Prazeres culpados: já fui uma mãe irrepreensível, mas depois os meus filhos nasceram

24 ago 2025, 16:00
Criança com telemóvel

Tenho dois filhos, um a viver a pré-adolescência e outro a viver aquilo a que muitos chamam a “primeira adolescência”. E estou a dar em louca! Duvido da minha sanidade mental permanentemente e não vejo a hora de vir trabalhar… para me ver livre deles. Lá em casa, há ainda uma terceira criança, o filho da minha sogra, que adotei há 14 anos e ela agora já não aceita que lho devolva.

Garanto-vos que já fui uma mãe irrepreensível, daquelas a que nenhum especialista (e muito menos qualquer outra mãe!) podia apontar o dedo. Nem o mindinho!

Os meus filhos não tinham acesso a ecrãs. Só comiam comida saudável, cozinhada com produtos biológicos. Não faziam birras. Não gritava com eles. Eles diziam sempre “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, “se faz favor” e “obrigado” sem ter de os recordar. Às sete da tarde, já estavam de banho tomado e jantados, só se levantavam da mesa depois de pedir licença à pessoa mais velha ali presente e às nove da noite estavam de dentes lavados, história lida, luz apagada, Anjo da Guarda rezado e a dormir na paz dos anjos todos.

Mas depois o mais velho nasceu. Deixei-me de ilusões. O filme ficou estragado.

E depois o mais novo veio e acabou com o resto da minha reputação como mãe.

E eu estou velha… o jovem mais novo apareceu na minha vida quando já estava mesmo prestes a fazer os 45 e, agora, aos 48, confesso que me falta a energia para acompanhar a dele.

Fala alto, como se o seu interlocutor estivesse na Austrália ou na Nova Zelândia. Não se cala um segundo. Não para sentado mais de três segundos seguidos. Procura o perigo. E deve achar que só existo eu à face da Terra, por que não chama por mais ninguém: eu não consigo clicar num interruptor sem ouvir pelo menos três vezes a palavra “mãe”. E não é assim um simples “mãe”… É sempre uma “MÃEEEEEEEEE!” ou um “MAAAAAAAÃEEEEE!!!”.

Ontem fomos jantar fora, a um restaurante chique e sossegado, à beira-mar. O cenário perfeito para o meu herdeiro mais novo virar do avesso! E eu só queria conversar com a minha prima, que não via há um ano e com que gosto mesmo de falar! E o desassossego não se calava… “MÃEEEEEEEEE!”, “MAAAAAAAÃEEEEE!!!”, “Oh pá!!! MAMÃAAAAAAAAAAAAAAAAAA!”.

Perdi a cabeça, saquei do telemóvel e pus-lhe o YouTube Kids à frente… e, imaginem, consegui manter uma conversa de meia hora sem interrupções!!!! 

Escrevo sobre educação e parentalidade e entrevisto muitas vezes especialistas, nacionais e internacionais, que me dizem que os ecrãs são extremamente prejudiciais para o desenvolvimento harmonioso das crianças e que os bebés até aos dois anos não devem ter qualquer contacto com ecrãs. Houve mesmo um que defendeu, numa entrevista que lhe fiz, que esse distanciamento entre crianças e ecrãs deve manter-se até aos seis anos.

Mas eu, má mãe me confesso!

Aproveito-me muitas vezes desse “babysitter” improvisado para conseguir manter uma conversa com outra pessoa, para conseguir tomar um duche rápido ou mesmo para conseguir ver 10 minutos de televisão que não seja aquele episódio da Patrulha Pata que já ouvi 800 vezes enquanto faço o jantar ou o outro da Dora, a Exploradora, cujas ordens já sei de cor e, sem dar conta, já vou gritando “Backpack!!!” ou “Jump, jump, jum!”, para depois me autocongratular com um “Well done!”.

Ah… espera… isto também é um ecrã!


Pronto… má mãe me confesso, duplamente!

Mas o meu guilty plasure é deixar os meus filhos verem televisão ou tablet, para eu poder manter a casa organizada, fazer refeições que os alimentem, trabalhar um pouco ou simplesmente descansar a cabecinha, que já não anda grande coisa.

Família

Mais Família