As crianças perderam 35% das aprendizagens de um ano escolar normal durante a pandemia, diz um novo estudo

CNN , Jacqueline Howard
12 fev 2023, 09:00
Escola

Um novo estudo aumenta as evidências crescentes de que as crianças em idade escolar em todo o mundo sofreram significativos reveses no seu progresso de aprendizagem durante a pandemia de covid-19.

Os alunos "perderam cerca de 35% de aprendizagem de um ano escolar normal" quando o ensino presencial foi interrompido durante a crise de saúde pública, segundo um artigo publicado na revista Nature Human Behaviour. O encerramento das escolas pretendia retardar a propagação do coronavírus, mas este novo artigo sugere que os défices de aprendizagem surgiram e persistiram ao longo do tempo. O estudo incluiu dados de 15 países diferentes, a maioria da Europa.

"O progresso da aprendizagem das crianças em idade escolar abrandou substancialmente durante a pandemia. Em média, as crianças perderam cerca de um terço do que normalmente teriam aprendido num ano escolar normal, e estes défices de aprendizagem surgiram muito cedo na pandemia", disse Bastian Betthäuser, autor do artigo e investigador do Sciences Po Centre for Research on Social Inequalities, em França, e da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

"As crianças ainda não recuperaram a aprendizagem que perderam no início da pandemia", observou. Além disso, "a desigualdade na educação entre crianças de diferentes origens socioeconómicas aumentou durante a pandemia". "Portanto, a crise de aprendizagem é uma crise de igualdade. As crianças de meios desfavorecidos foram desproporcionalmente afetadas pelo encerramento das escolas."

Os investigadores analisaram dados de 42 estudos sobre o progresso das aprendizagens durante a pandemia em 15 países: África do Sul, Alemanha, Austrália, Bélgica, Brasil, Colômbia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Itália, México, Países Baixos, Reino Unido, Suécia e Suíça. Os estudos foram publicados entre março de 2020 e agosto de 2022. Os investigadores realizaram uma pesquisa inicial dos estudos em abril de 2021 e pesquisas adicionais em fevereiro e agosto de 2022.

"Revimos sistematicamente todas as pesquisas existentes sobre o progresso da aprendizagem das crianças em idade escolar durante a pandemia de covid-19", garantiu Betthäuser. "E é importante notar que a maior parte da investigação existente vem de países de rendimento médio-alto, enquanto há apenas alguns estudos de países de baixo rendimento."

Os dados mostraram que os défices de aprendizagem durante o encerramento das escolas e confinamento nos primeiros dias da pandemia foram "particularmente pronunciados" para crianças de meios socioeconómicos baixos, e que o progresso da aprendizagem abrandou mais para a Matemática do que para a capacidade de leitura.

Os dados específicos dos Estados Unidos e do Reino Unido eram "bastante semelhantes", indicou Betthäuser, e traduziram-se em pouco mais de um terço de um ano letivo de aprendizagens perdidas, em média.

O documento revela que a evidência internacional da perda de aprendizagem durante os primeiros dias da pandemia refletem a experiência dos EUA, disse Thomas Kane, diretor do Center for Education Policy Research da Universidade de Harvard.

"Uma diferença importante é que o ensino à distância teve um efeito desproporcionalmente negativo nos estudantes pobres nos Estados Unidos. As lacunas aumentaram menos nos agrupamentos escolares que voltaram mais rapidamente ao ensino presencial", analisou Kane, que não participou na nova investigação. "Se não agirmos com determinação agora, a perda de aprendizagem será a consequência mais duradoura e mais injusta da pandemia."

Kane sugeriu que os agrupamentos escolares tomem medidas tais como aulas particulares e tempo de aprendizagem através de programas de verão alargados ou de anos letivos mais longos.

Embora estes dados sobre a perda de aprendizagem durante a pandemia não sejam novos, o novo estudo mostra como as conclusões têm sido consistentes, sublinhou Susanna Loeb, professora da Escola de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Stanford.

"Os estudantes, em média, estão muito atrás de onde estariam sem a pandemia e esta aprendizagem reduzida é muito maior para grupos de estudantes que já tinham mais probabilidades de estar a ter dificuldades na escola", afirmou Loeb, que também não participou nestes estudo.

Em outubro, os resultados dos exames nacionais dos Estados Unidos de 2022, frequentemente considerados o "Estado da Nação" escolar, mostraram que os alunos do quarto e oitavo anos ficaram para trás na leitura e tiveram o maior declínio de sempre em Matemática. Foi a primeira avaliação nacional dos resultados escolares em três anos desde o surgimento da covid-19, e revelou o efeito devastador da pandemia na aprendizagem.

Os resultados de um inquérito do Pew Research Center, publicado em outubro, sugerem que cerca de 61% dos pais de alunos do ensino básico dizem que o primeiro ano da pandemia teve um efeito negativo na educação dos seus filhos, 7% dizem que teve um efeito positivo e 28% dizem que não teve nem efeito positivo nem negativo.

Entre aqueles que afirmam que a pandemia teve um efeito negativo na educação dos seus filhos, 44% dizem que ainda continua a ser o caso, enquanto 56% consideram que o impacto foi apenas temporário. O inquérito incluiu 3.251 pais.

"Os pais devem preocupar-se com a falta de aprendizagem dos seus filhos em resultado da pandemia", avisou Loeb. "Temos toneladas de provas de que o que os estudantes aprendem na escola contribui significativamente para o seu sucesso posterior - a conclusão do ensino secundário, a entrada na faculdade, até mesmo oportunidades no mercado de trabalho e bem-estar a longo prazo. Os pais podem ajudar incentivando os seus filhos a envolverem-se novamente na escola, com os colegas e professores e com hábitos de aprendizagem positivos."

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