Guerra, crise, aborto ou eutanásia. Cinco regras de ouro para falar de assuntos difíceis às crianças

26 fev 2023, 22:00
Abraço (Getty Images)

Os adultos têm tendência para subestimar os mais novos e, muitas vezes, é mais fácil evitar assuntos difíceis e contornar perguntas constrangedoras. Mas essa não é a solução. Até porque se perguntam, querem saber "a verdade". Só pedem "calma": "Gosto que me digam sempre a verdade, prefiro é que me vão dizendo as coisas aos poucos. Não precisam de dizer tudo de uma vez”

Em casa de Teresa Santos e Carlos Ferreira, “fala-se de tudo”. “Não há tabus”, garantem eles. E asseguram que sempre foi assim, mesmo quando Tiago, agora com sete anos, era mais pequeno e começou com os primeiros porquês.

Pai e mãe admitem que, lá em casa, a televisão está ligada nos noticiários à hora de jantar, até porque é a única oportunidade que têm para ambos se manterem atualizados. E Tiago vê as notícias sobre os temas que marcam a atualidade: guerra, eutanásia, crise, alterações climáticas. E faz perguntas.

“Sempre optámos por responder e não esconder nada. Claro que temos algum cuidado com a linguagem que usamos. Mas não escamoteamos a realidade”, revela Teresa.

Tiago diz que agradece a abertura dos pais para falarem de tudo. É curioso e insatisfeito e está sempre à procura de respostas. “Não gosto que me escondam coisas. Podem até não dizer tudo, tudo. Mas não gosto de perguntar uma coisa e sentir que os adultos andam às voltas ou não respondem”, confessa o jovem.

“Prefiro estar preparado”

José Pedro Pechilga, Zé Pedro para os amigos, sabe o que quer e do que gosta, mas não sabe se é assim com todas as crianças. E alerta mesmo que os adultos devem olhar para a criança que têm diante deles e adequar o discurso à personalidade de cada um. Tem nove anos e anda no quarto ano. Está por dentro de muitos assuntos da atualidade e gosta que assim seja.

“Eu prefiro saber sempre a verdade. Por exemplo, se a guerra da Rússia e da Ucrânia chegar a Portugal, podemos ter de nos refugiar noutro país. Então, é bom sabermos. P.refiro estar preparado”, exemplifica.

Porém, Zé Pedro confessa que não gosta que a informação seja “despejada” toda de uma vez. Prefere ir digerindo aos poucos o que lhe vai chegando. “Gosto que seja mais calmo. Quando são coisas pesadas, é melhor com calma. Gosto que me digam sempre a verdade, prefiro é que me vão dizendo as coisas aos poucos. Não precisam de dizer tudo de uma vez”, diz.

Criar o contexto

Na verdade, os alertas de Tiago e Zé Pedro vão ao encontro do que aconselham os profissionais sobre esta árdua tarefa de falar às crianças dos assuntos da atualidade. Falar de temas como a guerra, a crise económica, o aborto, ou a eutanásia pode ser desconfortável, mesmo quando a conversa é entre adultos. Mas, no que toca às crianças, a regra de ouro é não as subestimar.

“Enquanto adultos, tendemos a preservar as crianças dos temas mais difíceis e alguns adultos podem pensar que pode ser benéfico evitar esses tópicos. Mas, hoje em dia, da forma com a informação flui, há grande probabilidade de as crianças tomarem contacto com esses temas fora de um contexto que possamos controlar. Assim, é importante criar contextos em que possamos falar desses tópicos, controlando quando os vamos introduzir e como”, defende a psicóloga Sofia Mendes, membro do Conselho da Especialidade de Psicologia da Educação da Ordem dos Psicólogos.

“Termos uma atitude proactiva, pode ter esta mais-valia de pensar como vamos falar com as crianças e até de praticar ou treinar como vamos abordar. Neste treino, podemos limar o conteúdo verbal e não verbal. De forma que as duas dimensões da comunicação não se anulem ou não se prejudiquem”, acrescenta.

 “Exemplos próximos”

Alexandra Cleto é professora do Ensino Básico. Todos os dias se vê confrontada com perguntas dos alunos sobre a informação que lhes chega pelas redes sociais, pela televisão ou pelas conversas entre os adultos que vão ouvindo. Procura responder a tudo, “sem chocar a criança com palavras mais duras que até a nós nos atingem o coração” e “evitando pormenores que são desnecessários”.

