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O que se passou? Dicionário de uma crise no Governo em que alguém mentiu

1 jul, 00:04
Pedro Nuno Santos e António Costa

Na maior crise política desde que António Costa é primeiro-ministro ‒ este foi o irrevogável do PS ‒, não há isentos de culpa e quase todos roçaram a inverdade

Pedro Nuno Santos, cansado de esperar pelo PSD (nem Rio lhe deu a mão para resolver o impasse) e indisponível para tolerar Montenegro (que deu a aproximação do PS como sinal de incompetência), avançou com uma solução para algo que se arrasta há demasiado tempo: o novo aeroporto.

Fê-lo, ao que se consegue apurar, de forma unilateral. Mas não o fez, como se ouviu pela voz de vários deputados do PS, de forma desapoiada. A iniciativa de Pedro Nuno ‒ o descartar do apoio do PSD, a solução do Montijo até se concluir Alcochete ‒ teve apoio da bancada socialista e de algumas personalidades, compreensivelmente preocupadas com a sangria turística que as lacunas da Portela provocam. Não teve, todavia, o apoio de que mais precisava: do primeiro-ministro.

António Costa não gostou e fê-lo saber. O comunicado que lançou, exigindo a revogação do despacho do seu ministro, seria politicamente fatal para qualquer um ‒ menos para Pedro Nuno Santos. O passo não foi maior do que a perna; foi maior do que a pasta. Para Costa, Pedro Nuno no Governo é menos perigoso do que Pedro Nuno no parlamento. Para o país, não sabemos. E Marcelo Rebelo de Sousa lembrou-o no Palácio de Belém.

Costa não manteve Pedro Nuno por manter a confiança política no ministro; Costa não demitiu Pedro Nuno por manter a desconfiança política no político. O recuo, na verdade, é de ambos. De Costa, que cede em autoridade para evitar uma exoneração ao fim de três meses de maioria absoluta. E de Pedro Nuno Santos, que abdicou da coerência em que se baseia qualquer credibilidade.

Ficámos, no fim do dia, sem saber: quem está a faltar à verdade? O ministro, que diz que “o procedimento e o objetivo” estavam acordados no governo? O primeiro-ministro, que diz que ainda estava tudo em aberto? O novo líder da oposição, que desconsidera o tema? O Presidente, que lamenta não saber de coisa nenhuma? Não sabemos. 

Quando Costa se candidatou a primeiro-ministro, em 2015, prometeu uma maioria de dois terços na Assembleia para qualquer grande obra pública. Pedro Nuno foi secretário de Estado desse Governo, eleito com essa premissa, e é ministro de um homem que recupera agora esse pressuposto. Até Luís Montenegro, com fome evidente de oposição, liderou um grupo parlamentar que chegou a dialogar com o PS acerca de um novo aeroporto. Por mais itinerante que seja o posicionamento do Partido Socialista em relação ao PSD ‒ de nunca para às vezes e de às vezes para obrigatoriamente ‒, é Costa, como primeiro-ministro, que detém o poder de geri-lo.

O ponto que desvenda o enigma desta crise está aí: porque arriscou Costa uma crise política desta envergadura em nome de negociar com Luís Montenegro o novo aeroporto? Para abrir a porta da demissão a Pedro Nuno? Não faz sentido; reconduziu-o há três meses. Para reafirmar a sua força enquanto primeiro-ministro? Não funcionou; reafirmou tanto quanto perdeu.

Não é a explicação mais básica que esclarece o comportamento de Costa. É, numa palavra, o futuro. É a crise que vem aí. É a recessão de 2023. É não querer que seja a sua maioria absoluta ‒ sozinha e acossada pelos ex-parceiros de ‘geringonça’ ‒ a presidir aos anos difíceis que se avizinham. É querer trazer o PSD, não para o centro da negociação, mas para o centro de um furacão onde não quer deixar o seu governo sozinho.

O problema é que essa cautela, esse pragmatismo, choca frontalmente com o PS alérgico ao centro-direita, que prefere o risco à inércia, a mudança à tática, a esquerda ao PSD.

E esta não foi a última vez que Pedro Nuno Santos corporizou esse choque.

Esta é uma crise que começou ‒ e não acabou ‒ no dia de hoje.

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