Crioterapia, sono polifásico e uma dieta rigorosa. Cristiano Ronaldo cuida do corpo como ninguém
O adolescente magrinho que um dia ousou partir os rins a Gary Neville fez-se um monstro. Mas já nessa altura quem trabalhava com ele sabia que estava ali um “atleta diferente”.
É o que diz à CNN Portugal Henrique Jones, médico que liderava o departamento da Seleção nacional quando aquele menino chegou, e cujo crescimento acompanhou ao longo dos 11 anos seguintes, até sair em 2014.
“Quando chegou tinha 17 anos e já nessa altura se notava, não só pelas qualidades técnicas, que era um atleta diferente”, confirma o médico, lembrando que o craque português procurava saber coisas sobre o seu próprio corpo que os outros jogadores não queriam saber.
“Fazíamos testes, colheitas de sangue, e ele não só estava sempre pronto a fazer, como queria saber como se processavam, o que significavam os resultados e como estava em termos físicos”, acrescenta Henrique Jones.
Foi por essa ânsia de aprender e de perceber como podia melhorar que chegou à crioterapia, um tratamento de recuperação que não dispensa há mais de 10 anos. No último Europeu, por exemplo, pediu especificamente que houvesse uma banheira nos locais de estágio da Seleção na Alemanha. É que o banho de gelo é essencial para que o jogador consiga manter-se ao mais alto nível com 39 anos, agora feitos 40.
É que a recuperação é, nas palavras de Henrique Jones, o ponto mais essencial para os atletas de hoje em dia. Aliando isso ao trabalho na condição física e à prevenção de lesões, Cristiano Ronaldo consegue manter a forma física invejável, o que lhe permite continuar a ter desempenhos como o desta segunda-feira, em que marcou dois golos, um deles com um voo digno da Air Ronaldo (brincadeira que surgiu nas redes sociais para celebrar os inúmeros golos de cabeça que o jogador faz, muitos deles em alturas a que parece impossível um ser humano chegar).
“Sempre foi um rapaz que se preocupava muito com ele próprio. Tem o culto de trabalhar, de fazer reforço muscular, neuromuscular, de ter um grande rigor alimentar e uma higiene de vida cuidada”, sublinha Henrique Jones, vincando sempre o lado da recuperação como algo essencial.
É que não é apenas a crioterapia mas também o sono polifásico, ainda que num molde diferente. Cristiano Ronaldo mantém uma rotina de sono que se divide em cinco vezes ao dia, num período que vai até hora e meia de cada vez. São pequenas sestas que lhe permitem que o corpo esteja sempre regenerado e que aumenta o foco.
E isso é essencial, aponta Henrique Jones, sobretudo no futebol atual, onde praticamente já “só se treina e recupera”, não havendo muito espaço para os treinos. O médico diz que o mais importante é mesmo “saber distinguir quando repousar e trabalhar”. E Cristiano Ronaldo sabe-o como ninguém, colocando o corpo a funcionar como um relógio suíço que bate sempre certo.
“Ele sempre teve essa noção, de que o repouso é o principal fator de um atleta. Sempre trabalhou em ter as horas de sono corretas.”
Isso permite não apenas recuperar mas também evitar lesões, outro fator essencial para que chegue aos 40 anos a conseguir competir ao mais alto nível, mesmo que isso já só aconteça na Seleção, já que a realidade competitiva do Al Nassr, ainda que a liga saudita tenha subido de qualidade, não é comparável com a Premier League ou a La Liga.
E tempo para dormir Cristiano Ronaldo só o tem quando não está a trabalhar, o que faz quase sem parar. E sempre foi assim. Todos conhecem as histórias de que era o primeiro a chegar aos treinos e o último a sair, sendo que às vezes só saía porque era mandado embora.
"Depois do treino achava que ainda tinha muito mais a aperfeiçoar. Passava 15 ou 20 minutos a bater livres, ia sempre um bocado além dos outros. Muitas vezes tinha de ser enviado para o vestiário", conta Henrique Jones sobre os tempos da Seleção, que partilharam por 11 anos.
Isso foi sempre assim, como foi a procura pelo cuidado do corpo. Não só o trabalho que faz com ele para que tenha um melhor desempenho, mas também a alimentação, algo chave na carreira do craque, mesmo que ao início tivesse os seus gostos menos saudáveis.
"Tínhamos uns menus que procurava ser regulares, mas o mais importante era o rigor alimentar nas vésperas e no pós-competição. Aí ele tinha muitos cuidados em termos de nutrientes. Como todo o miúdo também tinha os seus gostos, como hambúrgueres, mas quando era necessário equilíbrio ele era exemplar", nota o antigo médico da Seleção.
Em vez das normais três ou quatro refeições diárias, Cristiano Ronaldo come seis vezes por dia, espaçando-as ao longo do tempo em que está acordado, no que até já foi descrito como a receita do frango "mágico", já que é rica em proteína e não tem muita gordura.
É que o craque toma o pequeno-almoço, o almoço e o jantar, claro, mas também come um brunch, um lanche e uma ceia. Tudo em quantidades menores, mas mais espaçado. E muitas vezes é mesmo o frango, lá está, o preferido, uma ementa que também costuma ter abacate, peixe, quinoa e várias frutas frescas.
Quanto às bebidas, e todos se lembrarão do momento Coca-Cola numa conferência de imprensa do Euro 2020, Cristiano Ronaldo prefere ficar pela água.
