A tragédia que matou uma portuguesa na Passagem de Ano está provocar uma crise diplomática no meio da Europa

25 jan, 08:30
Memorial pelas vítimas da tragédia em Crans-Montana (Antonio Calanni/AP)

Libertação do dono do bar Le Costellation e da mulher não caiu bem junto das autoridades italianas

Itália foi desde o primeiro momento o líder da consternação e da procura por respostas para o que tinha provocado a morte de 40 pessoas num bar da cidade de Crans-Montana, onde dezenas de jovens celebravam a entrada em 2026.

Este sábado, e depois de uma decisão judicial ocorrida na Suíça, o país decidiu ir mais longe, movendo um protesto formal contra a libertação dos donos do bar onde se desenrolou a tragédia, acabando mesmo por chamar o seu embaixador no país.

De resto, a decisão do tribunal de permitir que Jacques Moretti e a mulher, Jessica, saíssem em liberdade também não caiu bem junto dos cidadãos e da política da Suíça, que pretendem respostas concretas para o que aconteceu no Le Constellation.

O casal está a ser acusado de homicídio negligente e de outros crimes relacionados com o trágico incêndio que, além dos 40 mortos - entre os quais a portuguesa Fany Pinheiro Magalhães, jovem de 22 anos natural de Santa Maria da Feira -, deixou mais de 100 feridos.

Jacques Moretti foi detido a 9 de janeiro, mas acabou por ser libertado esta sexta-feira, numa decisão que mereceu até reparos da primeira-ministra de Itália. “É uma afronta à memória das vítimas, um insulto às suas famílias”, afirmou Giorgia Meloni, que viu 10 cidadãos do seu país perderem a vida no incêndio.

Jacques e Jessica Moretti na chegada ao primeiro depoimento (Jean-Christophe Bott/AP)

Para formalizar as queixas, o governo italiano, também na figura do ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Trajani, instruiu o embaixador do país na Suíça, Gian Lorenzo Cornado, para entrar em contacto imediato com a procuradora do cantão de Valais, Beatrice Pilloud, a quem quis passar uma mensagem de “forte indignação”.

“Toda a Itália está a reclamar por verdade e justiça e a pedir que medidas respeitosas sejam aplicadas à luz deste desastre para ir ao encontro do sofrimento e das expectativas das famílias”, pode ler-se num comunicado que aponta que a decisão do tribunal foi tomada sem ter em conta a gravidade dos crimes em causa ou até o risco de fuga e de comprometimento de provas.

O governo italiano também chamou de imediato Gian Lorenzo Cornado, a quem deverá dar instruções sobre os passos a tomar de seguida.

Beatrice Pilloud confirmou à agência Suíça Keystone DAS que foi contactada pelas autoridades italianas, mas defendeu-se, referindo que o tribunal responsável pela libertação de Jacques Moretti foi outro.

“Não quero ser responsável por um incidente diplomático entre os nossos dois países. Não vou ceder a quaisquer possíveis pressões das autoridades italianas, pelo que aconselhei o embaixador a dirigir-se ele próprio às autoridades políticas suíças”, acrescentou.

Jacques Moretti saiu mediante o pagamento de uma fiança de 200 mil francos (cerca de 215 mil euros), ficando ainda obrigado a apresentações semanais junto das autoridades.

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