À medida que o impacto desigual da escassez de petróleo na Ásia aprofunda a divisão, economistas alertam para consequências significativas na política monetária
Na Coreia do Sul, a crise global no abastecimento energético teve um forte impacto. As autoridades aconselharam à poupança de energia, reduziram previsões de crescimento e alertaram para as consequências da inflação elevada e da desvalorização da moeda nacional para mínimos de 17 anos. Ainda assim, as maiores empresas do país estão a acumular lucros recorde, enquanto o mercado bolsista atinge máximos históricos.
A contradição evidencia como, na Ásia, coexistem atualmente duas realidades económicas.
O choque petrolífero histórico provocado pela guerra no Irão está a acelerar uma divergência económica em toda a região. Uma das realidades é impulsionada pelos gigantes tecnológicos e pelas promessas da inteligência artificial. A outra é marcada pela escassez de combustível e pela subida dos preços, ameaçando desencadear uma crise humanitária.
À medida que o impacto desigual da escassez de petróleo na Ásia aprofunda a divisão, economistas alertam para consequências significativas na política monetária, na estabilidade política e no crescimento económico futuro em todo o continente — e noutras partes do mundo que dependem da região para o comércio.
“Sim, a economia está em expansão, os mercados acionistas estão a ter um desempenho muito positivo, mas vemos um efeito muito limitado dessa riqueza nas atividades do dia a dia na região”, referiu Benson Wu, economista especializado na Coreia e China no Bank of America Merrill Lynch. “Acho que isso preocupa bastante muitos observadores.”
A disparidade reflete o agravamento das desigualdades, primeiro acentuadas pela pandemia de Covid-19 e agora pelo conflito no Médio Oriente. O tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, por onde normalmente passa um quinto do petróleo bruto mundial, praticamente secou nos últimos dois meses, levando os preços do petróleo para máximos de quatro anos.
A Ásia, fortemente dependente do Médio Oriente para abastecimento energético, foi das regiões mais afetadas por essa subida de preços. No entanto, o impacto não é uniforme. Economias avançadas e altamente tecnológicas da Ásia Oriental, como Japão, Coreia do Sul e Taiwan, dispõem de maiores reservas de combustível e de capacidade financeira para suportar preços mais elevados e garantir abastecimento.
Por outro lado, países como Índia, Filipinas e Tailândia, cuja economia depende sobretudo da indústria transformadora tradicional e dos serviços, enfrentam maiores dificuldades para assegurar combustível e compensar o abrandamento económico.
“Estas são regiões que, em primeiro lugar, não estão a beneficiar tanto das vantagens associadas à atual corrida da inteligência artificial e da tecnologia. E, em segundo lugar, estão potencialmente mais expostas ao choque inflacionista provocado pelo conflito no Médio Oriente”, afirmou Wu. “É algo que devemos acompanhar com muita atenção.”
Divisão crescente
Os semicondutores já alimentavam tudo, desde smartphones a automóveis e eletrodomésticos, levando a indústria a ganhar a reputação de ser “o novo petróleo”. Agora, o boom da inteligência artificial está a acelerar ainda mais a procura.
Um relatório da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento projetou que o mercado global de inteligência artificial crescerá para 4,8 biliões de dólares até 2033 — um aumento de 25 vezes face a 2023. Já o Morgan Stanley estimou que os gastos com infraestruturas de IA poderão ultrapassar os 3 biliões de dólares nos próximos dois anos.
Os efeitos económicos são mais visíveis nas capitais mundiais da produção de chips.
O crescimento do PIB de Taiwan no primeiro trimestre atingiu um máximo de 39 anos, com 13,69%, enquanto o mercado bolsista ultrapassou o do Canadá, tornando-se o sexto maior do mundo. Grande parte destes ganhos é atribuída à gigante Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), responsável por mais de 40% da Bolsa de Taiwan.
O mercado bolsista de Seul também ultrapassou os de Londres e do Canadá nas últimas semanas, tornando-se o sétimo maior do mundo. As duas maiores empresas sul-coreanas, Samsung Electronics e SK Hynix, registaram lucros recorde nos primeiros três meses do ano, e a capitalização bolsista da Samsung ultrapassou um bilião de dólares.
A inteligência artificial exige elevados consumos energéticos, e a maioria dos polos tecnológicos asiáticos precisa de importar combustível e matérias-primas. Ainda assim, o enorme fluxo financeiro do setor tem reduzido receios sobre a capacidade de garantir abastecimento.
“As empresas de semicondutores conseguem repercutir estes custos adicionais nos clientes finais”, explicou Jason Lui, responsável pela estratégia de ações e derivados da Ásia-Pacífico no banco francês BNP Paribas. “A relação entre oferta e procura de semicondutores está muito desequilibrada, por isso ter acesso ao produto é mais importante, e estas empresas têm um poder de fixação de preços muito forte.”
Simon Woo, coordenador de investigação tecnológica para a Ásia-Pacífico no Bank of America, afirmou que, enquanto as grandes tecnológicas norte-americanas continuarem a investir em inteligência artificial, os fabricantes e fornecedores asiáticos de chips deverão continuar a prosperar. Acrescentou ainda que, perante o forte desempenho destas ações, os investidores já não ficam satisfeitos com os retornos oferecidos pelos setores tradicionais.
