Recorrer a um crédito é, para muitas famílias, o ponto de partida para concretizar objetivos importantes. Porém, num cenário em que o acesso ao financiamento parece estar a tornar-se mais favorável, importa destacar uma questão essencial: será que todas as decisões de crédito que estamos prestes a tomar são realmente sustentáveis?
Num momento em que as prestações mensais começam a aliviar, nomeadamente com a sétima descida consecutiva das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu, as famílias sentem essa mudança e os dados apontam para um novo impulso na procura de crédito desde 2024, especialmente no segmento do crédito à habitação. Neste contexto, a vontade de avançar aumenta, mas o entusiasmo deve andar de mãos dadas com o planeamento.
Conseguir um empréstimo não deve ser, por si só, uma garantia de estabilidade. Um crédito sustentável significa muito mais do que conseguir uma aprovação bancária, significa garantir que a prestação mensal é compatível com o orçamento atual, que existe margem para imprevistos e que não põe em causa a estabilidade futura. É, acima de tudo, um crédito que respeita o equilíbrio financeiro e contribui para a concretização de objetivos com segurança e previsibilidade.
Um dos indicadores mais relevantes para avaliar a sustentabilidade de um crédito é a taxa de esforço, ou seja, a percentagem do rendimento líquido mensal destinada ao pagamento de prestações de crédito. Embora o limite máximo aceite por muitas instituições financeiras seja de um terço (33%) do rendimento líquido familiar, este valor deve ser ponderado com realismo, de forma a garantir um crédito sustentável. Cada família tem o seu próprio orçamento mensal caracterizado por despesas fixas e variáveis, pelo que tudo deve contar para o cálculo final. E aquilo que é aceitável para uns pode ser excessivo para outros.
Outro fator fundamental é a existência de margem de segurança no orçamento, para lidar com situações inesperadas. Idealmente, ter um fundo de emergência equivalente a seis meses de despesas fixas é uma prática segura na proteção contra imprevistos. Um crédito sustentável não é aquele que cabe objetivamente no orçamento, mas sim aquele que permanece viável perante mudanças, permitindo manter alguma poupança regular.
A verdade é que muitos consumidores ainda contratam créditos unicamente com base na prestação mensal, sem compreender o custo total do financiamento. Para isso, a TAEG (Taxa Anual de Encargos Efetiva Global) e a FINE (Ficha de Informação Normalizada Europeia), que resumem de forma clara o que realmente vai pagar e todas as características do crédito, permitem comparar propostas de forma clara, transparente e tomar decisões mais informadas. Negociar prazos, spreads e taxas é um direito do consumidor e, muitas vezes, uma vantagem que poucos exploram.
Mesmo após a contratação, a gestão ativa do crédito é determinante. Rever periodicamente as condições, avaliar oportunidades de renegociação ou consolidação e amortizar sem comissões quando possível, são opções que devem ser conhecidas por todos. Estas decisões não são apenas mecanismos financeiros, são instrumentos de proteção do orçamento familiar e de reforço da estabilidade.
O crédito é, e deve continuar a ser, uma alavanca para o apoio e desenvolvimento das famílias, dando forma aos seus objetivos de vida, mas, para que cumpra essa função de forma duradoura, tem de assentar em bases informadas e sustentáveis, num momento em que o crédito parece acessível e oportuno, mas os riscos nem sempre são visíveis ou estão claros.