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Head of Operations, Twinkloo

A linha que separa o endividamento evitável do inevitável

18 nov, 10:00

O crédito é, inevitavelmente, uma ferramenta essencial para alcançar objetivos pessoais e familiares, desde a compra de habitação, ao investimento na educação ou gestão de imprevistos. No entanto, quando o crédito não é planeado e compreendido, pode transformar-se numa fonte de pressão constante e evitável.

Neste contexto, a literacia financeira, entendida como a capacidade de compreender e gerir os instrumentos financeiros de forma consciente, deve ser encarada como o pilar central para escolhas responsáveis e sustentáveis, e o caminho para transformar o crédito numa oportunidade, em vez de um risco.

Num cenário em que o endividamento das famílias portuguesas ultrapassa os 167 mil milhões de euros, assistimos a uma clara tensão entre o recurso frequente ao crédito e a necessidade de garantir que este se enquadra no orçamento familiar sem comprometer o equilíbrio da vida quotidiana. Contudo, apesar do valor absoluto da dívida continuar a aumentar, os portugueses nunca estiveram tão pouco endividados em percentagem do seu rendimento, indicando uma melhoria na capacidade de pagamento das famílias. Embora as famílias estejam a contrair mais crédito, poderão, também, estar mais preparadas, desde que façam escolhas conscientes.

Para que o endividamento seja consciente, é necessário que parta de uma escolha informada e ponderada. Uma boa prática passa por calcular a taxa de esforço real, tendo em conta não apenas as prestações previstas, mas também as despesas fixas, os imprevistos e os custos invisíveis, como seguros e manutenção. Para evitar que o crédito se torne uma armadilha, também é importante simular diferentes cenários, prevendo variações na taxa de juro ou no rendimento, de modo a evitar que uma alteração inesperada comprometa a estabilidade financeira.

Ora, num mercado cada vez mais complexo, os intermediários de crédito assumem um papel decisivo, sendo responsáveis por 57% do crédito à habitação, em 2024, e representando, para muitas famílias, a porta de entrada no complexo sistema financeiro. Longe de serem apenas um meio para “conseguir crédito”, estes profissionais são parceiros que ajudam a traduzir a linguagem financeira em decisões compreensíveis, a simular cenários, antecipar riscos e fazer escolhas alinhadas com os objetivos de cada cliente. Quando um intermediário dedica tempo a conhecer o perfil do cliente, a explicar os custos totais, a apresentar alternativas e a reforçar os direitos de quem contrata, está a criar condições para que o crédito seja saudável. Esta mediação não substitui a literacia financeira individual, mas complementa-a, ajudando a evitar erros que, mais tarde, podem ter custos elevados.

Criar uma cultura de crédito responsável, em que os consumidores conhecem os seus direitos e deveres e os profissionais, que os aconselham, privilegiam a sustentabilidade em detrimento do volume, é um benefício para todos. Isto traduz-se em simulações claras, num acompanhamento personalizado, na disponibilização de informação acessível e no incentivo a escolhas informadas, mesmo que isso signifique não avançar com um crédito, colocando sempre a saúde financeira das famílias em primeiro lugar. Um crédito responsável é um crédito sustentável, tanto para as famílias, como para as instituições e para o país.

A diferença entre o crédito que liberta e o crédito que limita reside na antecipação, nas perguntas feitas e nas opções ponderadas. Quando os intermediários de crédito desempenham o seu papel de apoio e orientação dos clientes, aproximamo-nos de um mercado em que o crédito personifica um instrumento de progresso e não uma fonte de preocupação. Com literacia financeira, práticas responsáveis e o apoio de intermediários que privilegiam a sustentabilidade, o crédito continuará a ser uma ferramenta inevitável que contribui para a concretização de projetos de vida, sem colocar em causa um futuro financeiro sustentável.

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