Alexis, Shaina e Matthew Broderick cresceram no culto apocalíptico liderado por Tony Alamo, no Arkansas, onde sofreram lavagem cerebral, violência e isolamento. Quase duas décadas depois da operação do FBI que os libertou, os irmãos falam à CNN sobre o medo, a desprogramação, a vida em acolhimento e a reconstrução das suas vidas
Alexis Broderick estava a voar.
O vento batia-lhe no rosto e as suas pequenas pernas esticavam-se cada vez mais alto, puxando-a para a órbita. Quando chegou aos céus, por um momento inebriante, conseguia ver tudo. Os carros. As árvores. As pessoas. O mundo real. Estava ali mesmo; visível, em lampejos, para lá da vedação do complexo. Ela não conhecia aquela sensação, mas permitiu-se senti-la mesmo assim. Liberdade.
Mas depois os baloiços voltaram à terra. O mundo cá em baixo era diferente: um líder de culto estava a prepará-la para ser sua mulher, recorda. A irmã tinha sido banida para a Casa do Escárnio, e o irmão estava de vigia, encarregado de manter intrusos afastados. Os amigos espiavam-na: um passo em falso e seria espancada, exilada ou pior. A vida era boa, claro: o mundo estava prestes a acabar, e o profeta de Deus prometera-lhe passagem para o céu. Mas, por vezes, em segredo, não parecia certo.
Por isso, Alexis, de 10 anos, voltou a empurrar-se para os céus, agarrando-se com força ao baloiço enquanto subia. Para lá da vedação, viu o subúrbio em todos os seus tons aborrecidos e belos. E então, numa das viagens até às nuvens, viu outra coisa: “Homens”, recorda. “Com metralhadoras.”
“Estavam a cercar completamente a propriedade”, recorda. Todas as saídas ficaram bloqueadas num instante. Não havia para onde fugir, mas ela fugiu mesmo assim, com os baloiços a entrelaçarem-se atrás dela enquanto se lançava em direção à casa. Chamou pelas mulheres de Tony, várias das quais correram para uma sala segura. Ele tinha avisado todos de que isto iria acontecer. “É isto”, pensou Alexis. “Vêm matar-nos.”
“É isto. Vêm matar-nos.”
Pensamento de Alexis Broderick ao ver guardas armados invadirem o complexo de Tony Alamo
O caos que rompeu aquela manhã tranquila de outono dividiria as vidas de Alexis, Shaina e Matthew Broderick.
Os irmãos tinham sido alvo de lavagem cerebral, abusos e aliciamento enquanto cresciam num culto liderado por Bernie Hoffman, um pregador apocalíptico e falso profeta conhecido pelo mundo como Tony Alamo. Depois foram atirados, aos pontapés e aos gritos, para o mundo real: um lugar que tinham aprendido a temer e a detestar.
Nos anos que se seguiram, confrontar-se-iam com o passado, sofreriam uma tragédia e viveriam vidas antes impensáveis. Os seus percursos cruzam-se, mas as suas histórias são únicas. E, depois de recusarem pedidos de entrevista durante quase duas décadas, partilharam essas histórias numa série de conversas com a CNN.
As pessoas deixam cultos, mas os cultos nem sempre as deixam. Durante anos, a voz de Alamo perseguiu os Broderick como uma sombra. “Vimos muitas coisas loucas, horríveis”, diz agora Alexis — coisas que não podem deixar de ser vistas.
A infância deles, apesar de todos os horrores, parecia por vezes a parte fácil. “Era tudo o que eu conhecia”, conta Alexis. O que veio depois foi muito mais complicado.
As duas faces de Tony Alamo
Alguns meses antes, o irmão de Alexis, Matthew, chegou sonolento ao pequeno-almoço. Tinha estado durante horas de “vigia noturna”, a percorrer os terrenos do vasto complexo no Arkansas. Era uma tarefa insuportavelmente aborrecida para um rapaz de 14 anos, mas era importante: Tony dizia que sim. “O governo controlava tudo, e andavam atrás dele”, diz Matthew, recordando a crença central que o líder incutira nos seus seguidores.
Como todas as crianças do complexo, Matthew tinha sido forçado várias vezes a passar dias sem comer. Por isso, quando lhe deram o pequeno-almoço, sentou-se imediatamente no lado masculino da cafetaria — rapazes e raparigas eram estritamente segregados — e devorou-o. Mas depois ouviu o ronco de um carrinho de golfe: Tony estava a chegar.
