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O que nos dizem os desenhos das crianças? "Ajudam a perceber as suas cabeças, como se colocam no mundo e na família"

31 mai, 08:00
Escola (Pexels)
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Monstros, figuras sem rosto, explosões de cor… rabiscos aparentemente sem sentido. Para muitos pais, os desenhos das crianças são apenas o produto de brincadeira. Recordações que se guardam numa pasta para mais tarde lhes mostrar. Para os especialistas, podem também ser uma forma de expressão emocional. Uma linguagem feita de traços, símbolos e imaginação. Mas até que ponto um desenho revela o que vai na cabeça de uma criança? E onde termina a interpretação legítima e começa o exagero?

No dia em que a escola onde Sofia Vitorino trabalha voltou a funcionar de forma condicionada, por causa das tempestades que assolaram o país nas últimas semanas de janeiro e primeiras de fevereiro, a educadora de infância trabalhou o tema com as crianças de quatro e cinco anos. A devastação provocada pelos temporais atingiu de forma moderada a zona onde a escola se insere e de forma muito severa as localidades vizinhas. 

Na "sala dos beija-flor", coloca-se no papel a visão que os meninos têm do mau tempo e dos efeitos das tempestades. Nas folhas brancas começam a surgir nuvens, céus escuros, muito escuros, chuva a cair, raios, estradas alagadas… desenhos que traduzem medos, fascínios, ansiedades e pensamentos mais íntimos. Os alunos de Sofia colocam no papel aquilo que sentem, aquilo que veem e aquilo que vivem.

“Incentivamos sempre. Não no sentido de darmos a indicação de que queremos isto ou aquilo desenhado. De maneira nenhuma. Mas incentivamos sempre que haja essa exploração. Até porque, nesta fase inicial de vida, o desenho permite-lhes desenvolver movimentos da mão que depois, mais tarde, já é difícil adquirirem. E a mão vai ser o instrumento de trabalho deles ao longo da vida”, explica Sofia Vitorino.

Os desenhos que as crianças fazem podem revelar muito mais do que a simples aptidão artística do autor. Conjugados com outros fatores de interpretação que os ajudem a contextualizar, podem dar aos adultos que convivem com a criança indicação da saúde mental, da realidade individual, familiar e social que vive, dos seus sonhos e expectativas. “Um desenho, por si só, não tem valor significativo. Só tem valor significativo na relação terapêutica e o diálogo com a criança é muito importante. O desenho de uma criança é uma expressão simbólica emocional, mas tem de ser integrado”, ressalva a psicóloga Isa Silvestre.

Também o pediatra Fernando Chaves considera os desenhos dos seus pacientes “um instrumento importante” para avaliar a saúde física, cognitiva e mental dos mesmos. Mas, sublinha, “nunca pode ser o instrumento único”. “As características do desenho ajudam a perceber como a criança se encontra, se estruturada ou não, se numa fase adequada de desenvolvimento ou não. Mas nunca só por si, o desenho pode ser ferramenta única para avaliar uma criança. Não podemos pôr demasiado peso no desenho”, reforça o médico.

Ainda assim, a psicóloga Isa Silvestre admite que já foi surpreendida por obras de arte que os clientes mais jovens lhe apresentaram em contexto clínico: “Alguns desenhos impressionam pela maturidade simbólica, outros pela intensidade emocional, outros ainda pela mudança subtil ao longo do processo terapêutico”. “Essas surpresas reforçam uma ideia central: o valor do desenho não está no símbolo isolado, mas na criança concreta que o produz e na relação que se constrói em torno dele”, ressalva.

A serpente e o ‘dragão das noites’

Mesmo repetindo que não pode nunca ser encarado como um instrumento isolado, o pediatra Fernando Chaves olha para os desenhos das crianças que lhe passam pelo consultório e, às vezes, encontra sinais que o deixam alerta. “Quando peço a uma criança para desenhar o mundo em que se encontra, perceber se a casa tem telhado ou não, se está dentro de casa ou não, se usa cores ou desenha a preto e branco… isso ajuda-me a perceber a cabeça da criança, como se coloca no mundo e na família”, diz.

A educadora Sofia Vitorino, recorda um caso que a marcou. Acompanhou ‘José Maria’ (nome fictício) desde o primeiro dia em que entrou na creche. Meses depois ‘José Maria’ perdeu a mãe. O pai acabou por refazer a vida sentimental e a figura materna passou a ser a madrasta. “A companheira do pai tratava-o muito bem. Como um filho mesmo. Mas, de alguma forma, ele percebia que havia aqui uma posição mais distante ou mais vincada. Então, ele representava-a como uma serpente. Depois, havia sempre nos desenhos dele aquilo a que ele chamava ‘dragão das noites’ e havia um cão. Em conversa com ele, percebemos quem era retratado em cada elemento do desenho: a madrasta era a serpente, o ‘dragão das noites’ era o pai e o cão – o elemento indefeso do desenho – era ele. O ‘dragão das noites’ era aquele que vinha proteger o cão da serpente”, conta.

