Porque é que os brinquedos de género neutro são importantes para os seus filhos

CNN , Lisa Selin Davis
15 jan, 11:00
Irina Gonzalez comprou um carrinho da Mega Bloks com rodas lilases e um cesto cor-de-rosa para o seu filho de 20 meses.
Irina Gonzalez comprou um carrinho da Mega Bloks com rodas lilases e um cesto cor-de-rosa para o seu filho de 20 meses.

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Irina Gonzalez encontrou o presente de Natal perfeito: uma carrinho da Mega Bloks com rodas lilases e um cesto cor-de-rosa. Ela adorou comprá-lo para o seu filho de 20 meses.

"Tento muito incorporar todas as cores do arco-íris nos brinquedos do meu filho e especialmente no seu guarda-roupa", disse ela. "Quero educar o meu filho para compreender que a roupa é apenas roupa e os brinquedos são apenas brinquedos e que estas coisas não têm género".

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Ela espera que ele aprenda que nada lhe está vedado e que não há nada de errado em gostar de um brinquedo ou de uma peça de roupa que tenha sido comercializada como sendo "para menina".

Não há muito tempo, esta poderia ser considerada uma abordagem radical à educação de uma criança, já para não falar nas compras de férias. Mas a rejeição do marketing excessivamente orientado para o género do mundo infantil é cada vez mais comum e não apenas por parte dos pais ou grupos de ativistas. Este movimento conta já com o apoio de algumas pessoas da indústria dos brinquedos e do mundo empresarial.

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A indústria dos brinquedos adota a neutralidade de género

Em 2015, a Target deixou de rotular alguns brinquedos e outros produtos como sendo artigos para raparigas e rapazes, afastando-se da identificação com base no género. Em 2017, a Associação de Brinquedos substituiu as categorias "menino" e "menina" por novas categorias, como boneco de ação do ano ou boneca do ano.

A decisão, disse Kristin Morency Goldman, porta-voz da Associação de Brinquedos, "deveria refletir o mercado atual e os hábitos de compra dos pais e a realidade do mundo em que vivemos".

Os brinquedos vencedores do ano de 2021 incluíram o peluche do ano e o brinquedo científico-artístico do ano. Comercializados dessa forma, qualquer criança poderá interessar-se por eles.

"As empresas de brinquedos deixaram de classificar os seus brinquedos por género e tanto os retalhistas on-line como as lojas físicas já não organizam tanto os seus brinquedos por género", disse Goldman. "Muitos dos limites com base no género que foram impostos às crianças nas gerações anteriores já não existem, felizmente".

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A Hasbro, por exemplo, mudou o marketing de marcas como a Baby Alive, NERF e Easy-Bake para as tornar mais inclusivas em termos de género. A Disney, entretanto, encontrou uma forma de agradar aos pais que acreditam que os brinquedos devem ser comercializados segundo o género das crianças e aqueles que discordam disso. No site da Disney, os compradores ainda podem selecionar um género, mas não há quase nenhuma diferença nas opções apresentadas.

Há 304 brinquedos identificados como sendo para rapazes e 307 para raparigas. O kit de jardinagem da Minnie, a boneca Aurora e o toucador musical das princesas encantadas da Disney estão tanto na secção dos rapazes, como na das raparigas. Assim como o conjunto de golfe do Mickey.

Os três brinquedos só para raparigas são o peluche da Elsa, o peluche da Anna e o conjunto de acessórios da Elsa, todos de "Frozen II".

As empresas mais pequenas estão a lançar-se no mercado sem mensagens de género. A BE-ME vende tutus, coroas e vernizes para todas as crianças e a Ten Little não determina o género das suas roupas e brinquedos.

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Isto poderá em breve tornar-se a norma e até mesmo lei [nos Estados Unidos]. Em outubro, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, assinou o projeto-lei 1084, que obriga os grandes retalhistas a terem secções de brinquedos neutras em termos de género até 2024. (Não proíbe as secções de brinquedos tradicionais para rapazes e raparigas).

Entretanto, depois de ter alcançado elevadas vendas, mas tendo também sido alvo de muitas críticas quando apresentou o altamente sexista LEGO Friends em 2012, este ano a LEGO anunciou nova investigação e uma nova campanha, "Ready for Girls", em parceria com o Instituto Geena Davis para o Género nos Média. A campanha incentiva as raparigas a brincar com todos os produtos da LEGO, para "combater estereótipos generalizados sobre raparigas que as desencorajam de brincar com brinquedos de cariz mais científico-tecnológico".

Os estereótipos mantiveram-se

Esta é uma mudança enorme num curto período de tempo, mas separar os brinquedos por género é, na realidade, um fenómeno recente.