O líder, que na memória dos Broderick surge como um homem corpulento e grisalho, cuja aura sinistra era ampliada pelos óculos escuros que usava devido a glaucoma, examinou a sala. Aproximou-se de Matthew e sentou-se em frente ao adolescente.
“Eu estava tão feliz”, recorda Matthew. “Tão afortunado por estar ali sentado, a tomar o pequeno-almoço e a falar com ele.” Mal conseguia acreditar na sua sorte: estar na presença de Alamo era o maior prémio no complexo.
“Mas depois ele estendeu a mão, agarrou-me pela camisa, puxou-me e deu-me um murro na cara”, recorda Matthew. Uma fúria atravessou o rosto de Alamo. “Estavas a gozar comigo! Estavas a escarnecer de mim!”, gritou. Um silêncio atónito caiu sobre a cafetaria.
E então, como se um interruptor tivesse sido acionado, o tom de Alamo voltou a mudar. “Eu não queria mesmo fazer isso”, afirmou. “Mas o Senhor disse-me para o fazer, por isso tive de fazê-lo. Compreendes, certo?” Matthew conseguiu murmurar um “Sim, senhor”.
Dentro da cabeça de Matthew, começou um cálculo habitual. “No meu coração, eu sabia que não tinha feito isso”, garante. “Mas Deus disse-lhe, por isso obviamente tinha feito”, afirma.
“Tinha de me examinar e perceber o que estava a fazer de errado.”
“O mundo estava sempre a acabar”
Os irmãos Broderick nasceram e cresceram no mundo de Alamo.
O pai juntou-se ao ministério cristão marginal e ultraconservador de Alamo pouco depois de este ter sido fundado em Hollywood, em 1969, por Tony e pela mulher, Susan Alamo. “Ele andava à boleia e encontrou uma das pessoas de Tony Alamo”, recorda Shaina, reunindo os poucos detalhes que os pais lhe tinham contado. “Estava num ponto baixo da vida”, diz. “Era disso que ele se aproveitava.”
Alamo reunia todos os traços grotescos de um líder de culto norte-americano do século XX. Emergiu da mesma época nebulosa de Hollywood do fim dos anos 60 que Charles Manson e desenvolveu uma estranha afinidade com David Koresh, cujo grupo pereceu durante um cerco em chamas ao seu complexo em Waco. Tal como o líder do Peoples Temple, Jim Jones, usou carisma, punição e medo para manipular os seguidores. E, tal como Warren Jeffs, que liderou um grupo polígamo no Arizona, a sua luxúria pervertida por noivas-crianças contribuiria para a sua queda.
Durante décadas, os Alamo protagonizaram uma das histórias mais selvagens de Hollywood daquela época febril e libertária. Pregavam na televisão sobre a condenação eterna, enquanto Tony socializava com algumas das maiores estrelas de Los Angeles.
Mas, para escapar ao escrutínio das autoridades da Califórnia, o culto mudou-se nos anos 70 para o Arkansas, terra natal de Susan. Depois da morte dela, sobreviventes do culto dizem que Alamo obrigou os seguidores a rezar sobre o corpo de Susan para provocar a sua ressurreição, algo que a mãe dos Broderick fez de bom grado. Passaram muitos meses até que ele mandasse enterrar o cadáver em decomposição.
Eventualmente, o grupo instalou-se em Fouke, uma pequena localidade perto da fronteira entre o Arkansas e o Texas, criando uma igreja e comprando casas. O centro era a casa de Alamo: um conjunto fortificado de divisões e edifícios onde vivia com as suas noivas. “A cidade odiava-o”, recorda Matthew: os habitantes locais lançavam insultos com frequência durante as suas patrulhas noturnas obrigatórias pelos terrenos.
“Parecia sempre o dia do juízo final… O mundo estava sempre a acabar. Era aterrador.”
Shaina Broderick
Vários negócios paralelos financiavam o projeto de Alamo, sobretudo uma empresa que criava casacos e roupa extravagantes e feitos por medida, usados por celebridades como Michael Jackson e Elvis Presley. A mãe dos Broderick modelava esses casacos, e Alamo “adorava gabar-se de que as celebridades os usavam”, diz Matthew. Um cinto assinado por Presley continuava entre os bens de Alamo, segundo o Internal Revenue Service. A mensagem dizia: “Para Tony, teu amigo para sempre. Elvis.”
