A crise da Gronelândia com Trump mudou para sempre a relação entre os EUA e a Europa

CNN , Issy Ronald, Nick Paton Walsh, Clare Sebastian e Joseph Ataman
23 jan, 10:29
O Presidente dos EUA, Donald Trump, recuou na ameaça de ocupar a Gronelândia durante o Fórum Económico Mundial em Davos. Emilio Morenatti/AP/File

 

 

A postura de Trump em relação à Gronelândia provocou uma crise irreversível nas relações entre os Estados Unidos e a Europa, levando a tensões na NATO e a desafios comuns de segurança e diplomacia

A postura de Donald Trump em relação à Gronelândia alterou de forma irreversível a relação transatlântica, mesmo depois de o presidente norte-americano ter recuado, na quarta-feira, das ameaças de uma tomada de controlo dos Estados Unidos sobre o território autónomo dinamarquês, disseram responsáveis europeus à CNN.

Um diplomata europeu, falando sob anonimato, descreveu a última semana como um “redemoinho de absurdos que prejudica as relações transatlânticas, desvia atenções da Ucrânia e deixa a China e a Rússia muito satisfeitas”.

As tensões entre os Estados Unidos e os seus aliados europeus, unidos pelo guarda-chuva de segurança coletiva da NATO, atingiram um ponto crítico no fim de semana passado, quando Trump ameaçou impor tarifas aos países que se opunham às suas ambições de anexar a Gronelândia, uma vasta ilha do Árctico de grande importância estratégica que pertence à Dinamarca há séculos.

A Dinamarca e os seus aliados europeus recusaram ceder às exigências de Trump e ponderaram a utilização de medidas comerciais de retaliação, criando um ambiente tenso no Fórum Económico Mundial, em Davos, esta semana.

Trump afastou o recurso à força militar para anexar a Gronelândia no seu discurso principal em Davos, na quarta-feira, e acabou por abandonar as tarifas ameaçadas, anunciando “a estrutura de um futuro acordo” sobre a ilha, após uma reunião com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte.

Ainda assim, o caos diplomático desencadeado nas últimas duas semanas continua a fazer-se sentir, com profundas implicações para a relação económica e diplomática entre os Estados Unidos e a Europa. Um grupo-chave de eurodeputados bloqueou, na quarta-feira, uma votação para ratificar um acordo comercial entre os EUA e a Europa, sublinhando as tensões entre os aliados transatlânticos.

O secretário-geral da NATO, Mark Rutte (à esquerda), é visto a falar com o Presidente da Finlândia, Alexander Stubb. Markus Schreiber/AP

“A confiança foi seriamente abalada, e isto vai demorar tempo a reparar”, disse à CNN a vice-primeira-ministra sueca, Ebba Busch.

“As últimas semanas, para além de um primeiro ano muito turbulento, foram muito prejudiciais para a relação entre a União Europeia, a Europa e os Estados Unidos.”

Ainda assim, refletindo a corda bamba diplomática em que a Europa se move, alguns líderes europeus sublinharam a importância da aliança transatlântica, mesmo na sua forma atualmente fragilizada.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, apelou à Europa para renovar a confiança na NATO, apresentando a aliança como crucial para que o continente — e os Estados Unidos — consigam navegar numa nova ordem mundial cada vez mais ditada pela força.

“A antiga ordem mundial está a desmoronar-se a um ritmo vertiginoso”, afirmou num discurso proferido na quinta-feira, em Davos.

“Temos de investir massivamente na nossa capacidade de defesa. Temos de tornar rapidamente as nossas economias competitivas. Temos de estar mais unidos, entre europeus e entre parceiros com os mesmos valores.”

Reiterou o apoio da Alemanha à Dinamarca e à Gronelândia, acrescentando de forma incisiva que Berlim defenderá “os princípios em que se baseia a parceria transatlântica — soberania e integridade territorial”.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, discursou em Davos na quinta-feira. Markus Schreiber/AP

Um responsável europeu adoptou um tom ligeiramente mais optimista em declarações à CNN, observando que, embora “tudo seja transacional e desagradável… ainda é possível alcançar bons resultados”.

E o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, sublinhou que “os países da NATO cooperam diariamente de forma muito próxima”.

“A Europa tem os seus desafios. Os Estados Unidos têm os seus desafios”, disse à CNN. “Mas são todos democracias fortes e aliados na NATO. … Temos uma grande segurança a proteger-nos e uma história muito orgulhosa de colaboração nesse domínio.”

A própria aliança da NATO remonta a 77 anos, período durante o qual as estruturas de segurança americanas e europeias se tornaram interligadas. Dovilė Šakalienė, deputada lituana e antiga ministra da Defesa, afirmou que essa interligação é agora tão profunda que qualquer ruptura seria “como a separação de gémeos siameses, com uma probabilidade muito real de morte para ambos”.

“A Europa ainda não está pronta para ficar sozinha”, disse à CNN. “Serão necessários pelo menos cinco a dez anos até estarmos num nível algo semelhante ao das forças armadas dos Estados Unidos.”

O Presidente da Finlândia, Alexander Stubb, acrescentou que “é do interesse estratégico dos Estados Unidos permanecerem na NATO”, reconhecendo, no entanto, que os EUA têm suportado “a maior fatia da defesa da NATO”.

Numa entrevista à CNN, com Christiane Amanpour, afirmou acreditar que as tensões resultam de abordagens divergentes aos assuntos globais. A Europa prefere “o multilateralismo… a ordem liberal internacional, as instituições internacionais”, enquanto os Estados Unidos tendem para a “multipolaridade… acordos, transacções e esferas de interesse”, sugeriu.

No entanto, para o antigo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, as últimas duas semanas mostram que a relação transatlântica “tal como a conhecemos há décadas está morta”.

A Europa terá de atravessar um período de “confronto político” com os Estados Unidos enquanto se reafirma, afirmou  à CNN, antes de uma cimeira de emergência de líderes da União Europeia convocada para discutir as ameaças de Trump relativas à Gronelândia.

“Queremos ser um vassalo, um vassalo humilhado, para sempre, ou queremos ser donos do nosso destino?”, questionou.

Michel, cujo mandato à frente do Conselho Europeu, entre 2019 e novembro de 2024, coincidiu com o primeiro mandato de Trump, afirmou acreditar que os líderes europeus precisam agora de uma nova abordagem em relação ao presidente norte-americano.

“Nos últimos meses, aquilo que fizemos, sinto que foi um erro”, considerou. “Optámos por… uma diplomacia lisonjeira. Decidimos agradar à Casa Branca. E qual foi o efeito? O único efeito foi alimentar cada vez mais ambição e uma escalada cada vez maior da retórica. … Não funciona.”

Charlotte Reck, Erin Burnett, Christiane Amanpour e Jim Sciutto, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

E.U.A.

Mais E.U.A.

Mais Lidas