Ficou nos anais da política portuguesa uma frase de Luís Montenegro, em 2013, quando o então líder da bancada do PSD afirmou, a propósito dos resultados da governação de Passos Coelho, que “o país está melhor, os portugueses é que não”. O soundbyte tornou-se quase um insulto à inteligência dos milhões de portugueses que estavam desempregados, a emigrar ou em desespero económico e acabou por se tornar numa daquelas gaffes que se colam à pele e que dificilmente o tempo ajuda a limpar. O debate quinzenal desta semana foi uma espécie de reedição deste discurso.
A bem da honestidade intelectual, é preciso dizer-se que, perante uma crise como a que estamos a viver, nenhum Governo faz milagres. O conflito no Médio Oriente — que se soma a uma guerra na Ucrânia que já leva quatro anos — está a ameaçar a economia mundial de forma muito séria, e os primeiros impactos não só já se estão a sentir, como parecem ser galopantes. A subida vertiginosa dos preços dos combustíveis tem reflexo em toda a cadeia económica, e os preços, sobretudo dos combustíveis e do cabaz alimentar, dispararam. Nenhum país está imune às consequências da crise que se avizinha, muito menos um pequeno país, com uma pequena economia, como Portugal.
As medidas de mitigação que estão a ser tomadas em toda a Europa não são, nem nunca serão, suficientes. Nenhum país conseguirá absorver por completo os efeitos económicos das loucuras de Donald Trump ou os desejos imperialistas de Vladimir Putin. A manter-se esta tendência de fragmentação da economia mundial, os impactos sobre as famílias e empresas são absolutamente imprevisíveis — e, potencialmente, catastróficos.
De alguma forma, Luís Montenegro disse-o no último debate quinzenal, e tem razão. Nenhum governo, responsável, pode amortizar, por completo, a subida galopante dos preços, sob pena de estar a criar um problema maior no futuro. E devia ter-se ficado por aqui.
Em vez disso, Luís Montenegro e Hugo Soares decidiram pintar um quadro completamente surrealista da vida nacional. Os rendimentos estão a crescer, os impostos estão a descer, dois anos de governação da AD e o país está hoje muito melhor. A estratégia, de quem parece estar em permanente campanha eleitoral, corre não só o risco de voltar a insultar a inteligência dos eleitores, como aconteceu em 2013, mas tem o perigo acrescido de se virar contra o próprio Governo.
Nem Luís Montenegro, nem Hugo Soares, nem ninguém, conseguem antecipar, neste momento, o que aí vem. As principais instituições internacionais estão todas a rever em baixa as previsões de crescimento mundial. A incerteza é a única certeza que temos, neste momento.
Aconselharia a prudência — e a experiência, já agora — que o discurso do Governo e dos partidos que o suportam fosse mais realista e sincero com o país. Sem dramatismos, nem alarmismos. Mas assumindo, por exemplo, que se os combustíveis em Portugal são substancialmente mais caros do que em Espanha, isso deve-se à diferença fiscal entre os dois países. E que nenhum Governo — do PSD ou do PS — conseguiu, até hoje, criar condições para que os cofres do Estado pudessem abdicar destas receitas.
Continuar a dizer que os rendimentos dos portugueses estão a crescer por via da descida do IRS ou do aumento das pensões, quando, em parte ou em todo, esse rendimento já foi comido pela inflação, é tentar manter uma narrativa que já não tem adesão à realidade.
Ou quando o único discurso que se tem para as empresas é o da descida de 2 pontos percentuais no IRC, quando os empresários estão hoje confrontados com aumentos brutais dos custos de produção e continuam a enfrentar um monstro chamado máquina do Estado, é curto. Muito curto.
Estamos quase a chegar a maio e o Ministério das Finanças estará, por esta altura, a iniciar os preparativos para o Orçamento do Estado de 2027. Joaquim Miranda Sarmento já começou a preparar o país para um cenário de défice este ano e ainda ninguém ouviu o Governo pré-anunciar novas baixas do IRS para o próximo, muito menos a comprometer-se com novos aumentos reais das pensões. Os silêncios, nesta fase, falam mais alto do que a propaganda que o primeiro-ministro leva ao Parlamento a cada debate quinzenal.
Os próximos meses vão ser críticos para perceber o verdadeiro impacto das ações tresloucadas de Donald Trump na economia do mundo. Mas, assumindo que neste momento ninguém quer eleições, talvez não fosse má ideia o Governo largar este estado de campanha permanente e começar a falar a sério com o país. Tratar os eleitores como se fossem estúpidos não costuma dar bom resultado.