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"Os brinquedos no início do século XX não eram um bem de consumo generalizado e muitas famílias faziam os seus próprios brinquedos", disse Elizabeth Sweet, professora assistente de Sociologia na Universidade Estatal de San Jose. "O género não era o principal fator de categorização de um brinquedo". As bonecas, disse ela, eram um presente popular para bebés, fossem meninos ou meninas.

A diferenciação por género das roupas e brinquedos das crianças começou a sério há pouco mais de 100 anos, num esforço para ensinar desde cedo as crianças a desempenharem os papéis próprios do seu género. Os brinquedos passaram de ser comercializados por idade para tentarem moldar explicitamente as preferências e o futuro das crianças: conjuntos de esfregonas e de vassouras para raparigas e conjuntos de construção para rapazes.

Esta diferenciação por género recuou um pouco durante o movimento feminista dos EUA dos anos 70, disse Sweet. Ela descobriu que menos de 2% dos brinquedos do catálogo da Sears de 1975 estavam explicitamente rotulados a nível de género. Mas a década de 1980 trouxe a desregulamentação da televisão infantil, o que permitiu um novo nível de marketing de brinquedos, disse Rebecca Hains, professora de Comunicação Social na Universidade Estadual de Salem, no Massachusetts. A isto seguiu-se o aparecimento do movimento "poder feminino" nos anos 90 e os comerciantes impuseram novamente o género nos brinquedos.

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"Há uma espécie de pêndulo que balança constantemente na nossa cultura", disse Hains.

No final do século XX, os brinquedos tinham deixado de preparar as crianças para os papéis tradicionais de género e, em vez disso, concentraram-se nos papéis de fantasia: princesas para raparigas e super-heróis para rapazes.

Os fabricantes de brinquedos "pegaram nos estereótipos e voltaram a embrulhá-los em papel brilhante, mas mantiveram as mesmas ideias sobre o género", disse Sweet. "As mulheres são passivas, carinhosas e cuidadoras, enquanto os homens são ativos, enérgicos e capazes".

As bonecas de princesa e as personagens são muito esbeltas, observou Hains. "Não parecem poder ser fisicamente fortes, por serem tão delicadas". Os brinquedos de super-heróis, por outro lado, têm músculos falsos.

Sweet acha que os brinquedos têm uma identificação de género mais forte hoje do que em qualquer outro momento da história, mas é evidente que o pêndulo começou a recuar.

O problema com os brinquedos com género determinado

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Se estiver a comprar brinquedos que têm um género bem definido, disse Hains, é fácil contornar a situação. Se comprou um presente de Natal para um rapaz cuja embalagem tem apenas fotografias de raparigas, "basta eliminar a caixa e colocar o brinquedo debaixo da árvore", disse ela.

Hains disse que para, uma rapariga que adore princesas, podemos comprar bonecas de princesas e um brinquedo mais orientado para a ação, como um carro dos bombeiros. "Podemos brincar às princesas e mandar a princesa apagar um fogo", disse ela.

Porquê fazer isso?

Quando os brinquedos têm um género atribuído por comerciantes e pais, não só reforçam os estereótipos, como também promovem diferentes conjuntos de competências. "Tudo o que era comercializado para as raparigas girava em torno da beleza", disse Hains. Os brinquedos das raparigas promovem frequentemente as capacidades de comunicação e bondade, enquanto os dos rapazes dão ênfase à ação e a assertividade.

A investigação de género da LEGO concluiu que as raparigas tinham seis vezes mais probabilidades do que os rapazes de imaginar que cientistas e atletas eram homens e não mulheres. Os pais de ambos os sexos encorajaram quatro vezes mais os rapazes a jogar videojogos ou a fazer desporto e encorajaram cinco vezes mais as raparigas a dançar e a vestir-se bem.

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"As crianças brincam com ideias sobre os seus próprios interesses e aptidões e talvez até os seus papéis futuros", disse Hains. "É problemático quando se circunscreve opções e se diz que toda esta gama de produtos é apenas para raparigas e a outra é apenas para rapazes".

Corrigir a trajetória

As mudanças na forma como os brinquedos são comercializados podem ajudar a mudar o comportamento dos consumidores, mas as normas culturais são difíceis de ultrapassar. "Penso que é mais difícil para os rapazes", disse Lauren Apfel, mãe de quatro filhos e editora executiva da revista Motherwell. "É sempre mais difícil para eles adotarem roupas mais femininas, brinquedos mais femininos, por oposição à rapariga que brinca com Legos e ninguém acha isso estranho".

De facto, a LEGO concluiu que "71% dos rapazes contra 42% das raparigas disseram que se preocupam em ser gozados se brincarem com um brinquedo tipicamente associado ao outro sexo".

Apfel optou por comprar bonecas aos rapazes, aos seus e a outros, como presentes de Natal e de aniversário para encorajar uma espécie de "abertura de género" e transmitir a mensagem de que todos os brinquedos são para toda a gente.

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