A professora toma como exemplo a eutanásia: “Explico-lhes que a pessoa escolheu ter uma morte assistida para pôr fim a um sofrimento muito, muito grande, para o qual já não tinha solução. E que, por isso, mais vale adormecer. Explico-lhes que a pessoa não sofre e que é ajudada por um médico ou por um enfermeiro. E que a pessoa está doente, muito doente, mas na posse de todas as suas faculdades mentais e que sabe muito bem a escolha que fez.”

“Penso que o fundamental é adotar uma linguagem muito próxima deles, com exemplos próximos. E creio que isto é válido para todos os assuntos”, acrescenta Alexandra Cleto.

Mas a professora, que também é mãe de dois adolescentes e de um pré-adolescente, confessa que nem todos os assuntos a deixam à vontade. Exemplo disso é a pedofilia e a violação. “São situações que me deixam mesmo constrangida, porque não posso usar palavras boas e positivas para falar de algo tão negativo. Normalmente, não entro no ato sexual em si ou do abuso e insisto sempre que se algum adulto, desconhecido ou mesmo conhecido (e reforço sempre isso), tentar algum comportamento que não seja habitual ou adequado, devem contar sempre a alguém em quem confiem. Mas fico sempre a questionar-me como é que eles interpretam as minhas palavras. É que, atrás daquela criança, está uma família com uma cultura e hábitos muito próprios”, explica.

“Não minto aos miúdos”

Para Alexandra Cleto, é importante não banalizar os assuntos e, aconteça o que acontecer, recusa-se a mentir a uma criança: “Não minto aos miúdos, mesmo correndo o risco de ser chamada à atenção por algum pai”.

Porém, procura sempre evitar tudo o que possa contribuir para o sofrimento da criança. “Já lhes chega o dia-a-dia e todas as perdas pelas quais têm de passar ainda tão pequenos… a perda de um familiar, a morte de um cão…”, justifica.

Tem sido assim, no último ano, em relação a muitos pormenores sobre a guerra na Ucrânia. Até porque havia na escola crianças com familiares na Ucrânia. “Os meninos ficavam muito sensibilizados. Fazia-lhes muita impressão a morte de famílias inteiras e crianças como elas que ficavam sem ninguém. Questionavam-me muito sobre o que iria acontecer àquelas crianças que viam na televisão sem os pais e a fugir da guerra sozinhas”, recorda.

Também por isso, e para evitar o tal sofrimento, adotou uma regra lá em casa desde que a guerra começou: “Se estiver acompanhada dos meus filhos, a televisão não está ligada nos noticiários. Eles até podem ouvir o jornalista a relatar que aconteceu isto ou aquilo, ler as notícias…, mas não têm de ver famílias inteiras baleadas no meio do chão.”

Cinco regras de ouro

Não há dois adultos iguais, nem duas crianças iguais. Mas a psicóloga Sofia Mendes deixa-nos algumas regras que podem servir de base a quem se vir confrontado com a necessidade de ter de abordar assuntos mais pesados em conversa com os mais novos.

1 - Pensar antes de falar

A escolha das palavras é muito importante, bem como a adequação do discurso às idades. Às vezes não há grande tempo para pensar, perante as perguntas de quem quer saber, mas é importante que pensemos com cuidado, antes de dizer a primeira coisa que nos vem à cabeça e não sabemos como vai ser interpretada por quem nos ouve.

2 - Encontrar o momento certo

Se possível, encontrar um momento tranquilo, sem interrupções e que possamos ficar naquele tópico o tempo necessário, de modo que a conversa não seja interrompida num momento que até pode ser relevante.

3 – Perceber o que as crianças já sabem do assunto

As crianças não são tábua rasa e, quando perguntam sobre algum assunto, normalmente já têm informação prévia. É importante lançar perguntas abertas para tentar compreender que informação é que já existe.

4 – Escutar

Quando perguntamos, temos de ter disponibilidade para escutar. Para compreender a perspetiva da criança, sem julgar se está certo ou errado.

5 – Validar os sentimentos das crianças

Não há sentimentos corretos e incorretos. Não há emoções certas ou erradas. Não faz nenhum mal dizer à criança que, enquanto adultos, também temos sentimentos, também temos medo da guerra e das catástrofes naturais.

Dentro do adequado, partilhar as emoções ajuda a modelar os sentimentos da própria criança. É apenas fundamental assegurar que a forma como nos expressamos não vai interferir com a forma como a criança encara o adulto enquanto elemento securizante.

Afinal, somos um exemplo para aqueles seres que nos ouvem, ávidos de informação. A professora Alexandra Cleto recorda que “as crianças são ótimas. São extraordinárias. Nós é que as degradamos com desilusões e famílias e adultos stressados e apressados.”

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