Amamentar ajuda a emagrecer? Quem tem implantes mamários não consegue amamentar? Amamentar reduz o risco de cancro na mama? (os mitos e as verdades)

3 ago, 09:00
Amamentação

A amamentação é um dos temas que levantam mais dúvidas às jovens mães. Sobretudo às mães de primeira viagem. E às dúvidas juntam-se crenças e frases feitas, que se prolongam ao longo dos anos e que, muitas vezes, só atrapalham o processo

“O teu leite é fraco por isso é que ele chora tanto.”

“Estás constipada, não podes amamentar.” 

“Quando voltares ao trabalho, o leite seca.”

“Enquanto amamentares, não corres o risco de engravidar.”

Estes são exemplos de frases que quase todas as mães já ouviram. Frases feitas que muitas vezes minam o processo de amamentação e ditam o insucesso e que nem sempre têm qualquer fundo de verdade. A propósito da Semana Mundial do Aleitamento Materno, convidámos Mónica Pinho, enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstetrícia no Hospital dos Lusíadas Lisboa e Conselheira de Aleitamento Materno (CAM), para nos ajudar a decifrar algumas das frases feitas e crenças sobre aleitamento materno. Dos muitos estereótipos existentes, selecionámos 21 por serem os mais comuns ou os que mais implicação têm no sucesso do processo de amamentação.  

1 – Há mulheres com leite fraco ou que produzem leite insuficiente

“São duas coisas diferentes. O leite materno não é fraco. Não há melhor leite para o bebé do que o leite da própria mãe. O leite é produzido de acordo com as necessidades nutricionais do bebé a cada momento. Um bebé amamentado em exclusivo tem necessidade de mamar mais vezes porque o leite materno tem proteínas de cadeia curta, que são de digestão fácil. É por isso que tem necessidade de mamar mais vezes e não porque o leite da mãe seja fraco e esteja a passar fome. Outra questão é o leite ser insuficiente. Normalmente não há falhas na produção. Pode é haver falhas na procura. O bebé pode não estar a extrair o leite de forma correta ou as mamadas podem ser insuficientes. Pode acontecer o bebé não estar a ir à mama as vezes suficientes para estimular a produção do leite. E isso resolve-se. Não deixem de procurar ajuda junto de uma CAM, por exemplo. Um bebé que esteja a urinar e a defecar com regularidade por norma está a ser bem alimentado e não há razões para preocupação.”

2 – Não devo amamentar se estiver doente (com febre, gripe ou uma gastroenterite, por exemplo)

“Muito pelo contrário. A mãe que amamenta produz anticorpos que vão proteger o bebé contra a doença de que a mãe padece. Salvo raríssimas exceções (é o caso de uma mãe HIV postiva ou com tuberculose), a mãe deve sempre amamentar.”

3 – Não posso comer determinados alimentos se estiver a amamentar

“A alimentação deve ser rica e variada, tal como recomendado durante a gravidez, tendo em conta que já não precisa de ter cuidados com riscos associados à toxoplasmose. Quanto mais rica e variada for a alimentação da mãe, mais rico vai ser o sabor do leite materno e prepara, inclusive, o palato do bebé para a diversificação alimentar. O único alimento que está provado que pode provocar cólicas ao bebé é o leite de vaca. Mas a considerar tirar o leite de vaca da alimentação da mãe, isso deve ser feito sempre em parceria com o pediatra.”

4 - Só posso tomar paracetamol se estiver a amamentar. Todos os outros medicamentos estão contraindicados

“Mito. Existem muitos medicamentos compatíveis com a amamentação. Caso seja medicada e tenha dúvidas é só consultar o site elactancia.org, que classifica os medicamentos de acordo com o risco para a amamentação. É gerido por médicos pediatras e totalmente fiável. Para quase todos os medicamentos há alternativas compatíveis com a amamentação. Um alerta: suspender a amamentação durante um tratamento pode muitas vezes ser início do desmame não desejado.”

