Apesar de ser dado como certo que o BCE voltará a descer taxas de juro na reunião da próxima semana, o debate sobre se há necessidade de novos cortes de taxas está a aumentar entre os ‘falcões’ e as ‘pombas’ que, em Frankfurt, decidem a política monetária da zona euro. Certo, para já, é que quem tem crédito à habitação vai sentir uma nova descida da prestação a pagar em março. Confira o seu caso
As famílias com contratos de crédito à habitação a ser revistos em março vão sentir uma nova diminuição da prestação a pagar ao banco. Uma descida que se fica a dever a um novo recuo das taxas Euribor durante o mês de fevereiro e que se deverá prolongar enquanto se mantiver a convicção de que o Banco Central Europeu (BCE) continuará a cortar as suas taxas de referência.
Nos mercados, a expectativa que existe é de que já na próxima semana, na reunião do BCE, em Frankfurt, na Alemanha, Christine Lagarde e os restantes membros do Conselho de Governadores voltem a decidir uma descida de taxas em 0,25 pontos percentuais, colocando a principal taxa de referência, a taxa de depósitos, em 2,5%.
A verificar-se este novo corte, será a sexta descida de taxas desde setembro de 2023, quando a taxa subiu para 4%. Ainda assim, será um valor bem mais elevado que a taxa zero que se registava há menos de três anos, em julho de 2022.
Descidas até quanto?
A dúvida que atualmente parece existir é a de saber até quanto irá o BCE descer as suas principais taxas de juro. Nos mercados, mais uma vez, a convicção é de que até ao final do ano a taxa de depósitos desça até aos 2%, o que obrigaria a mais dois cortes de 0,25 pontos percentuais além do corte da próxima semana.
Dentro do BCE há quem defenda o caminho sinalizado pelos mercados. Mas também há quem peça cautela. E considere, por um lado, que já não são os juros altos que estão a impedir a economia de crescer, e que alerte, por outro lado, para as pressões inflacionistas que ainda existem.
Os dados da inflação de janeiro, os últimos conhecidos, revelam um crescimento dos preços a um ritmo de 2,5%, ainda acima dos desejados 2%, mas bastante mais baixo que o verificado em outubro de 2022, quando atingiu o seu ponto mais alto nos 10,6%. Do lado do crescimento económico, os últimos dados conhecidos mostram que a economia da zona euro continua a marcar passo, tendo crescido apenas 0,9% no último trimestre do ano passado e tendo registado um crescimento anual de apenas 0,7%.
E será muito com base nos dados da inflação e do crescimento económico que serão tomadas as próximas decisões. Ainda antes da reunião do BCE da próxima semana, que se realiza na quinta-feira, serão conhecidos os dados da inflação de fevereiro. Já novos dados de crescimento económico apenas surgirão mais tarde.
Sem novos dados, para já vão ficando as várias declarações públicas de membros do BCE, divididos entre os que são consideradas ‘pombas’ dentro do Conselho de Governadores e defendem uma descida de taxas de juro mais agressiva, e os que são conhecidos como ‘falcões’ e defendem uma abordagem mais cautelosa.
O governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, por exemplo, visto como estando do lado das ‘pombas’ dentro do BCE, afirmou no início do mês, em entrevista à Reuters, que o BCE poderá ter de reduzir as taxas de juro para um nível inferior ao neutro para estimular o crescimento económico, uma vez que a inflação corre o risco de ficar abaixo do objetivo de 2%. É “bastante claro que precisamos de manter a trajetória das taxas de juro em baixa”, disse Mário Centeno. A taxa diretora do BCE, atualmente em 2,75%, deve atingir 2% “o mais cedo possível” este ano, através de novos cortes graduais de 25 pontos base, afirmou ainda o governador do Banco de Portugal.
Já Isabel Schnabel, membro da comissão executiva do BCE e um dos ‘falcões’ dentro da instituição, tem uma opinião bem diferente. Em declarações citadas pela Reuters, Schnabel defendeu que já era altura de se debater uma pausa na descida das taxas de juro porque, segundo esta responsável, a taxa de depósito de 2,75% já não é restritiva para a economia. “Estamos a aproximar-nos do ponto em que podemos ter de fazer uma pausa ou parar as nossas reduções de taxas”, disse Schnabel. “Não estou a dizer que já chegámos a esse ponto. Mas temos de iniciar a discussão”, sublinhou.
Independentemente da discussão, os mercados acreditam que o BCE vai continuar a descer taxas e, assente nessa convicção, os mesmos mercados apontam ainda para uma descida significativa das taxas Euribor até ao final do ano.
No caso da Euribor 3 meses, que em fevereiro, em termos médios, se fixará perto dos 2,5%, a perspetiva que existe é que em 31 de dezembro esteja num valor a rondar os 1,94%. No caso da Euribor 6 meses, que em fevereiro terá sido de 2,46%, a expectativa é de que chegue ao fim do ano ligeiramente acima dos 2%, e no caso da Euribor a 12 meses, que fechou fevereiro perto dos 2,4%, deverá chegar ao fim do ano nos 2,16%.
Certo mesmo é que, face à descida das taxas Euribor em fevereiro, quem tiver o seu contrato a ser revisto em março vai sentir uma diminuição da prestação a pagar ao banco. Usando como exemplo um crédito de 150 mil euros a 30 anos, indexado à Euribor 6 meses e com um spread (margem do banco) de 1%, a descida na prestação a pagar pode atingir um pouco mais de 75 euros. Para o mesmo exemplo, mas com um crédito de 200 mil euros, a descida ultrapassará os 100 euros.
Confira o seu caso:
Quanto já aumentou e como vai evoluir em março a prestação da casa
Empréstimo a 30 anos com spread de 1% || Valores de fevereiro até dia 27
EURIBOR 3 MESES
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
EURIBOR 6 MESES
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||
EURIBOR 12 MESES
|
||||||||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||||||||
NOTA 1 | Como foram feitos os cálculos
Os cálculos partem do princípio de que há três anos o capital em dívida era de 50, 100, 150 ou 200 mil euros, consoante o exemplo, e que o prazo de pagamento era de 30 anos, com um spread de 1%. A partir desse ponto, a cada revisão do contrato, aplica-se a taxa de juro correspondente e diminui o montante em dívida e o prazo de pagamento do crédito.
NOTA 2 | O que são as taxas Euribor
Euribor é a abreviatura de Euro Interbank Offered Rate. As taxas Euribor baseiam-se nas taxas de juro que um conjunto de bancos europeus está disposto a pagar para emprestar dinheiro uns aos outros. No cálculo, os 15% mais altos e mais baixos de todas as cotações recolhidas são eliminados. As restantes taxas são calculadas como média e arredondadas a três casas decimais. O valor das taxas Euribor é determinado e publicado diariamente. Existem cinco taxas Euribor diferentes, todas com diferentes maturidades (uma semana, um mês, três meses, seis meses e 12 meses).