E ‘José Maria’ “nem sequer era vítima de maus-tratos por parte da madrasta. Antes pelo contrário”. Os desenhos começaram a ser mais frequentes quando nasceu a irmã. “Havia ali uma questão de regra, de imposição, uma figura mais ríspida, se calhar. Havia uma perceção de que aquela pessoa não era mãe de sangue. Mas para ele, na brincadeira dele, havia ali aspetos que se transmitiam numa certa insegurança, numa certa instabilidade, num certo isolamento”, reconhece.

Sinais de alerta

O desenho é, assim, uma via de expressão simbólica, que ganha significado quando integrado na história do autor, na observação clínica, no diálogo com a criança, no comportamento e no contexto relacional e familiar da mesma. A psicóloga Isa Silvestre identifica alguns indicadores que podem merecer atenção e aprofundamento clínico quando contextualizados e podem ser indicativos de alguns estados emocionais que é importante trabalhar:

• Medo e ansiedade: “Podem surgir através de figuras muito pequenas, pouca ocupação do espaço da folha, traços muito apagados ou excessivamente pressionados, uso insistente de cores escuras, cenários ameaçadores (monstros, sombras, buracos), ou ausência de elementos protetores em desenhos que normalmente os teriam (por exemplo, uma casa sem portas ou janelas)”.

• Raiva ou agressividade: “Podem aparecer sob a forma de traços muito fortes e desorganizados, rasuras frequentes, temas de destruição, luta, explosões, figuras partidas ou riscadas repetidamente”.

• Solidão ou sentimento de exclusão: “Desenhos com uma única figura isolada, figuras afastadas entre si, ausência do próprio em desenhos de família ou grupo”.

• Dificuldades de integração familiar ou social: “Omissões significativas de figuras importantes, distorções na representação de vínculos (por exemplo, figuras sem rosto, sem mãos), ou organização espacial que sugira afastamento emocional”.

“Estes elementos variam claramente consoante a idade e o nível de desenvolvimento. Por exemplo: em crianças pequenas, o egocentrismo, a desproporção ou a ausência de partes do corpo são normais. Mas, em crianças mais velhas, persistência desses mesmos elementos pode ter outro olhar clínico. Ou seja, o que é normativo numa fase pode ser atípico noutra, o que reforça a importância da anamnese da criança”, remata.

Um indicador de desenvolvimento individual

Para a psicóloga, mais do que tentar interpretar um desenho de uma criança, é importante ouvir o que ela tem para dizer sobre o que acabou de desenhar, “como se posiciona face ao desenho e como o integra na relação terapêutica”. O desenho é, considera, um “facilitador da relação terapêutica”, uma “via de acesso emocional, quando a verbalização ainda é limitada” e um “instrumento de acompanhamento do processo, observando mudanças ao longo do tempo”.

Mas aquilo que uma criança coloca numa folha branca pode também ser um bom indicador do estágio de desenvolvimento em que se encontra. Salvaguardando sempre o tempo próprio da evolução de uma criança, Isa Silvestre elenca aquilo “que se espera” de um desenho infantil em cada faixa etária.

• 2–3 anos: rabiscos, exploração sensório-motora, prazer no gesto.

• 3–4 anos: formas circulares, figuras humanas muito esquemáticas (“girinos”).

• 5–6 anos: figuras humanas mais organizadas, início de narrativas gráficas.

• 7–9 anos: maior detalhe, organização espacial, preocupação com realismo.

• A partir dos 9–10 anos: proporcionalidade, perspetiva, intenção comunicativa mais clara.

A especialista acrescenta que, mais do que saber “o que devia desenhar” na idade em que se encontra, “interessa perceber como a criança se envolve no desenho, o prazer ou tensão envolvidos, a flexibilidade e a narrativa associada”.

E, depois, há sempre os gostos e aptidões pessoais. E, tal como os adultos, também algumas crianças gostam mais de desenhar do que outras. Tal como os adultos, algumas crianças têm mais jeito para desenhar do que outras. “Imagine que tenho uma criança já numa fase de quatro anos, que, embora até possa ser uma criança que não é muito motivada para o desenho, mas que, perante uma folha em branco, faz rabiscos aleatórios. Não é adequado? Não é. Estamos numa fase inicial de exploração, portanto, não está a haver ali intenção nenhuma. É o quê? Desmotivação? É simplesmente querer preencher a folha para ficar com a tarefa terminada?”, começa por exemplificar Ana Sofia Vitorino.

A educadora diz que é preciso estar atento, mas sem procurar problemas onde eles podem não existir: “Às vezes não se passa nada. É mesmo só a criança que quer despachar e não está para ali virada. Começamos a entrar numa faixa etária em que nós já damos alguma indicação para aperfeiçoar. Já se quer alguma evolução. Mas pode dar-se o caso de a criança, naquele dia, simplesmente não estar predisposta para desenhar”.