Mas as peças eram feitas, como se veio a descobrir, pelas crianças do culto. “Trabalhei muito nesses armazéns desde muito pequena”, diz Shaina.
Alamo fez lavagem cerebral aos seguidores para que acreditassem que ele era o profeta de Deus, que o apocalipse estava iminente e que ele era o bilhete deles para a vida após a morte. O ensinamento estava tão enraizado que, quando a Casa da Moeda começou a imprimir os 50 estados nas moedas de 25 cêntimos em 1999, um jovem Matthew ficou sombrio: gostava de colecionar as moedas, mas a série estava prevista durar até 2008. “Isso nunca vai acontecer”, pensou. “O mundo ia acabar antes disso.”
Matthew, o irmão pragmático, aceitava o ensinamento com naturalidade: “Desde que estivesses bem com Deus, ficarias bem.” As irmãs eram menos ambivalentes. “Parecia sempre o dia do juízo final”, diz Shaina, a irmã do meio. “O mundo estava sempre a acabar. Era aterrador.”
Os Broderick não recordam a infância exatamente como trágica. Passaram grande parte dela felizes, mesmo enquanto a família encolhia. Há cinco irmãos Broderick, mas o irmão e a irmã mais velhos fugiram do culto, e a mãe foi expulsa depois de ter sido encontrada medicação entre os seus pertences. “[Alamo] disse que Deus lhe tinha dito um dia: ‘Se não tens fé suficiente em mim para curar uma dor de cabeça, então vai trabalhar para a empresa da aspirina’”, recorda Matthew.
As crianças sentiam falta da mãe, mas não podiam mostrá-lo. Os familiares banidos eram agora desviados, e acreditavam que Alamo conseguia ler-lhes os pensamentos. “Gostava de lhe ter podido perguntar mais sobre o que ela passou, porque ela teve uma vida tão dura que eu nunca pensei realmente nisso”, recorda Shaina sobre a mãe.
“Talvez, lá no fundo da minha mente, pensasse que talvez alguma coisa estivesse errada”, acrescenta Alexis. “Mas reprimia isso. Tinha demasiado medo para questionar qualquer coisa.”
Há uma ironia no nome de Matthew, que partilha com uma das maiores estrelas de cinema da época, porque os Broderick foram quase totalmente isolados do mundo exterior. “Quando eu tinha cerca de cinco anos, tiraram os computadores”, conta. Rádios eram permitidos para certas estações de música cristã, mas as crianças tinham de colar os botões para que não pudessem ser rodados.
Ocasionalmente, porém, tinham vislumbres tentadores. Quando Shaina acompanhou um adulto a uma grande superfície para comprar mantimentos, foi atraída pelo corredor das televisões, onde os aparelhos passavam o Disney Channel. Olhou com desejo para as aventuras de Zack & Cody e pensou: “Porque é que não posso ver isto o tempo todo?”
Eventualmente, porém, uma honra rara foi concedida aos Broderick: cada criança foi convidada a viver na casa de Alamo. “Parecia que éramos tão privilegiados”, diz Shaina. “(Mas) Acabou por ser muito assustador. Porque pudemos ver o verdadeiro Tony.”
“A rezar para morrer”
Dentro da sua casa, dizem os Broderick, Alamo repreendia e humilhava as suas mulheres. Acordava as crianças a meio da noite e obrigava-as a assistir durante horas enquanto gravava mensagens de desgraça e fúria em cassetes. Foi instaurado um sistema intrincado de denúncias: todos no culto recebiam ordens para registar maus comportamentos, e Alamo mantinha notas extensas num arquivo. “Não era suposto falares sobre nada do que visses na casa”, refere Alexis.
Alexis é a irmã mais nova, mas tinha uma intuição aguçada. Viu raparigas “casarem-se” com Alamo e tornarem-se uma das suas muitas mulheres assim que começavam a menstruar — o momento, insistia ele, em que estavam suficientemente maduras para se tornarem suas esposas. “Eu sabia que era isso que me ia acontecer”, diz. Quando tinha oito ou nove anos, Alamo mandou um adulto comprar-lhe soutiens.