“Quando se olha para empresas ligadas à IA, se falamos de crescimento de 10% ou 20%, os investidores dizem: ‘Meu Deus, isso é muito pouco’”, sublinhou. “Na era da IA, pelo menos é preciso ouvir falar de crescimentos de 50% ou 100%.”
Economia em forma de "K"
Enquanto a febre da inteligência artificial continua, as populações mais vulneráveis da Ásia enfrentam consequências graves devido à guerra no Médio Oriente.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estima que o conflito colocou 8,8 milhões de pessoas na região Ásia-Pacífico em risco de cair na pobreza e poderá reduzir o PIB regional entre 0,3% e 0,8%.
O contraste acentuado passou a ser conhecido como “economia em forma de K”. O termo refere-se ao agravamento da diferença entre classes económicas superiores e inferiores, conceito popularizado após a pandemia de Covid-19, que afetou de forma desproporcional os grupos mais desfavorecidos. Economistas afirmam que a guerra no Irão está a produzir um efeito semelhante.
“Os mais pobres são os mais afetados nestes períodos de recessão e não beneficiam da mesma forma nas recuperações”, referiu Jayant Menon, investigador sénior visitante do instituto ISEAS – Yusof Ishak, em Singapura. “Essa desigualdade acumula-se e, de certa forma, alimenta-se a si própria.”
A dimensão dessa diferença dependerá das medidas adotadas pelos governos, bem como da duração da presença militar dos EUA e do Irão no Estreito de Ormuz. A corrida à inteligência artificial também poderá agravar a escassez energética, caso os centros de dados e a indústria desviem recursos energéticos de outros setores.
Mesmo nas economias que beneficiaram do boom da IA, a riqueza gerada não foi distribuída de forma equilibrada. Na Coreia do Sul, dezenas de milhares de trabalhadores da Samsung ameaçam fazer greve devido ao descontentamento com os salários. Ao mesmo tempo, o banco central alertou para o crescente desalinhamento entre a perceção económica da população e o crescimento do PIB.
O fenómeno da “economia em K” também chamou a atenção das autoridades de Taiwan este ano, explicou Kristy Hsu, diretora do Centro de Estudos ASEAN de Taiwan, do Instituto Chung-hua de Investigação Económica.
Segundo Hsu, a indústria dos semicondutores representa apenas cerca de 4% da força de trabalho de Taiwan, mas os salários de entrada podem ser até cinco vezes superiores aos de outros setores. Acrescentou ainda que a excessiva concentração num único setor pode retirar recursos, como eletricidade, a outras áreas da economia, agravando ainda mais o problema.
“Para o público em geral e especialmente para a indústria de semicondutores ligada à IA, todos falam deste futuro brilhante”, sublinhou. “Mas, para economistas e analistas como nós, consideramos que este é um risco muito sério para Taiwan.”
Consequências económicas
A combinação entre o boom da inteligência artificial e a crise energética coloca desafios inéditos aos governos, obrigando-os a lidar com uma economia cada vez mais fragmentada.
O agravamento das desigualdades salariais não só aumenta o risco de instabilidade social e política, como também ameaça a estabilidade económica a longo prazo, já que a concentração de riqueza reduz o poder de compra da maioria da população que sustenta a atividade económica.
Economistas afirmam que a perceção de crescimento constante tem escondido problemas estruturais profundos que podem agravar-se rapidamente.
“Isto é realmente uma nova questão”, afirmou Hsu. “Taiwan não pode prescindir da TSMC nem de toda esta alta tecnologia, mas esta crescente desigualdade entre grupos, famílias e setores precisa de ser resolvida.”
Ao mesmo tempo, os bancos centrais têm de encontrar um equilíbrio entre estimular o crescimento e combater a inflação, enquanto políticas monetárias desiguais entre países podem agravar ainda mais as desigualdades regionais.
“Define-se a taxa de juro com base num crescimento do PIB de 8%, porque um setor está a impulsionar tudo? Ou define-se a política monetária para os restantes 80% da economia que não estão a crescer?”, questionou Frederic Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC.
A dependência excessiva de uma única indústria torna as economias centradas no desenvolvimento tecnológico vulneráveis a correções de mercado, caso o crescimento da inteligência artificial abrande ou a escassez de matérias-primas comece a comprometer a produção de componentes eletrónicos.
No entanto, Neumann alertou que a continuação do aumento das desigualdades poderá ter consequências económicas sem precedentes.
“O risco é que esta recuperação em forma de K permaneça um K para sempre, sem qualquer reconvergência”, disse.
Embora os efeitos sejam atualmente mais visíveis na Ásia, Neumann afirmou que o abrandamento da indústria e da confiança dos consumidores acabará por afetar outras economias que dependem da região para o comércio.
Os Estados Unidos, mais protegidos dos choques nos preços dos combustíveis por serem o maior produtor mundial de petróleo bruto e gás natural, já vivem uma divisão semelhante. O investimento em inteligência artificial impulsionou o crescimento no primeiro trimestre, ao mesmo tempo que os preços dos combustíveis atingiram máximos de quatro anos e o consumo das famílias desacelerou.
“Estas tendências sociais de aumento da desigualdade salarial e de recuperação em forma de K na Ásia acabarão inevitavelmente por se refletir nos Estados Unidos”, afirmou Neumann. “É simultaneamente um impacto no crescimento e na inflação norte-americana, reforçando também a forma de K da economia dos EUA.”
*John Liu contribuiu para este artigo
