CIP está em contacto “com as partes envolvidas” para impedir um erro que pode custar caro ao país. Em entrevista exclusiva a O Mistério das Finanças, da CNN Portugal e do Eco, Armindo Monteiro diz que “ainda é possível travar eleições”. Precipitá-las "é uma rejeição dos portugueses e das empresas" e já temos uma situação "difícil o suficiente para inventarmos uma crisezinha"
“É preciso dizê-lo com estas letras”, dispara Armindo Monteiro: “É um taticismo político ou partidário onde, à custa do voto, se sacrifica um país”. Na perspetiva da CIP, “não há razões para haver eleições”. E como fazer considerações não basta, a organização entrou em ação. E está a tentar persuadir as partes a desarmar o conflito e evitar eleições antecipadas.
As declarações de Armindo Monteiro, presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, foram feitas ao programa O Mistério das Finanças, que pode ser visto este sábado na CNN Portugal ou em podcast do ECO.
“Há razões para escrutínio, o escrutínio é uma regra importante da democracia, mas não nos parece que essa necessidade de escrutínio tenha que deitar o país abaixo e ir para eleições”, diz. Daí que “acreditamos que é possível evitar eleições, e aquilo que tem sido a nossa ação é exatamente nesse sentido, de procurar o interesse comum. E o interesse comum é evitar a todo custo que haja eleições.” Aliás, é possível esclarecer tudo sem uma comissão de inquérito, crê. “Se o Primeiro-Ministro esclarecesse, não era necessária uma comissão de inquérito.”
Qual é a ação da CIP? “O que estamos a tentar é, junto das partes, que haja um entendimento em relação ao muito que une e não ao pouco que separa. Isso significa que é importante que as partes conversem e que consigam - volto a dizer, sem prejuízo do escrutínio que houver que ser feito, mas que não leve a uma rejeição, como neste momento está a acontecer, dos portugueses e das empresas. Porque ir para eleições nesta altura é uma rejeição dos portugueses e das empresas, porque neste momento já temos uma situação difícil o suficiente para ainda estarmos nestes jogos florais, para inventar uma crisezinha. Não faz sentido.”
“Nós somos um país pobre. Ao contrário de outros, temos um percurso enorme a fazer. E no momento de uma convulsão mundial, inventamos crises internas. E é altura da sociedade portuguesa - as empresas, as famílias e as pessoas que recebem um salário ao final do mês - dizerem que as empresas não vão a eleições”, afirma o presidente da confederação dos patrões.
“Chega desta indefinição”, desabafa. “As empresas não vivem de sombras nem vivem de perceções. As empresas vivem numa realidade económica. As empresas não vivem numa abstração intelectual, onde tudo é possível e tudo é discutido na retórica, na demagogia.”
“Ainda vamos a tempo. Até terça-feira é possível ainda evitar uma crise”.
Para Armindo Monteiro, não se vê ilícito no comportamento do primeiro-ministro, que aliás poderia vir a reconhecer isso sim que pode ter cometido um erro. “Eu creio que ele foi temerário”, diz, “mas creio que a sua integridade, enquanto gestor da coisa pública, não está em causa”.
A instabilidade política poderá por em causa a economia, o PRR, as decisões de investimento, e até o acordo feito em concertação social de aumentar salários 20% em quatro anos. “Para isso, é preciso que também a economia cresça em igual montante”, diz Armindo Monteiro.
O presidente da CIP assume o papel de intervenção mas recusa qualquer interferência política.
“Uma confederação empresarial, às vezes, há territórios que se supõe que não deve habitar. Nós entendemos que isto não é política. E muito menos política partidária. É o interesse do país”, diz. “E sempre que estiver em causa o interesse do país, a Confederação estará presente, sendo sempre parte da solução e nunca parte do problema”. Tanto que, argumenta, “quando foi da queda do governo de António Costa, nós também nos manifestámos a favor de uma tranquilidade no Parlamento. E, portanto, com a mesma legitimidade que o fizemos na altura, o fazemos agora. Portanto, ninguém nos pode acusar de interferência política.”
O Mistério das Finanças é um programa semanal, resultado de uma parceria entre o Eco e a CNN Portugal. Pode acompanhar todos os episódios na TV, no digital ou em podcast nas plataformas habituais.