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Cordeiros de Costa que tiram o pecado do governo, tende piedade de nós

12 jan, 09:57
António Costa (Miguel A. Lopes/Lusa)

Não fosse a Assembleia da República um antigo convento beneditino, a alegoria talvez caísse a despropósito. O facto é que não cai ‒ nem o governo, nem o despropósito. Eventualmente inspirado em São Bento, ironicamente padroeiro da Europa, lá está ela, o sr. primeiro-ministro transcendeu-se no debate de ontem no parlamento. O objetivo, bastante cristão, não menos político, era um: a salvação. E António Costa alcançou-a em pleno.

Volvida uma semana de calvário governamental, o governo superou o martírio, evitou a cruz e regressou ao seu estado natural. O PSD pedira a Costa para continuar a governar e o primeiro-ministro não se fez rogado: assim continuou. Fernando Medina? Explicou-se. Maria do Céu Antunes? Idem. Gomes Cravinho? Nem mencionado. Uma alma mais desinformada que houvesse decidido conhecer a casa poderia perguntar-se, com inteira justiça, na tarde desta quarta-feira:

‒ Crise política? Qual crise política?

Na moção de censura, António Costa fez de tudo para o debate se focar nos resultados e não nos ministros. Uma semana depois, a oposição fez-lhe a vontade. Excetuando o Chega, e só a princípio, o primeiro-ministro teve ontem a vida facilitada. O PS passou, pé ante pé, entre as gotas da chuva. Regressando à epístola original: salvou-se. Não através de um ato de contrição, que este é um governo que não pede desculpa, mas de um rito sacrificial. As suas vítimas? Convenientemente, Alexandra Reis e Rita Marques. Os absolvidos? Todos os demais.

Ao sacrificar as secretárias de Estado que saíram, António Costa procurou proteger todos os outros, que ficaram. “Houve uma violação do estatuto do gestor público quando a senhora engenheira [Alexandra Reis] foi nomeada para a NAV e não procedeu à reposição de parte da indemnização que tinha recebido [da TAP]”, afirmou Costa, citando o artigo 26º do estatuto. Ora, tal é absolutamente verdade, ainda que esqueça o essencial: Alexandra Reis não se auto-convidou para o governo. Foi Medina que convidou para secretária de Estado do Tesouro alguém que, fazendo fé em Costa, ainda deve dinheiro ao Tesouro.

Mas o impacto estava lá todo, como cortina de fumo feita de holofotes.

Acrescentando-lhe a condenação taxativa (“Não me revejo na atitude”) de Rita Marques, que ainda nem contrato assinou, o primeiro-ministro salvou o rebanho, entregando dois membros que dele já não faziam parte.

No altar da sobrevivência, afinal, vale tudo e ninguém tem perdão garantido.

Para citar um infame publicitário, “quando não gostas do que está a ser dito, muda o tema de conversa”. E Costa fez exatamente isso ontem. Matou o que já estava enterrado.

Se a isto juntarmos o tempo que já se gastou a falar do “mecanismo de escrutínio de governantes”, quando todas ‒ todas ‒ as demissões desde Miguel Alves tiveram origem em situações já públicas, somos forçados a interrogar-nos:

Será que os cordeiros estão todos dentro do governo?

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