Para quase todos os medicamentos há alternativas compatíveis com a amamentação

 

5 – O regresso ao trabalho resulta no desmame do bebé

“É mito. A produção de leite, depois das seis semanas pós-parto, depende na maioria da oferta e da procura. É importante organizar a vida diária para haver quatro a seis mamadas por dia para continuar a haver produção, incluindo o leite que é extraído para o bebé mamar quando está longe da mãe. Extrair leite no trabalho não é obrigatório mas pode ser uma ajuda. Alguns conselhos: amamentar o bebé antes de sair de casa; organizar as refeições de sólidos para o período do dia em que o bebé está ausente da mãe; manter a amamentação em livre demanda assim que a mãe chega a casa ou junto do bebé.”

6 – Não corro o risco de engravidar se estiver a amamentar

“Depende. O método de amenorreia lactacional é eficaz enquanto método contracetivo desde que estejam garantinas as seguintes condições: bebé com menos de seis meses; bebé faz aleitamento materno exclusivo; bebé não faz intervalos noturnos maiores do que seis horas; mãe ainda não menstruou. Se não respeitar uma destas condições, há sim o risco de engravidar.”

7 – Sentir dores durante a amamentação é normal

“É mito. Amamentar não é suposto ser doloroso. A dor na amamentação quase sempre está relacionada com problemas de pega e a família deve procurar ajuda especializada para resolver o problema.”

Uma correta pega é fundamental para evitar dor durante a amamentação

8 – O bebé deve mamar de duas em duas ou de três em três horas e chora sempre para mamar

“Outro mito. O bebé deve mamar em livre demanda. Um recém-nascido mama em média nove a 12 vezes nas 24 horas do dia. A partir das quatro a seis semanas, o bebé mama uma média de seis a nove vezes por cada 24 horas. Mas são apenas médias. É importante lembrar que o bebé não vai à mama só procurar alimento. Vai à mama porque tem sede, para procurar consolo, alívio da dor, mimo, carinho… o que também é fundamental para o seu desenvolvimento.”

9 – A quantidade de leite que tiro com a máquina corresponde à quantidade de leite que o bebé tem disponível para mamar

“Mais um mito. É importante que as mães não se guiem pela quantidade que conseguem extrair para aferir a quantidade que o bebé bebe. O bebé extrai mais leite do que a mãe consegue extrair com a bomba.”

10 – Quem teve parto normal produz mais leite do que quem teve cesariana

“Mito. Hoje em dia, como é preconizado que o bebé seja amamentado na primeira hora de vida e se mantenha o alojamento conjunto, seja parto normal ou cesariana, se o bebé mamar em livre demanda há a mesma probabilidade de produzir leite. É importante reforçar a importância da livre demanda e o contacto pele com pele entre mãe e bebé, independentemente da via de parto.”

11 – O stress prejudica a produção de leite

“Depende. A produção do leite depende da ocitocina e da prolactina, não depende das hormonas do stress. Se mantiver a livre demanda, à partida não prejudica a produção de leite. Contudo, quando há, por exemplo, uma perda familiar ou alguém muito doente que precisa da presença física da mãe, isso reflete-se na amamentação. Não por causa do stress, mas por causa da separação entre mãe e bebé. Se ela não conseguir estar com o bebe é difícil manter a produção.”

12 – Há alimentos que potenciam a produção de leite

“Mito. Se o bebé não estiver a mamar eficazmente, não vai aumentar a produção, coma a mãe aquilo que comer.”

13 – Amamentar é fácil

“A amamentação é um processo que precisa de ser aprendido. Tem muito que ver com a socialização. Quando os pais estão habituados a lidar com bebés na família ou no seu círculo de amigos, o processo é mais fácil. Quando, por exemplo, o primeiro bebé que uma mãe pega é o dela, tudo é feito com muito medo. É normal que seja mais complicado. Amamentar exige uma disponibilidade de tempo muito grande. Sobretudo no primeiro mês. Depois de apreendido, à medida que o tempo vai passando começa a ser mais fácil. É importante que as mães tenham consciência que não têm de estar prontas para a vida quotidiana logo ao fim de uma semana. É importante algum tempo de ninho, para os pais namorarem o bebé, conhecerem o seu bebé e se adaptarem à nova realidade da vida familiar. Não tenham vergonha de procurar ajuda no nosso círculo para tarefas como levar o lixo à rua, passar a ferro, cozinhar ou fazer compras, para que a mãe esteja mais disponível para o bebé.”