“O consentimento é a puberdade”, disse ele mais tarde à Associated Press. “Não é segundo o que eu penso. É segundo a Bíblia”, disse numa entrevista de 2008 à CNN. Durante essa entrevista, Alamo negou ser polígamo, mas acrescentou: “O que haveria de errado nisso?”, citando figuras bíblicas que tiveram várias mulheres.
“Eu estava aterrorizada com ele. Vivíamos sempre com medo.”
Shaina Broderick
A violência era comum. “Aprendi rapidamente a manter a cabeça baixa e a não o olhar nos olhos”, conta Shaina. O contacto visual levava frequentemente a espancamentos. “Eu estava aterrorizada com ele”, diz Shaina. “Vivíamos sempre com medo.”
E havia uma veia sádica nos ataques. Num dia sombrio, Shaina foi chamada para ser castigada: a irmã tinha-a denunciado por discutir uma das tiradas abusivas de Alamo.
“Ele mandou todas as mulheres virem assistir, e depois mandou quatro mulheres segurarem-me”, recorda Shaina. Entre elas estava Alexis. Shaina implorou para ser poupada: “Ele meio que agiu como se me fosse perdoar — e depois apenas se riu.” Seguiu-se um espancamento, deixando Shaina negra e azul. Durante duas semanas, doía-lhe apenas sentar-se.
A memória é difícil de revisitar para ambas as irmãs. “Eu simplesmente fiquei ali e segurei-lhe a perna”, diz Alexis. “Lembro-me de fechar os olhos porque não queria ver.”
“Agora, ao pensar nisso, é como: como pudeste permitir que isso acontecesse à tua irmã?”, afirma. “Mas era simplesmente isso que nos ensinavam a fazer… tínhamos sofrido lavagem cerebral.”
O pai dos Broderick admitiu mais tarde em tribunal que permitiu que as filhas vivessem nas instalações do grupo enquanto viajava durante meses para fora da cidade para trabalhar, mas negou saber e recusou-se a acreditar que quaisquer crianças tivessem sido espancadas ou sexualmente abusadas por Alamo.
Pouco depois do espancamento, Shaina foi exilada para a Casa do Escárnio adjacente, para onde Alamo enviava raparigas que o desagradavam. “Fui isolada de toda a minha família”, recorda.
“Lembro-me de simplesmente chorar e rezar para morrer”, diz. Tinha 12 anos.
Alguns dias depois, outra oração foi atendida.
A operação
Matthew viu primeiro os carros: uma frota de SUV pretos, depois veículos SWAT, a avançarem como uma seta em direção ao complexo de Alamo.
Em setembro de 2008, ele estava a vigiar a igreja na companhia de um ancião, que se apressou a ligar para o escritório de Alamo. Estavam preparados para esta situação: Alamo tinha-se tornado cada vez mais paranóico em relação às autoridades. Foram colocados guardas armados no exterior do recinto, e as crianças receberam instruções para retirar as pistolas de água e as armas em miniatura dos seus conjuntos de Lego, para o caso do governo federal alegar que se incentivava o uso de armas no recinto.
“Ele tinha pavor de que tentassem fazer-nos o que aconteceu em Waco”, recorda Matthew. Continuava a pregar que “Deus está prestes a agir”.
Por isso, o primeiro pensamento de Matthew foi resoluto: “Está finalmente a acontecer.” Mas depois outro pensamento o atingiu: as suas irmãs estavam dentro da casa.
Alexis já tinha corrido dos baloiços. “Vimos equipas SWAT invadirem a propriedade com metralhadoras e escudos gigantes”, recorda. Shaina apressou-se para uma sala com algumas das mulheres de Alamo. “Elas diziam: ‘Não lhes digam nada… Não digam nada sobre Tony.’”
Agentes gritavam de todas as direções, e os ruídos surdos de um helicóptero de notícias por cima eram ensurdecedores. Alexis estava aterrorizada. Mas Shaina notou outra emoção, estranha. “Foi um pouco entusiasmante”, conta. Já tinha sonhado com aquele dia: um cerco federal a acabar com o culto. “Talvez, em segredo, eu quisesse ser resgatada.”
“Queríamos acabar com Tony Alamo.”
