O impacto da utilização de ecrãs em idade pediátrica inicia-se cada vez mais cedo. A evidência recente sugere que a exposição precoce a ecrãs constitui um fator de risco relevante para o neurodesenvolvimento.
Um artigo recente do The Guardian, baseado em dados longitudinais europeus, refere que cerca de 98% das crianças aos dois anos utilizam ecrãs diariamente, com um tempo médio superior a duas horas por dia, ultrapassando largamente as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que aconselham não haver contacto até aos 2 anos e um máximo de uma hora diária de televisão entre os 2 e os 4 anos. Este padrão surge precisamente numa fase crítica do neurodesenvolvimento cerebral, em que a plasticidade neuronal depende fortemente da interação humana direta, do jogo livre e da exploração sensorial do ambiente.
A substituição progressiva destas experiências por estímulos digitais está associada à redução de oportunidades fundamentais para o desenvolvimento da linguagem, da regulação emocional e das competências sociais. A utilização de ecrãs faz perder uma parte importante do que nos torna humanos, na medida em que a comunicação não verbal, o contacto visual, a alternância conversacional e o jogo simbólico — pilares do neurodesenvolvimento precoce — são progressivamente substituídos por interações unidirecionais com o ecrã.
A televisão tradicional utilizada até 2010 era uma realidade completamente diferente. Caracteriza-se por um consumo passivo e, frequentemente, partilhado em contexto familiar. Em contraste, os ecrãs atuais - smartphones e tablets - são interativos, portáteis e usados de forma individual, promovendo estímulos rápidos e fragmentados. Provavelmente esta é a explicação para que a geração Z seja a primeira que em média tem um desempenho cognitivo pior que a anterior.
Foi por constatar um número crescente de perturbações de desenvolvimento que a Sociedade Portuguesa de Neuropediatria publicou recentemente na “Sinapse” recomendações para alertar os riscos e ajudar as famílias a condicionarem a utilização de ecrãs em idade pediátrica.
O papel pedagógico dos médicos de família é fundamental para preventivamente evitar que as crianças cheguem ao pré-escolar com dificuldades básicas de comunicação, autonomia e interação social.