Criança nepalesa foi alvo de "linchamento" mas os pais não fizeram queixa. "Medo de represálias" pode ser a razão

14 mai, 21:30
criança agredida

“Perante a onda de violência que estamos a assistir” não é de estranhar. Na verdade, “qualquer pessoa nesta situação” teria medo, diz uma psicóloga. E no caso dos imigrantes o medo é ainda maior

Imigrantes "não se sentem protegidos" e essa poderá ser a explicação para o facto da mãe de uma criança de nacionalidade nepalesa que "vítima de linchamento" numa escola de Lisboa não ter feito qualquer denúncia às autoridades.

O menino foi vítima de agressões físicas e verbais com conteúdo "racista e xenófobo", num caso que foi denunciado pela diretora executiva do Centro Padre Alves Correia (CEPAC), que adiantou à rádio Renascença que os agressores também eram menores. Os pais não apresentaram queixa às autoridades e mudaram o filho de escola. Porquê? “Medo de represálias”, afirma à CNN Portugal a psicóloga Melanie Tavares, que também é Coordenadora do Instituto de Apoio à Criança (IAC).

Pode não ser fácil para a maioria das pessoas perceber os motivos dos pais da criança nepalesa vítima da agressão não terem apresentado queixa junto das autoridades, mas para a psicóloga Melanie Tavares não é difícil perceber. “Perante a onda de violência que estamos a assistir” não é de estranhar. “Há medo de represálias”, garante. Na verdade, “qualquer pessoa nesta situação”, teria medo de represálias. No caso de imigrantes o medo é maior.

“Não se sentem protegidos”, garante. Mesmo quem está no país com situações regularizadas. Além disso, garante que há situações em que “uma queixa inicial” pode levar “a outro tipo de novas agressões”, explica a especialista.

Nos tempos que vivemos parece que tudo “está a escalar”. E este caso envolve crianças menores, relativamente pequenas: “Será que agem de acordo com o que ouvem em casa?”, questiona a psicóloga. Tal como pode ter havido um “efeito contagiante, um efeito de grupo” em que “um instiga” e “os outros vão atrás”.

Um dos grandes problemas para estas comunidades é a sensação de que “não sabem de onde vem o perigo”. E neste caso concreto, aconteceu na escola, que "tem uma função protetora" e é considerado “um local seguro”.

Além do mais, Melanie Tavares afirma que “as escolas tendem a negar” situações destas porque “não querem ter esse ónus” e é uma “situação generalizada. Não é apenas a escola ‘a?, ‘b’ ou ‘c?”. E casos destes não podem ser encarados como algo “pontual”. Até porque a agressão foi o extremo e “ninguém sabe o que aconteceu antes”. Se já havia “bullying”, se a vítima já era afastada das brincadeiras ou marginalizada.

Certo é que o menor deve estar a passar “dias difíceis”, por isso, a psicóloga não estranha que chore, tenha pesadelos e não queira ir à escola.

Preocupado com os tempos que se vivem na comunidade escolar, o Instituto de Apoio à Criança juntou-se a outras entidades e criaram o “Observatório da Convivência Escolar”. Conta com o apoio da FNE – Federação Nacional da Educação, a AFIET - Associação para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho, a CONFAP – Confederação Nacional das Associações de Pais e a ANDAEP – Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas.

Para esta psicóloga todos temos um papel nestas situações e lembra que o IAC tem a linha SOS Criança (116 111). Uma linha para onde podem ligar as vítimas, os pais, as escolas. “É uma linha anónima, onde se pode fazer denúncias. Todas as pessoas podem ligar”, conclui.

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