Momento em que Cristiano Ronaldo surge lado a lado com representantes de um regime acusado de repressão política, discriminação das mulheres, perseguição e assassínio de opositores está a ganhar uma dimensão que ultrapassa o futebol
A presença de Cristiano Ronaldo na comitiva oficial da Arábia Saudita que foi recebida por Donald Trump na Casa Branca tornou-se muito mais do que um simples registo fotográfico num salão de gala. Entre acusações de sportswashing, operações de charme político e interesses bilionários entre Washington, DC e Riade, a visita abriu um novo capítulo no envolvimento público do jogador com o regime saudita.
O número sete, que há quase dois anos joga no Al-Nassr e que, na entrevista que deu recentemente ao jornalista britânico Piers Morgan, afirmou sentir-se "como um saudita", está a ser acusado de ter passado a integrar, de forma explícita, uma estratégia de diplomacia pública de Riade.
Em declarações à CNN Portugal, a Amnistia Internacional lembra que Cristiano Ronaldo é "um exemplo para muitas pessoas por todo o mundo, sobretudo crianças e jovens" e lamenta que, até hoje, o futebolista não tenha usado a sua voz, "uma voz ouvida", para denunciar os crimes praticados pelo regime saudita.
"Exige-se mais. Exige-se que jogue pelos direitos humanos. Se tivemos pena que o jogador português não tivesse aproveitado a oportunidade que teve de estar com Donald Trump para usar a sua voz, que é uma voz ouvida, mais lamentamos que, até hoje, Ronaldo não se tenha feito ouvir junto do poder da Arábia Saudita para lembrar ao príncipe herdeiro Mohammed bin Salman que as muitas violações de direitos humanos que o país comete todos os dias têm de mudar".
A Amnistia Internacional lembra que a Arábia Saudita mantém presos ativistas por publicações nas redes sociais, que continua a aplicar penas de morte e que silencia sistematicamente vozes críticas, tal como no caso do jornalista dissidente Jamal Khashoggi, assassinado e desmembrado em 2018. Um caso que até foi relembrado por um jornalista durante o encontro entre Donald Trump e Mohammed bin Salman, mas que o presidente norte-americano fez questão de desvalorizar, mesmo que um relatório da CIA confirme o envolvimento do príncipe no assassínio.
“Esta grandiosa máquina de relações públicas das autoridades sauditas, da qual faz parte também Cristiano Ronaldo, vende ao mundo uma imagem de progresso e glamour, fazendo voar adeptos e artistas famosos para o país para diferentes eventos. No fundo, está apenas a distrair a opinião pública do seu registo atroz de direitos humanos", acrescenta a ONG.
"É um papel pouco digno" para alguém que sempre foi "apolítico"
É precisamente essa estratégia que, segundo Tiago André Lopes, explica a presença de Cristiano Ronaldo na Casa Branca. O especialista em Relações Internacionais afirma que “esta visita é acima de tudo uma tentativa da Arábia Saudita de se normalizar no espaço internacional” e que o jogador português “dispôs-se a ser usado como uma forma de aligeirar a imagem” do regime.
O comentador da CNN Portugal não esconde a estranheza perante o facto de Cristiano Ronaldo, que ao longo de toda a carreira evitou envolvimento político, ter surgido agora numa posição tão claramente alinhada com um regime autoritário.
“Ronaldo deixou-se instrumentalizar. Eu percebo que o regime é o atual patrão de Ronaldo - é lá que ele está a desenvolver a sua carreira -, mas de qualquer forma parece-me que é um papel muito pouco digno para um jogador que, até aqui, se manteve muito apolítico", aponta, falando de um atleta que está diretamente envolvido em campanhas da Arábia Saudita, nomeadamente para a organização do Campeonato do Mundo de Futebol de 2034.
Tiago André Lopes considera ainda que esta é uma jogada arriscada que pode afastar seguidores, lembrando que “a vantagem é nenhuma, a desvantagem é enorme” e que, ao participar no jantar oficial, o capitão da seleção portuguesa de futebol “fica pela primeira vez colado ao regime, o que até aqui não acontecia”.
Sobre as razões que o levaram a aceitar o convite, coloca duas hipóteses: ou foi “ingénuo e mal aconselhado”, algo difícil de compreender num jogador cercado por uma equipa experiente, ou então está a posicionar-se como “futuro embaixador do Mundial de 2034”, que a Arábia Saudita vai organizar.
A ideia de que o jogador possa ter aproveitado a influência junto de Donald Trump para resolver o caso judicial com Kathryn Mayorga é afastada pelo especialista, que sublinha que o caso está arquivado e não teria qualquer peso nesta visita.
"Acho que isso é a parte menos relevante porque o caso está arquivado e o entendimento dos juízes norte-americanos é de que não há crime nenhum", refere, mencionando o caso tornado público em 2017 numa entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, na qual a norte-americana acusou Cristiano Ronaldo de violação numa noite em que os dois estiveram juntos em Las Vegas em 2009.
Já Ricardo Monteiro considera que a presença de Cristiano Ronaldo no jantar serviu sobretudo para dar brilho mediático à comitiva saudita, mas que nem isso correu como o jogador teria imaginado.
"Não há a menor dúvida de que Ronaldo foi instrumentalizado por Donald Trump, mas a relevância da visita dele na Casa Branca foi praticamente nula”, afirma, explicando que a imprensa internacional quase não deu destaque à presença do jogador, reduzindo-a a uma frase de Trump sobre o filho ser seu fã.
Ricardo Monteiro considera que Cristiano Ronaldo acredita ter mais influência política do que realmente tem e vive “numa espécie de bolha onde ninguém tem coragem de lhe dizer que talvez não seja a decisão mais apropriada”.
"Eu acho que esta visita foi só prejuízo para Ronaldo, sinceramente. Acho errado ele ter sido incluído ou, melhor, ter-se incluído numa comitiva da Arábia Saudita à Casa Branca, porque foi isso que aconteceu. Não me parece que ele tenha obrigações contratuais que o levem a ser obrigado a aceitar um convite destes. Não estava lá mais nenhuma celebridade saudita".
Para o comentador da CNN Portugal, a confusão maior está na forma como o internacional português se vê a si próprio: "Ronaldo vive numa espécie de bolha onde se pensa acima de tudo e de todos. Ele tem de perceber que representa o país onde nasceu e a Seleção onde joga. Ele não é uma força diplomática, não deve fazer luzir um país apenas porque lá reside. Tem de ter noção exatamente do espaço que ocupa. Ronaldo, aliás, como Donald Trump, vive numa espécie de Olimpo ".
Apesar da pouca repercussão internacional, a presença do jogador na Casa Branca teve um grande impacto em Portugal. Ricardo Monteiro considera que isso evidencia que a visita "tocou um nervo sensível de muitos portugueses" e que o jogador "cometeu um erro de imagem que vai transportar até aos 100 anos".
"Não vão ser os sauditas que o vão acolher na sua velhice, não vai ser o futebol saudita que o vai transportar para a nossa memória futura. Ele devia ter noção disto. Se se sente saudita, então que vá jogar pela seleção da Arábia Saudita", atira.