A enfermeira Mónica Pinho lembra que, pelo menos nos primeiros tempos, é importante que a mãe esteja disponível para o bebé.

 

14 – Posso amamentar qualquer bebé além do meu filho

“Depende. Não é aconselhado (apesar de sabermos que culturalmente isso ainda acontece) por causa de eventuais doenças. Existe em Portugal o banco de leite humano, onde as mulheres podem doar o seu leite para ser dado a bebés prematuros cujas mães não conseguem produzir leite para os alimentar. Mas o leite é pasteurizado e libertado de impurezas e bactérias antes de ser administrado. E isso não acontece quando uma mãe amamenta ou doa leite espontaneamente diretamente ao outro bebé do seu círculo familiar, de amigos ou conhecidos. Há, portanto, riscos que só se devem correr em situações muito pontuais e extremas, como, por exemplo, o bebé não ter outro alimento.”

15 – Quem tem implantes mamários não consegue amamentar

“É mito. Contudo, depende muito da abordagem que é feita na altura de colocação do implante. Depende, por exemplo, do sítio onde é feito o corte: se for na axila ou na base da mama, por norma não há interferência. Se for feito na auréola, já pode ser prejudicar. Não torna a amamentação impossível, mas é mais um desafio. Depende também do local onde é colocada a prótese. Se for colocada por trás do músculo, não há problema, se for colocada entre a glândula mamária e a pele já pode dificultar a saída do leite.”

16 – Amamentar ajuda a emagrecer e a perder o peso da gravidez

“É verdade. Desde que a mulher tenha uma dieta saudável, equilibrada e não hipercalórica. Para haver uma referência, dar de mamar gasta em média 500 a 600 calorias por dia.”

17 – Amamentar reduz o risco de cancro na mama

“É verdade. Há estudos que comprovam a redução drástica desse risco e é um dos grandes benefícios da amamentação. Contudo, é preciso lembrar que nunca há risco zero e a mulher dever manter a vigilância e fazer os exames de rotina.”

18 – O tamanho da mama interfere na quantidade de leite produzido. Mulher com mamas pequenas têm pouco leite

“É mito. Quase todas as mulheres têm a mesma quantidade de glândula mamária. As mamas grandes normalmente têm é mais gordura, mas não mais glândula mamária. Existem alguns casos raros em que existe mesmo pouca glândula mamária. Mas é muito, muito raro.”

19 – Cada mamada tem um tempo específico

“O bebé deve mamar em livre demanda. O que significa que há mamadas mais longas e outras mais curtas. O bebé deve mamar até estar satisfeito, relaxado, sonolento e com as mãos abertas. Se permanece com as mãos fechadas, é porque ainda está insatisfeito.”

20 – O bebé deve mamar sempre das duas mamas

“Não é obrigatório. O bebé deve ‘esvaziar’ a mama e deve sempre ser-lhe oferecida a segunda mama. Mas o bebé só mama se quiser.”

21 – Chupetas e biberões prejudicam a amamentação

“Aí está um tema quente. Não é recomendada a utilização da chucha, tetina e biberões pelo menos enquanto a amamentação não estiver completamente estabelecida. Depois disso, pode até ser um auxiliar: por exemplo, o biberão ajuda quando a mãe vai trabalhar ou necessita de sair, ir ao ginásio, ao cabeleireiro ou a uma consulta enquanto alguém cuida do seu bebé. Pode, portanto, ajudar a gerir a vida familiar. Pode também ser útil para o pai ou o outro elemento do casal dar um biberão ao bebé e estabelecer com ele também uma ligação mais próxima. Mas, reforço, só quando a amamentação já está estabelecida. É importante também sublinhar que não se deve enganar o bebé ou se substitua a mamada com água ou com uma chucha, por exemplo.”

É desaconselhado o uso de chupetas, biberões e tetinas enquanto a amamentação não está estabelecida

 

Precisa de ajuda com a amamentação ou quer saber mais? Procure ajuda.

- SOS Amamentação

- Rede Amamenta

- Associação Portuguesa dos Consultores de Lactação Certificados

- La Leche League

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