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Este país não é para trabalhar, já não é para viver e muito menos para morrer

21 abr, 08:00

Aos 90 anos, Maria Gracinda sofre de insuficiência cardíaca, hipertensão e osteoporose. Uma crise nos níveis de sódio e potássio quebraram-lhe as pernas e levaram-na para as urgências de um hospital público. E uma triagem mal feita deu-lhe uma pulseira verde e nove horas de espera. Com o estado de saúde a degradar-se, a família não pensou duas vezes. Pegou em Maria Gracinda e levou-a para um hospital privado.

O atendimento e o diagnóstico foram quase tão rápidos a aparecer como o orçamento. Seriam precisos “uns milhares de euros” para Maria Gracinda — que nunca teve seguro de saúde — poder ficar ali internada, fazer os exames e os tratamentos de que precisava. Solução? Chama-se a ambulância e segue recambiada para um outro hospital público.

Entra pelas urgências e é por lá, pelos corredores, que fica durante as noites seguintes. Quartos? Não há. Camas, muito menos. O tratamento que recebe é o possível, dada a quantidade de urgências que entram por ali a todas as horas. A comida? Totalmente desadequada às necessidades. Maria Gracinda foi para o hospital para ficar melhor, mas vai piorando a cada dia que passa.

A família mexe-se como pode para a retirar dali, até porque os riscos de infeção hospitalar são elevados. É preciso aguardar vaga num outro hospital público que a possa receber, e isso não é fácil. O hospital para onde Maria Gracinda haverá de ser transferida é o quarto no espaço de poucos dias.

Já com os níveis de sódio e potássio estabilizados, o ideal seria ir para uma unidade de cuidados continuados, mas a espera é, no mínimo, de três meses para encontrar colocação. O hospital pressiona a família para tirar dali Maria Gracinda, mas ela não pode ir para casa sozinha. Precisa de ajuda e de cuidados de saúde. Um lar público também poderia ser uma opção, mas aí o tempo de espera pode chegar aos três anos. Isto, claro, se não puder pagar um privado. Aí, a vaga é mais rápida. E a fatura mensal mais alta. 1.500 euros para início de conversa, mas pode chegar ao dobro. Só pelo quarto. Fora os tratamentos. Mas como, se a reforma de Maria Gracinda é de pouco mais de 500 euros?

Sei bem que esta pequena história não tem nada de original. Que Portugal é um país de “Marias Gracindas” que trabalharam a vida toda, a quem a revolução de Abril prometeu um país mais próspero e mais justo e que agora se sentem abandonadas. Maltratadas.

A falência do Estado social tem um efeito de contágio entre gerações. Os problemas dos velhos somam-se aos problemas dos filhos e dos netos, também eles a tentar sobreviver num país de baixos salários, uma carga fiscal elevadíssima, sobrecarregados com burocracia e com uma ausência de respostas públicas em áreas como a saúde, a educação ou a habitação, só para citar alguns exemplos.

“É preciso estimular a natalidade”, ouve-se repetidamente num país onde encontrar uma creche é como encontrar ouro no Rio Tejo, e onde uma parte significativa do salário serve para pagar ao privado os serviços que já pagámos em impostos ao Estado.

Mais uma vez, o contágio é evidente. A falência do Estado arrasta consigo também o setor privado, que nunca faturou tanto à custa da ineficiência do setor público, mas que também já está a rebentar pelas costuras. As urgências dos hospitais privados começam a ficar parecidas com as dos hospitais públicos, com a diferença de que o “hotel” é de melhor qualidade. As escolas privadas continuam a abrir como cogumelos, para dar vazão a tanta procura. Os centros de cuidados continuados e os lares privados começam a ter listas de espera — não tão longas como os públicos, mas, em caso de urgência, já não basta mostrar o cartão de crédito. É preciso esperar.

António José Seguro dizia, esta semana, durante a sua primeira visita oficial a Espanha, que Portugal é um bom país para se viver, mas ainda não é um bom país para se trabalhar. Percebo o que o Presidente da República quer dizer, sei que tem de o dizer, mas, infelizmente, já nem para viver este país serve.

Viver ou trabalhar em Portugal está a tornar-se uma tormenta. Para os jovens, para os de meia idade e para os velhos. Para pobres, remediados, para a classe média e até para os ricos, seja lá o que isso for neste país. O nosso falhanço enquanto nação está a alastrar-se a todos os setores da sociedade, como uma bactéria que toma conta de um corpo moribundo e lhe vai, progressivamente, desligando os órgãos até o aniquilar por completo. É neste país que é bom viver? É aqui que os jovens, que um dia emigraram, um dia vão querer morrer?

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