar para os cuidados da imagem que ele deve ter, e sabe que deve ter, não quis saber do que parece ou não parece bem. Isto torna-se perigoso, porque existe o risco da última imagem não ser positiva, claro. Mas, lá está, acho que isto é uma mancha, um momento mais baixo, mas com o tempo vai ser lavada e a marca Cristiano Ronaldo recuperará o valor que tinha antes.»

«Ronaldo não foi bem preparado do ponto de vista mediático para o final da carreira»

Rui Miguel Mendonça, consultor de comunicação

«A imagem de Cristiano Ronaldo nesta altura está manchada e é uma pena, porque ele construiu uma grande imagem durante uma enorme carreira, e por mérito próprio. São demasiados episódios mal geridos em termos de comunicação, de timings e de mensagem. Aliás, acho até que ele estava ciente do impacto que ia ter no mundo, mas não sei se o resultado está a ser o que ele esperava, ou o que os conselheiros esperavam. O cerne, para mim, está no facto de ele não ter sido bem preparado do ponto de vista mediático para o final da carreira. Essa preparação passa por construir alicerces que lhe permitam manter a imagem no auge o máximo de tempo possível, mas há que saber aceitar quando já não se está no auge, uma vez que do ponto de vista fisiológico é perfeitamente normal que não consiga estar no nível que já atingiu. Por isso acho que ele geriu bem as fases de ascensão e auge, mas não está a saber gerir a fase de declínio. Fora das quatro linhas a imagem empresarial - de um filantropo, de um investidor ou o que fosse - tinha de ser preparada e não foi.  Foi preparada do ponto de vista familiar, mas apenas isso. As pessoas hoje olham para Ronaldo como uma estrela em decadência. É uma expressão que, enquanto português e enquanto admirador do Ronaldo, me custa a dizer, mas a verdade é que essa é a imagem que fica. O que é muito triste para tudo o que Ronaldo construir no futebol. Quando há uma mancha e essa mancha continua a ser alastrada, a imagem que fica é terrível. Foi tudo muito mal gerido desde o verão e o timing desta entrevista, na paragem para o Mundial, pode ter um propósito de mercado, mas não tem fundamento do ponto de vista da imagem.»

«Agora terá de ser necessariamente um jogador mais barato»

Joaquim Ribeiro, dirigente desportivo

«Acho que é tudo uma questão de valores. Terá de ser necessariamente um jogador muito mais barato do que é agora e terá de aceitar assinar por um período curto, no máximo de época e meia. Se aceitar tudo isso, acredito que vai ter interessados. A entrada de um jogador como Ronaldo será sempre positiva para um clube porque vai trazer com ele fortunas em receitas. Ele é demasiado poderoso e influente. Acho até que vão rolar cabeças no Manchester United. No imediato a entrevista pode virar-se contra o Cristiano Ronaldo, mas do ponto de vista do clube isso só terá resultado se ganharem um título importante. Se não o conseguirem, o tempo vai dar razão ao jogador. De cada vez que a equipa não ganhar vai haver adeptos a lembrarem-se dele. A marca Ronaldo é muito forte e só depende dela própria para se fortalecer. O Manchester United já não é assim, já é uma marca que se fragiliza mais facilmente, vive muito no momento e precisa de todos para se manter forte. Por isso nesta altura, e enquanto não ganhar, os adeptos vão querer explicações sobre o que o Ronaldo disse e o que se tem passado no pós-Ferguson. Em suma, para o Ronaldo o impacto da entrevista vai durar alguns meses enquanto para o clube pode durar anos.»

«Toda esta polémica vai ser um aditivo para ele no Mundial»

Mário Monteiro, preparador físico

«Acho que esta polémica toda vai ser um aditivo para ele no Mundial: vai querer provar que o treinador é que está errado, que ele está certo e que tem condições para fazer um grande Mundial. Pode também ter provocado um bocadinho tudo isto para encontrar o combustível para estar em excelente forma. Mas eu não sei o que vai na cabeça dele. Eu penso que ele vai fazer um grande Mundial. Isto foi uma forma de provocar este barulho todo, agora não está cansado porque não tem jogado muito, prepara-se muito bem e faz um grande Mundial para sair em grande. O Ronaldo nesta fase é um atleta de resistência. Ele há três anos era um jogador muito explosivo, isso agora é impossível, mas em compensação é um atleta muito mais resistente. Isso faz parte da biologia e fisiologia humanas. O que tornava Ronaldo especial era a sua potência, a sua capacidade de explosão. Com a idade todos nós vamos perdendo potência e ganhando resistência. Essa capacidade de resistência vai permitir-lhe, estando bem fisicamente, e seguramente que ele vai estar bem porque vai trabalhar para isso, tornar-se mais efetivo em momentos importantes.»

«A motivação para dar uma resposta à polémica tem de ser enquadrada na direção certa»

João Lameiras, psicólogo do desporto e da performance

«Naturalmente que uma entrevista nesta altura tem um impacto a diversos níveis, tanto no que diz respeito à vida de Ronaldo no clube, como no que diz respeito à vide na seleção, em que é capitão e tem uma importância transversal a todo o grupo. Aquilo que ele refere são questões que revelam que os episódios relatados tiveram impacto no estado emocional dele. O Cristiano Ronaldo tem batido os seus próprios recordes e é um atleta focado no seu desenvolvimento e progressão individual. É por isso um atleta ímpar e é seguramente dotado de características mentais muito fortes, que lhe permitem transformar situações negativas em motivação para se superar. Nesse sentido, nada melhor que um Mundial para ele transformar isto tudo numa mola para ultrapassar limites. No entanto, essa motivação tem de ser direcionada, para não se tornar uma questão pessoal que acabe por prejudicar o grupo. Se for encarada numa perspetiva de obrigação ou de ânsia pode trazer uma pressão e uma desatenção ao que é importante muito negativas. Claro que isto vai aumentar o mediatismo sobre a Seleção Nacional, mas os jogadores estão preparados para lidar com várias fontes de pressão. Todos eles estão a fazer as carreiras sob as luzes da ribalta. O importante é blindar o grupo a distrações exteriores e saber canalizar o impulso de tudo isto que resultou da entrevista na direção certa.»

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