O ex-chefe do gabinete de Lacerda Sales é ouvido esta sexta-feira e há a “grande expectativa” que revele também pormenores sobre a reunião entre o antigo secretário de Estado e Nuno Rebelo de Sousa, na qual terá estado presente
O ex-chefe do gabinete de António Lacerda Sales, Tiago Gonçalves, pode ser uma das peças fundamentais para a comissão parlamentar de inquérito ao caso das gémeas luso-brasileiras tratadas com o medicamento Zolgensma no Santa Maria. Pelo menos, essa é a “grande expectativa” dos partidos para a audição desta sexta-feira, uma vez que pretendem saber quem, afinal, diz a verdade: se Lacerda Sales ou a sua então secretária Carla Silva. E se, também, o encontro com Nuno Rebelo de Sousa foi somente para apresentar cumprimentos ou se a situação clínica das bebés foi discutida.
“Sabemos que os chefes de gabinete sabem muita coisa importante e esse é o ponto principal, saber o que é que ele sabe. Estou à espera de uma linha condutora do depoimento de Carla Silva e o pouco que Lacerda Sales disse”, diz à CNN Portugal Joana Cordeiro, da Iniciativa Liberal.
Para os deputados com quem a CNN Portugal conversou, Tiago Gonçalves poderá revelar quem, afinal, está a dizer a verdade: se Lacerda Sales ou Carla Silva e, ainda, em que moldes e sob que possíveis orientações (se existiram) o e-mail para o Hospital Santa Maria foi enviado. Lacerda Sales disse que Carla Silva o fez de forma autónoma, mas a ex-secretária negou e vincou que não fez “nada” que o secretário de Estado “não soubesse”. “Temos aqui duas versões contraditórias, a do Lacerda Sales e a de Carla Silva, temos de compreender qual delas é a verdadeira e, eventualmente, o chefe de gabinete poderá ajudar ao apuramento da verdade, poderá ser a pessoa que vai esclarecer quem contactou quem, se houve mais [contactos], se houve algum pedido especial para a marcação da consulta, se foi transmitido o contacto à secretária, etc,”, diz Cristina Rodrigues, do Chega, frisando que Tiago Gonçalves pode mesmo ser uma peça “importante”.
“O objetivo é esse, perceber o que aconteceu. Há duas versões dos mesmos acontecimentos, a de Carla Silva e do próprio Lacerda Sales, temos de tentar perceber se o chefe de gabinete corrobora uma delas”, adianta Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda, partido que irá ser representado na audição desta sexta-feira por Marisa Matias.
Mas a chamada de Tiago Gonçalves a esta CPI poderá também ser esclarecedora num outro aspeto: a reunião que aconteceu entre Lacerda de Sales e Nuno Rebelo de Sousa, à data na qualidade de presidente da Câmara do Comércio do Brasil. Segundo a revista Sábado, Tiago Gonçalves esteve presente nesse encontro e “se se lembrar e souber ainda com precisão o que se passou nessa reunião poderá ajudar a esclarecer as posições contraditórias entre o que tem sido dito publicamente pelo doutor António Lacerda Sales e pelo doutor Nuno Rebelo de Sousa”, adianta João Paulo Correia, do Partido Socialista.
Inês de Sousa Real, deputada única do PAN, destaca que Tiago Gonçalves poderá ser uma “peça fundamental” para que seja possível “perceber quem poderá estar a faltar com a verdade, uma vez que terá estado na reunião”, mas, apressa-se a dizer, “é fundamental que sejam prestados todos os esclarecimentos”. E mais, diz: “para além desta reunião, era importante perceber se foi ou não a primeira vez que havia contactos, temos de saber se, por parte do doutor Nuno Rebelo de Sousa, havia um alegado conflito de interesses, porque a sua esposa trabalhava [à data dos factos] numa seguradora, e, por isso, se teve a condição de lobista”.
“O que é preciso esclarecer é que Nuno Rebelo de Sousa, na peça da Sábado, revela que o Tiago Gonçalves esteve presente na reunião com Lacerda Sales e Nuno Rebelo de Sousa”, que aconteceu a 7 de novembro de 2019. “Tendo [Nuno Rebelo Sousa] dito isto, precisamos de perceber se [Tiago Gonçalves] esteve nessa reunião e o que foi dito nessa reunião. Desta audição, queremos apurar tudo “o que sabe sobre todo este caso e se esteve ou não nessa reunião e o que aconteceu”, vinca a liberal Joana Cordeiro.