Agente do FBI Randall Harris
Cerca de uma centena de agentes invadiu o complexo nesse dia, conta à CNN Randall Harris, o agente especial do FBI que liderou a operação, atuando com base em informações de alguém dentro do complexo e de uma antiga noiva-criança que tinha fugido para a Florida.
“Alamo controlava tudo sobre a vida deles”, conta Harris, dizendo à CNN que a maioria não tinha dinheiro, identificação oficial nem números de Segurança Social. “Queríamos acabar com Tony Alamo. Assim que o tirássemos de cena, estas pessoas poderiam, esperava-se, seguir em frente e tornar-se cidadãos normais.”
Mas a operação foi acelerada porque os meios de comunicação locais tinham sido avisados: quando aconteceu, Alamo não estava lá. Tinha escapado dias antes.
Os agentes disseram às crianças para prepararem uma mala para passar a noite. Shaina não tinha uma — a ideia de passar uma noite fora de Fouke era um conceito alienígena — por isso enfiou algumas roupas e uma Bíblia numa fronha, recorda.
Seis crianças, incluindo Shaina e Alexis, foram libertadas do culto, com Matthew a ser recolhido alguns dias depois numa operação subsequente. Foram reunidas provas suficientes para Alamo ser acusado de 10 crimes de transportar crianças através de fronteiras estaduais para fins sexuais. Foi detido dias depois no Arizona e o julgamento ficou marcado para o ano seguinte.
Enquanto as outras crianças choravam e rezavam na carrinha da polícia, Shaina concentrou-se. “Eu tentava observar todos os sítios por onde passávamos — lembro-me de pensar: ‘Vamos fugir. Vamos voltar. Por isso, tenho de prestar atenção a todos os sinais, a todos os detalhes.’”
Não seria a última vez que um Broderick ficaria preso entre a lavagem cerebral de Alamo e a promessa tentadora de liberdade. A operação libertou-os do grupo, mas a sua desprogramação ainda não tinha começado.
Um sabor aterrador de liberdade
Os irmãos terminaram esse dia numa instalação estéril da Cruz Vermelha. Shaina ficou deitada na sua cama de campanha toda a noite, a olhar para o teto, a processar todas as formas como a sua vida estava a mudar.
Na manhã seguinte, uma a uma, as crianças foram chamadas a sair: tinham sido atribuídas a uma família de acolhimento. Shaina foi uma das últimas a ficar.
As crianças foram enviadas para toda a região, e cada casa era um portal para outro universo. O desejo de Shaina tornou-se realidade: “Tinha uma televisão no meu quarto e via Disney Channel todas as noites.” Mas era confuso. Sempre que os créditos passavam no fim de um episódio, pensava: “Isto está certo? Estou a pecar?”
Os pais de acolhimento eram bem-intencionados, mas não estavam preparados, diz cada um dos irmãos. E eles continuavam a desejar regressar a Alamo. As crianças não podiam fazer chamadas sem vigilância, por isso Matthew escapava para cabines telefónicas, com um capuz sobre a cabeça, para passar informações ao culto em desintegração que ainda tinha alguns adultos leais.
Na escola, pela primeira vez, os Broderick foram expostos a crianças do sexo oposto. Shaina desenvolveu uma resposta instintiva quando um rapaz se aproximava dela: “Começava simplesmente a pregar a Bíblia. Porque não sabia que mais fazer”, conta. “Éramos como pequenos robôs.”
Sentiam-se forasteiros. Quando uma professora disse à turma de Matthew para pesquisarem algo no Google, ele virou-se timidamente para a criança à esquerda. “O que é o Google?”, perguntou. O colega riu-se, por isso Matthew também se riu. Depois virou-se para a direita. “A sério, como é que se chega ao Google?”, reforçou.
Os seus currículos incluíam tudo o que Alamo tinha proibido. As aulas de biologia foram um choque para Matthew. Shaina ficou fascinada pela mitologia grega, mas perturbada pelo conceito de outros deuses.
“Ainda tens aquela mentalidade de culto”, afirma. “Ainda tens, sempre, a voz de Tony no fundo da cabeça.”
Alexis sentou-se num tribunal federal e esperou que o homem que a aliciara entrasse. O cabelo de Alamo estava mais fino e o rosto tinha descaído; não era a mesma pessoa que Alexis conhecera. “Vê-lo sem a peruca ou o capachinho, de fato de presidiário e algemas — foi diferente”, recorda. Ainda sentiu um pico de medo dentro dela. Mas também havia desafio.
