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Colunista e comentador

Cristiano Ronaldo rodeado pelo mundo da santa hipocrisia!

24 nov, 17:15
Trump Ronaldo

Rui Santos considera que há razões para não subestimar questões relacionadas com direitos humanos e liberdade de expressão mas não aceita a hipocrisia universal e a visão muito tuga de que C. Ronaldo, com o seu poder, consegue resolver os problemas que supostos democratas da política nacional e internacional não resolvem, apontando casos de diplomacia com verdadeiros ditadores: hipocrisia ao mais alto grau!

A visita de CR à Casa Branca gerou ondas de choque em Portugal e no mundo.

Aliás, não há nada que CR faça que não provoque ondas de choque. Muitas positivas, quase sempre noutros locais da Europa e do mundo; outras negativas, quase sempre em Portugal, mais desproporcionais do que seria justo e imaginável.

Confesso que não tenho simpatia especial por Donald Trump mas ele é o presidente dos Estados Unidos da América e a coisa pior que se pode assistir em democracia é o desrespeito pelo voto das maiorias e esta nova pulsação de que as minorias é que mandam.

É evidente que não sou ingénuo e sei que esta aproximação que colocou CR mais uma vez no centro das atenções mundiais, mas desta vez na Casa Branca, junto de algumas das figuras mais poderosas do planeta, relaciona-se com o efeito mediático à escala global que o português gerou no futebol e na sociedade saudita.

E tudo se relaciona também com a aproximação de Donald Trump ao príncipe herdeiro da Arábia, Mohammed bin Salman (MbS), e os interesses comuns de investimento, sabendo que o que está verdadeiramente em causa é o fortalecimento de ambas as nações, considerando o valor do intercâmbio que envolve, acima de tudo, além de outras plataformas de desenvolvimento, o petróleo (para os Estados Unidos) e o armamento (para a Arábia Saudita). E, num ambiente descontraído, os olhos de Trump até brilharam quando MbS falou de um investimento de 1 trilião de dólares, muito acima daquilo que se poderia imaginar na casa das centenas de biliões de dólares.

Gostei ou gosto da forma como Joe Biden (é preciso não esquecer) e Donald Trump lidaram com as suspeitas do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018, alegadamente sob a influência de Salman?

Claro que não. Foi e é revoltante.

Gostei ou gosto de saber do que foram as conclusões dos Serviços Secretos e de Intelligence e das consequências meiguinhas que o processo conheceu, perante alguém que se tornou incómodo perante o que sabia sobre as atrocidades que ele dizia serem cometidas pelo regime e particularmente por Mohammed bin Salman, através de artigos publicados no Washington Post?

Claro que não. Foi e é revoltante.

Muitos consideraram ou insinuaram que Cristiano Ronaldo, por causa dos seus interesses e negócios de dimensão extraordinária, foi um fantoche nas mãos de Donald Trump e Mohammed bin Salem e, tal como fez quando rumou à Arábia Saudita, ignorou questões essenciais relacionadas com direitos humanos.

Eu entendo de certa forma a indignação de todos os cidadãos que, subjugados pelos poderes — sejam eles políticos ou económicos — se sentem impotentes contra as grandes injustiças praticadas no mundo, seja a fome, sejam os efeitos da corrupção, seja a forma como não são mitigadas as desigualdades sociais, seja o negócio do armamento e da droga, seja a discriminação sexual ou de género, seja a forma como as grandes, médias e pequenas potências observam a gestão das guerras, com a morte de milhões de seres humanos inocentes.

A inocência existe, a crueldade existe, mas há uma coisa em que os seres humanos, principalmente aqueles que lidam com zonas de poder, são campeões em ignorar, dissimular ou potenciar: a hipocrisia.

Onde estão os políticos portugueses (e não apenas os portugueses) que, no passado e no presente, já fizeram diplomacia com ditadores da pior espécie, como está documentado em várias fotografias e outras imagens que ficaram na História da humanidade?

Aqueles que ora criticam C. Ronaldo onde estavam quando os russos começaram a querer tomar a Ucrânia, através dos primeiros avanços na Crimeia?

Onde estavam os críticos de Ronaldo que nada fizeram para impedir que a Rússia organizasse o Mundial no seu país, em 2018, quando já existiam sinais de domínio  russo sobre a Ucrânia? E não falo do José ou da Maria; falo das instituições e das personalidades que enchem a boca com o vocabulário da paz e da solidariedade!

Onde estavam os críticos de Ronaldo (e o próprio Ronaldo, bem entendido) quando a FIFA atribuiu estranhamente a organização do Campeonato do Mundo ao Qatar? O Mundial de 2034 não vai ser organizado pela Arábia Saudita?!…

Pois, todos chocados com C. Ronaldo. Não deveríamos estar todos chocados com esta tremenda hipocrisia? Estamos todos condenados a ser melhores ou piores cidadãos — e há quem faça mais, felizmente, para se colocar numa posição equilibrada entre direitos e deveres. 

O que mais me irrita é perceber que, entre os críticos (fulos por não terem honras de Estado desta magnitude) e incentivando sempre quem denuncie os abusos (não pode valer tudo!), aqueles que criticam agora C. Ronaldo são os mesmos que fariam igual ou ainda pior (no sentido do aproveitamento da multiplicação do dinheiro) se estivessem no lugar dele, com 1 bilião de seguidores nas redes sociais.

Santa hipocrisia!

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