Negócio milionário para os Estados Unidos foi feito ainda antes de o jantar começar e até antes de o jogador português chegar
Para Cristiano Ronaldo era um dia especial e o regresso oficial aos Estados Unidos, para a Arábia Saudita era a entrada no mundo dos democratas sem que para isso tenham de ser cumpridos todos os requisitos. Já para Donald Trump, esta terça-feira foi quase igual a todos os outros dias de que o presidente dos Estados Unidos mais gosta.
Foi um dia de negócios, portanto, em que um jantar com pompa e circustância e a bandeira verde a voar na Casa Branca foram sinais claros de que havia coisas importantes a tratar para lá do que passava nas câmaras.
Por isso mesmo, e quando já iam chegando alguns dos convidados por uma das principais portas da residência oficial do presidente norte-americano, a Casa Branca fez saber que a ida do príncipe Mohammed bin Salman aos Estados Unidos também serviu para compras.
Mais precisamente 300 carros de combate, parte integrante de um megapacote de defesa que os Estados Unidos vão vender à Arábia Saudita, e do qual fazem parte também caças F-35, os mais modernos aviões de combate dos Estados Unidos que só um punhado de 20 países possuem ou encomendaram, incluindo Reino Unido, Japão, Coreia do Norte ou... Israel, que não verá este acordo com bons olhos.
Os cerca de 50 caças que a Arábia Saudita vai comprar colocam o país no topo das nações com mais aviões deste género, num negócio que devia ter sido também diplomático, mas que viu essa parte cair para segundo plano.
“Vamos fazê-lo. Vamos vender os F-35”, garantiu Donald Trump ainda esta segunda-feira, referindo-se à Arábia Saudita como um “grande aliado”. Ausente dessas palavras estava outro grande aliado, talvez o maior.
É que o acordo previa uma outra vertente, que passava por Israel normalizar as suas relações com a Arábia Saudita, o que seria um passo de gigante para uma paz mais estável no Médio Oriente. E o objetivo era mesmo esse: Israel normalizava relações e, em troca, a Arábia Saudita comprava os caças.
Só que a menção a Israel ficou fora de todas as palavras ou comunicados, o que deixa no ar a possibilidade de um desequilíbrio, mesmo que não a curto prazo, das forças no Médio Oriente. É que a Arábia Saudita torna-se no primeiro país árabe a receber os caças mais avançados do mundo. Israel também os tem, é certo, mas assim perde uma vantagem que tinha perante os vários países que o consideram um inimigo.
Várias fontes do lado saudita confirmaram à CNN que Riade estava pronto para separar os dois assuntos: a compra dos F-35 não exige a normalização com Israel, mas a administração Trump vê esse como um ponto de política externa fulcral.
Garantida a venda dos caças, que custarão qualquer coisa como 80 a 110 milhões de dólares cada, estaremos a falar num negócio que pode ir dos 3,8 mil milhões de dólares aos 5,2 mil milhões de dólares. Se tivermos em conta que Cristiano Ronaldo tem um património avaliado em 1,4 mil milhões de dólares, a Arábia Saudita pode sair da Casa Branca com cerca de três Cristianos Ronaldos.
Do ponto de vista de Israel, e mesmo que Donald Trump tenha desvalorizado a questão, uma fonte de segurança admitiu à CNN que o cenário é “muito preocupante” para as Forças Armadas.
“Por muito anos foi uma regra que asseguraríamos que ninguém no Médio Oriente teria o mesmo avião e as capacidades de Israel”, apontou a fonte, lembrando que o país já tem os F-35, mas nenhum dos rivais na zona os tem. Isso está prestes a mudar com este negócio.
E se é verdade que um acordo semelhante até já foi feito entre Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos no final do primeiro mandato de Donald Trump - também em troca da normalização das relações -, o que assusta é a dimensão da Arábia Saudita, potência económica e líder religioso na Península Arábica.
Esse negócio com os Emirados Árabes Unidos acabou por cair com a administração Biden por causa de envolvimentos com a China, o que dá maior relevância a este agora conhecido. Para o antigo embaixador dos Estados Unidos em Israel Daniel Shapiro, as preocupações podem ser semelhantes neste caso.
“Ainda não é claro se a Arábia Saudita vai fazer os mesmos comprometimentos sobre limitar a cooperação militar com a China”, avisou, em declarações à CNN.
Mesmo que não seja militar, até porque a Arábia Saudita é aliada dos Estados Unidos, este negócio pode abrir portas a um problema diplomático com Israel, que pode ver este caso como algo em que não visto nem achado. Se assim for, Donald Trump ficará com um problema entre mãos.
A derrota pode até ser a dobrar, já que o Congresso tem o poder de bloquear este negócio. Em causa está aquilo a que Israel chama de "capacidade superior" (QME), e que ficou consagrada num acordo celebrado com os Estados Unidos em 2008. De acordo com o The Washington Institute, é o que Israel entende como “a capacidade de manter uma vantagem militar credível que proporciona dissuasão e, se necessário, a capacidade de alcançar rapidamente a superioridade no campo de batalha contra qualquer combinação previsível de forças com o mínimo de danos e baixas”.
Ora, se outros países no Médio Oriente tiverem um F-35, essa capacidade, essa vantagem, deixa de existir. Uma vez que esse QME está codificado na lei norte-americana desde 2008, o Congresso terá mesmo de aprovar o negócio com a Arábia Saudita.
A juntar às preocupações externas estão as preocupações internas. As mesmas que levaram ao cancelamento do acordo com os Emirados Árabes Unidos. Um estudo do Gabinete de Responsabilidade Governamental e um relatório ainda mais recente da Agência de Informações de Segurança alertaram para uma ameaça real: que a Arábia Saudita partilhe com a China a tecnologia que ajudou a fazer os F-35, o que daria uma vantagem ao maior inimigo dos Estados Unidos.
Problema externo e interno, portanto, com Donald Trump a preferir focar-se no mérito do negócio a nível financeiro.