Alamo negou as acusações contra si, tanto em tribunal como nos meios de comunicação. “É uma farsa”, tinha dito à CNN em 2008, depois da operação. “Estão apenas a tentar fazer a nossa igreja parecer maligna… dizendo que sou pornógrafo. Dizendo que violo crianças pequenas. … Eu amo crianças. Não abuso delas. Nunca abusei. Nunca abusarei.” Mas várias mulheres testemunharam que foram controladas e sexualmente abusadas por Alamo depois de terem sido feitas suas esposas.
Os Broderick, que não estavam entre os que testemunharam e cujo abuso às mãos de Alamo não foi de natureza sexual, assistiram a partes do julgamento. Matthew viu fiéis leais a Alamo negarem acusações de abuso. “Supostamente somos pessoas que dizem a verdade”, pensou. “Vocês estão a mentir. Isto aconteceu. Está tudo bem que tenha acontecido, mas aconteceu.”
Então considerou outra conclusão: talvez não estivesse tudo bem que tivesse acontecido. Matthew revisitou as memórias sob uma nova luz. “Penso na vez em que ele me deu um murro na cara”, conta. “No meu coração, sabia que aquilo era errado.”
O domínio de Alamo sobre os Broderick estava a enfraquecer. Ao seu próprio ritmo, os irmãos exploraram o mundo — e as suas vidas começaram a divergir.
“Começas a perceber que há toda uma vida para viver. Existe uma coisa chamada futuro.”
Shaina Broderick
Alexis passou mais tempo em famílias de acolhimento, vivendo em cinco casas. “Há muito trauma de toda essa experiência”, recorda. Uma passagem com Shaina por uma casa de grupo foi particularmente perturbadora: “Éramos fechadas nos quartos à noite”, recorda Alexis. “Era muito parecido com um culto.” Uma sensação de abandono apoderou-se dela. “Parecia que estava a acontecer tudo outra vez.”
Mas depois conheceu a senhora Christie. Era suposto passar duas semanas com ela, mas criaram imediatamente uma ligação, e Christie acolheu-a durante mais de um ano. “Ela deu-me espaço para descobrir como ser criança.”
Shaina, aos 13 anos, também encontrou uma casa que encaixava. A sua mãe de acolhimento, Tanya, incentivou-a a fazer amigos da sua idade. “Foi aí que percebi: oh, tudo o que Tony nos fez foi mau.”
E, para Matthew, algo simplesmente mudou um dia. “Levantei-me e pensei: vou tentar a vida do outro lado da vedação. Vou simplesmente ver o que acontece.” Bebeu um gole de Jack Daniel’s e sentiu um efeito. “Pensei: então é disto que isto se trata.”
Também começaram a dizer palavrões, livres da ameaça de castigo físico. Shaina desenvolveu um palavrão favorito — merda — e usava-o “tipo 100 vezes numa frase”, ri-se.
Os adolescentes estavam a rebelar-se, como os adolescentes devem fazer. Entretanto, Alamo foi considerado culpado de crimes sexuais contra menores. Um júri no Arkansas concluiu que tinha feito de pelo menos cinco raparigas menores de idade suas “mulheres”, incluindo uma com apenas oito anos. Quando foi condenado a 175 anos de prisão, os Broderick quase nem deram por isso: estavam ocupados a viver.
“O mundo era simplesmente um lugar mais luminoso”, diz Shaina. “Começas a perceber que há toda uma vida para viver. Existe uma coisa chamada futuro. E pode ser o que quiseres.”
Construir novas vidas
Em 2017, num hospital prisional em Butner, Carolina do Norte, Tony Alamo morreu.
Muitos sobreviventes celebraram, mas os Broderick não. “Senti-me triste”, recorda Shaina. “Ele é uma pessoa horrível, nojenta. Mas eu simplesmente nunca tive tanto ódio no coração por ninguém.”
Por essa altura, estavam a construir novas vidas. Matthew, o protetor calmo e analítico, trabalha como assistente jurídico na Virgínia. Na faculdade de Direito, escreveu um trabalho sobre a operação do FBI que o libertou, entrevistando Harris, o agente especial responsável, para o projeto. Tem 33 anos e quer tornar-se defensor nomeado pelo tribunal para crianças em processos judiciais.