Ana Sofia Vitorino procura sempre compreender o que está por trás das obras de arte das crianças com quem trabalha todos os dias. “Vamos fazendo perguntas”, confessa.

“No desenho da figura humana, por exemplo, às vezes destaca-se determinado elemento da família em relação aos outros. Às vezes, percebe-se ali uma questão de liderança na família, ou pessoa de referência. Não quer dizer que seja por questões negativas. Às vezes, até é aquele elemento de segurança na família. Normalmente é a figura maior no desenho”, revela.

Os desenhos e o mundo dos autores

A psicóloga, o pediatra e a educadora são unânimes em dizer que os desenhos das crianças não se interpretam sem contexto. Por isso mesmo, Ana Sofia Vitorino só aceita olhar para as obras dos seus ‘Picassos’ e tentar adivinhar o que lhes vai na alma. Conhece cada um dos seus meninos como as palmas das suas mãos e António e Simão são dois autênticos artistas. Quer em casa, quer na escola, gostam de desenhar e expressam assim o que lhes vai na alma.
 

Os desenhos de Simão, 5 anos, são povoados por vilões e super-heróis. (Arquivo pessoal família do Simão)

Simão acabou de fazer cinco anos. Gosta de desenhos animados e o seu imaginário é povoado por heróis e vilões. Sofia Vitorino nem precisa que lhe digam que aquele desenho de uma figura levemente humana, de cabeça vermelha e olhos negros foi feito por ele e é… o Super-Homem a lançar uma teia.

“Conhecendo o autor da obra e tendo em conta o fascínio dele pela animação, parece-me um super-herói, uma figura do mundo imaginário dele. Com algum relevo para ele, por causa do tamanho, pela expressão do corpo, em que a cabeça realmente se destaca e os olhos têm ali alguma expressão mais vincada na figura”, analisa.

“O Simão gosta de se expressar e de explorar o mundo através do desenho. No outro desenho, temos um animal. Por causa da expressão, atrevo-me a dizer que possa ser algum animal mais feroz que habita o imaginário dele”, acrescenta.

António, 4 anos, gosta de usar cores intensas e preencher a folha toda com formas. (Arquivo pessoal da família de António)

António frequenta a mesma sala do mesmo jardim de infância, mas tem menos um ano. “O António é uma criança que gosta de pintar e gosta de usar cores vibrantes. Investe muito na pintura”, começa por caraterizar a educadora.

Olhando para dois dos muitos desenhos que António faz diariamente, Sofia Vitorino atira: “Nestes dois desenhos, de alguma forma, parece-me que ele procurou estruturar as imagens. Não é propriamente um desenho confuso. E o facto de ele fazer primeiro o risco e depois pintar por dentro tem a ver com a organização do pensamento. Tem a ver com, no fundo, a forma como ele arruma as ideias dele”.

“O facto de ele preencher a folha toda acho que tem a ver com o facto de realmente ele se dedicar. De querer ver o trabalho completo. É uma questão de perfeccionismo da parte dele. É um sinal do investimento que ele faz no trabalho, na produção que está a fazer”, acrescenta.

Quando uma criança não gosta de desenhar

A educadora de infância ressalva que há crianças que simplesmente não gostam de desenhar e “está tudo bem”. “Há simplesmente crianças que não têm a veia artística tão direcionada para aqui e gostam de explorar outro tipo de arte, outras formas. A nível de expressão plástica manipulam materiais e não vão tão direcionados para o desenho”, diz, acrescentando, contudo, que o estímulo que recebem em casa tem um grande contributo.

Isa Silvestre diz que o facto de uma criança se recusar a desenhar quando lhe é pedido também pode ser um indicador do seu funcionamento emocional. “Pode refletir ansiedade de desempenho (‘não sei desenhar bem’), necessidade de controlo e autonomia (‘não quero agora’), medo de se expor emocionalmente ou simplesmente cansaço, oposição ou falta de motivação”, explica, acrescentando que, em contexto clínico, a recusa em fazer um desenho quando o psicólogo pede pode ser sinónimo de uma certa “resistência à relação terapêutica numa fase inicial”.

E quando os nossos filhos fazem repetidamente o mesmo desenho, isso pode ter algum significado? A psicóloga diz que sim. “Pode ser sinal de necessidade de controlo e previsibilidade, comum em crianças ansiosas; pode ser uma tentativa de elaboração emocional, quando a criança retorna ao mesmo tema para o compreender simbolicamente; pode indicar fixação num conflito ou preocupação, sobretudo quando o conteúdo se mantém rígido e não evolui ao longo do tempo”, explica Isa Silvestre.

Mas até isso tem de ser enquadrado, sublinha. Até porque “a repetição pode também ser simples prazer gráfico, treino de competência motora ou identificação com um tema”.

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