ANÁLISE || Por um lado há a condição política de Montenegro para se candidatar a primeiro-ministro, mas por outro lado há a condição moral - a falta dela? Se o ponto de interrogação passar a ponto final, então entramos em território sinuoso. E as próprias condições políticas já foram substancialmente melhores
As chamadas e trocas de mensagens entre militantes do PSD não param há quase três semanas: trocam-se opiniões, críticas e desabafos, debatem-se cenários reais e hipotéticos, uniformiza-se uma posição geral. “O doutor Luís Montenegro vai ser candidato [a primeiro-ministro] e vai ter o apoio das estruturas [distritais] do partido, mas os militantes estão muito dececionados”, diz à CNN Portugal uma antiga governante e militante do PSD.
A polémica em torno da empresa familiar de Luís Montenegro apanhou muitos de surpresa e outros tantos ficaram depois surpreendidos com a gestão feita do caso pelo próprio primeiro-ministro, já criticada publicamente por senadores do partido, como Miguel Relvas, que admitiu que Luís Montenegro “cometeu erros” - nem sequer é "erro", é plural mesmo. No Prime Time da CNN Portugal, Miguel Relvas garantiu que “o PSD está unido com este candidato [Luís Montenegro], tem condições e o partido dar-lhe-á todas as condições para ganhar as eleições”, embora admita que durante o debate da moção de confiança “houve um excesso de teatro”, tendo o PSD chegado a um ponto em que “passou o limite”.
A antiga governante do PSD diz à CNN Portugal que, “no início da questão, há mais ou menos três semanas, as pessoas dentro do partido achavam que havia um ataque [ao primeiro-ministro]”. “Ele vitimizou-se como costuma fazer o doutor Rui Rio, uma atitude muito típica de alguns políticos, mas que é inaceitável, pois há que esclarecer a situação. Mas depois a questão avolumou-se.” À medida que foram reveladas novas informações sobre a atividade da Spinumviva, a “forma como o doutor Luís Montenegro encarou a situação” começou a não cair bem dentro do partido. “Sobretudo as novas gerações, na casa dos 30-40 anos, ficaram atónitos, perplexos, entendem que Luís Montenegro não tem condições para ir a eleições, não tem condições políticas”. Mas não são apenas os mais novos que estão a tentar entender o que se está a passar: “Sei que Pedro Passos Coelho almoçou com José Matos Correia e que os dois estavam absolutamente perplexos”.
Em declarações à Rádio Renascença, o histórico social-democrata António Capucho defende que uma alternativa a Luís Montenegro “depende dos militantes do PSD”, mas acrescenta que “tudo indica que o partido está unido” - aliás, essa é uma mensagem que os próprios ministros têm tentado passar nas múltiplas idas às televisões a que se têm prestado.
Neste contexto, a antiga governante e do militante do PSD considera que a condição política para Luís Montenegro ser o candidato a primeiro-ministro do partido pode ser assegurada pelo medo de “instabilidade” dentro dos próprios sociais-democratas, que se debatem com isto: “Temos uma contradição insanável dentro do partido: o Governo é bom e [os militantes] pensam que devia continuar, mas não querem que haja instabilidade política e eleições”. Apesar de a mensagem que passa cá para fora ser de união, dentro do partido há, na verdade, opiniões distintas. “Muitos antigos militantes e dirigentes estão muito perplexos, entendem que não há condições políticas [para se candidatar], porque mesmo que ele ganhe continua a questão da CPI, que podem voltar a surgir na nova legislatura.” O PS já disse que o vai fazer.
Pedro Silveira, professor de Ciência Política na Universidade da Beira Interior, olha para as condições políticas de Luís Montenegro para se candidatar novamente como primeiro-ministro como resultado de uma falta de “vontade para haver uma alternativa” e pelo próprio partido entender que é “arriscado mudar de líder”, apesar de não faltarem “nomes”, como revela à CNN Portugal a antiga governante e militante do PSD. “Apresentam-se vários nomes, um deles é o Paulo Rangel. Outro é o Miguel Poiares Maduro”, conta, revelando que entre as conversas que tem tido nos últimos dias com os seus colegas de partido há ainda quem aponte Manuel Castro Almeida, atual ministro Adjunto e da Coesão Territorial - “que não estava muito bem na fotografia mas conseguiu explicar a sua situação [empresarial]”.
Apesar de ter consciência de que há nomes a circular dentro do partido - apontando Moreira da Silva como um potencial candidato -, o politólogo acha “difícil” que o PSD vá “avançar com um novo candidato, era preciso que o PSD tivesse uma clara noção de que Luís Montenegro prejudicaria muito as possibilidades de vencer as eleições”. “Este é um momento em que os partidos basicamente se unem em torno de um líder, isso aconteceu em vários momentos e partidos em que as lideranças estavam fragilizadas. Os partidos acabaram por se unir e a coligação de forças dentro do PSD foi criada por Luís Montenegro, por isso é natural que o partido tenha um instinto de união, o que retira incentivos a quem podia [querer] disputar [a candidatura a primeiro-ministro]. Essa pessoa seria vista como divisionária.”
“Candidatando-se é colocar os portugueses a legitimar falhas e omissões éticas graves”
Paula Espírito Santo, especialista em Sociologia Política e professora e investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), considera que a questão da integridade fragiliza Luís Montenegro. “Não é uma situação fácil a nível moral. Em política, é importante que haja a melhor capacidade possível não só de entrega, mas também de transparência do próprio processo político. E aqui há uma mancha, uma nódoa, dúvidas que continuam por clarificar. Assim sendo, em comparação com o anterior primeiro-ministro - que se demitiu logo por causa de um parágrafo que não teve consequências -, está a haver um desgaste desnecessário do ponto de vista público e político e Luís Montenegro devia tirar conclusões sobre isso, se deve ou não merecer a confiança do eleitor - até do ponto de vista político e moral.”
Sobre o papel do eleitor neste processo, o politólogo Pedro Silveira é direto e crítico no ónus da responsabilidade que o primeiro-ministro coloca sobre os portugueses, sobretudo pela convicção de que vencerá: “O que Luís Montenegro está a fazer candidatando-se é colocar os portugueses a legitimar falhas e omissões éticas graves. Acaba por chamar os portugueses a um papel que não é um papel das eleições - o papel das eleições não é normalizar falhas e omissões éticas. [Luís Montenegro] tem uma empresa que foi fundada por ele, que é funcionalmente dele... isto torna a questão ética objetiva, independentemente da questão legal”, refere o politólogo. “É uma questão de ele não ter tido a noção de que era absolutamente necessário não se colocar numa situação de risco e integridade. Ele colocou-se nessa situação, sendo candidato vai colocar os portugueses a normalizar ou a tentar que legitimem essa falha pessoal, essa falta de ética grave e objetiva.”
Para Paula Espírito Santo, a questão moral pode ser um fator decisivo para o eleitorado, mesmo que a questão da confiança política seja assegurada pelo PSD. “Embora haja uma parte do eleitorado que ainda procura mais explicações, há outro, o fiel ao PSD, que está plenamente convencido [na vitória], independentemente de quem seja o líder. Mas há sempre uma fatia do eleitorado mais volátil que pode desacreditar a figura do primeiro-ministro pela falta de transparência e clarificação. E se as dúvidas continuarem a subsistir, desacreditam o primeiro-ministro e o sistema eleitoral, e é aqui onde se alimentam as alternativas não democráticas.”