Shaina, de 30 anos, estudou psicologia na universidade. “A mente fascinava-me”, afirma. Aprendeu sobre Hitler e outros ditadores; queria compreender “como é que um líder assim conseguia manipular, causar todos estes danos e controlar todas estas pessoas”.
Mas a sua paixão é trabalhar com crianças. Teve empregos como ama e como assistente para crianças com necessidades especiais: “Queria trabalhar com crianças que passaram por tanto… fazê-las sentirem-se especiais consigo próprias.”
Casou-se no ano passado com George, um boliviano que estudou nos EUA com uma bolsa de golfe. Os irmãos incharam de orgulho, e talvez com um toque de inveja. “Sempre pensei que seria o primeiro a casar”, brinca Matthew. A cerimónia foi conduzida por Tanya — a mãe de acolhimento que lhe permitiu, pela primeira vez, ser criança.
E o casal feliz tem uma nova companheira de casa: Alexis, agora com 28 anos, que se mudou para a casa deles em Little Rock enquanto se prepara para a escola de enfermagem. “Às vezes discutimos como crianças pequenas”, diz Shaina. “Mas ela é uma das minhas melhores amigas.”
O percurso de Alexis foi inquieto. Fez audições para o “America’s Next Top Model”, depois mudou-se para Los Angeles, trabalhando como assistente de produção numa digressão de Kanye West. Depois foi assistente de bordo, incluindo uma temporada de seis meses a viver no Dubai.
Não tinha um modelo para o futuro. “Não tinha direção”, reflete. Mas, eventualmente, encontrou o caminho de volta a casa, para o Arkansas. “Sinto que é aqui que devo estar”, diz.
“O triste é que isto não acontece assim para toda a gente”, acrescenta Alexis. Outros sobreviventes de Alamo morreram jovens: “Simplesmente não sabiam como lidar com o que lhes aconteceu.”
Tragicamente, a mãe dos Broderick estave entre eles. Morreu depois de uma longa luta contra medicação para a dor, dizem os filhos. Foi um golpe duro para Alexis que tinha 15 anos na altura. E Shaina não tem grandes dúvidas de que Alamo é culpado. “Ele é a razão pela qual a minha mãe está morta.”
Todos os três Broderick reencontraram a fé. “Podes encontrar o amor de Deus, e não apenas o medo”, descobriu Matthew.
E, depois de vários anos em caminhos sobrepostos, reconstruíram as relações entre si. Reúnem-se sempre que podem, por vezes discutindo memórias de infância. Agora conseguem rir-se disso, diz Shaina.
“É a minha história. Mas não me define.”
Matthew Broderick
O culto tem recebido atenção ocasional dos meios de comunicação, incluindo uma série documental de 2019 que agora está disponível na Apple TV. Até agora, os Broderick tinham recusado sempre pedidos para serem entrevistados.
Por vezes, por um momento fugaz, sentem falta do grupo em que foram criados. É comum entre sobreviventes de cultos: “A vida é muito mais fácil… quando simplesmente te dizem o que fazer”, considera Shaina, que ainda tem dificuldade em confiar nas pessoas, mas está a aprender a ser vulnerável.
A Tony Alamo Christian Ministries continua ativa, mantida por um pequeno grupo de leais. As pregações de Alamo estão disponíveis no site do grupo. Uma linha telefónica de informação 24 horas continua a ser monitorizada; quando a CNN ligou para a linha, a mulher que atendeu disse que conhecia Alamo “muito bem” e comparou a sua condenação à perseguição de Jesus Cristo. “Podia deixar o meu sangue ferver pelas coisas que foram feitas”, disse a mulher, que se identificou como Anne, mas recusou fornecer mais informação biográfica.
“Temos pequenos postos (atualmente) por todos os Estados Unidos”, acrescentou. “Através de toda a perseguição e mentiras, continuamos.” A CNN enviou por email ao ministério uma lista das alegações feitas neste artigo e não recebeu resposta.
Mas Tony Alamo já não controla os Broderick.
“É a minha história”, diz Matthew. “Mas não me define.”
Ocasionalmente, tem sonhos vívidos sobre a infância no grupo. O rosto de Alamo aparece, de vez em quando, os seus olhos penetrantes escondidos atrás de um par de óculos escuros ameaçadores. Mas depois Matthew acorda.
